Prisões israelenses: o inferno na Terra

O sistema prisional israelense como instrumento de opressão
Por Vijay Prashad e Ubai al-Aboudi / diretor do Centro Bisan de Pesquisa e Desenvolvimento (Ramallah, Palestina).
ABRIL ABRIL
Em janeiro de 2026, a organização israelense de direitos humanos B’Tselem publicou uma atualização sombria de seu trabalho anterior, intitulado “Inferno na Terra: o sistema prisional israelense como uma rede de campos de tortura”. Este relatório documenta as condições horríveis enfrentadas pelos prisioneiros palestinos nas prisões e centros de detenção israelense, revelando uma brutalidade estrutural que deve ser entendida não como uma injustiça isolada, mas como parte de um sistema mais amplo de violência e exclusão dirigido contra o povo palestino.
O relatório «Inferno na Terra» baseia-se na publicação anterior da B’Tselem, de 2024, «Bem-vindo ao Inferno», incorporando números atualizados e depoimentos de 21 palestinos libertados sob acordos de cessar-fogo ou nos meses anteriores. Esses relatos em primeira mão, coletados sob a sombra de ameaças de nova prisão e intimidação, ressaltam que o tratamento dado aos presos palestinos não é aleatório nem incidental, mas parte de uma política desumanizante que tira dos prisioneiros sua dignidade, saúde e, muitas vezes, suas vidas.
No cerne do relatório está uma acusação devastadora: as prisões e centros de detenção israelenses foram sistematicamente transformados numa rede de campos de tortura. De acordo com a B’Tselem, esses espaços são caracterizados por abusos físicos e psicológicos contínuos, superlotação extrema, fome deliberada, negação de cuidados médicos e humilhação dos detentos. Dentro desse sistema, homens, mulheres e crianças encarcerados sofrem violências que ultrapassam os limites da tortura, conforme definido pelo direito internacional.
As evidências são angustiantes. Entre outubro de 2023 e janeiro de 2026, a B’Tselem identificou 84 prisioneiros e presos palestinos que morreram sob custódia de Israel – incluindo um menor – em condições de negligência e abuso crônicos. As autoridades israelenses liberaram apenas quatro desses corpos para as famílias, retendo os demais; um ato que agrava o sofrimento daqueles que já estão de luto.
Os abusos documentados são múltiplos e sistemáticos: os prisioneiros descrevem espancamentos prolongados, tormento psicológico, violência sexual, negação de higiene básica e alimentação e recusa de fornecimento de tratamento médico adequado. Em alguns casos, as alegações incluem agressão sexual com objetos e choques elétricos, além de espancamentos que causam lesões permanentes. Esses relatos são corroborados por vários ex-detidos e estão alinhados com depoimentos coletados por organizações internacionais, sugerindo padrões que vão muito além de meros casos episódicos.
Longe de serem atos incidentais de violência por parte de guardas desonestos, o relatório indica que esse tratamento está incorporado nas práticas institucionais e sancionado – implícita ou explicitamente – pela liderança política de Israel. O ministro da Segurança Nacional israelense, de extrema-direita, Itamar Ben-Gvir, que supervisiona o sistema prisional, às vezes gaba-se publicamente do tratamento mais severo dado aos prisioneiros palestinos, mesmo que o Serviço Prisional Israelense negue abusos sistêmicos.
Esse padrão sistêmico deve ser compreendido no contexto político mais amplo do ataque coordenado de Israel a vidas palestinas desde 7 de outubro de 2023. A transformação das prisões em instrumentos de sofrimento é paralela às políticas de detenção em massa, demolição de casas palestinas e ao genocídio em curso em Gaza. Os palestinos são presos em massa nas suas casas, campos de refugiados e cidades em toda a Cisjordânia ocupada e na Faixa de Gaza; dezenas de milhares foram detidos sob ordens militares, com pouca supervisão, sem um devido processo legal ou transparência.
Essa violência não começou em outubro de 2023; ela ocorreu antes e depois dessa data. Organizações palestinas de direitos humanos documentaram casos de tortura, violação e abuso sofridos por prisioneiros palestinos por muitas décadas. Por exemplo, o relatório da Addameer intitulado «Eu estive lá». Um estudo sobre tortura e tratamento desumano no centro de interrogatório de Al-Moscobiyeh contém descrições e testemunhos mortificantes do uso sistemático da tortura.
O mais revelador nesse relatório é como o sistema judicial israelense protegeu os responsáveis por esses horrores. O que a B’Tselem documentou no seu relatório de 2026 foi o aumento na frequência dos abusos. Mas o que a B’Tselem omitiu foi que a tortura e a violação sempre fizeram parte do sistema prisional israelense.
Entre junho de 1967 e o início de outubro de 2023, 237 palestinos foram mortos em prisões israelenses – uma média de quatro prisioneiros por ano. Este número não inclui os milhares de palestinos que foram detidos, torturados e mortos entre 1948 e 1967, dos quais existem poucos registros.
A relação dos palestinos com as prisões é tão antiga quanto o Mandato Britânico na Palestina. Canções foram entoadas sobre prisioneiros palestinos que resistiram ao Mandato Britânico e à limpeza étnica da Palestina, como a canção de 1930 «From Acre Prison» (Da Prisão de Acre). A escala de abusos enfrentados pelos prisioneiros palestinos é ilustrada pela história contada pelo xeque Hassan al-Labadi. O xeque Hassan era um célebre estudioso religioso na Palestina sob o Mandato, preso em 1939 pelas autoridades britânicas, encarcerado na infame prisão de Acre e encontrado por membros da sua família numa instituição psiquiátrica israelense em 1982. O xeque Hassan perdeu toda a memória devido às condições extremas que testemunhou, e morreu pouco depois de ser libertado para a sua família. As histórias de palestinos que suportaram anos de confinamento, tortura e abuso são muito comuns no contexto prisional israelense. De acordo com estimativas citadas pela Cruz Vermelha, desde 1967 houve mais de 1,2 milhão de casos de prisões de palestinos pelas autoridades israelenses, o que representa cerca de 20% da população palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Para compreender a violência desse sistema, é fundamental entender o uso da detenção administrativa – uma prática pela qual indivíduos são mantidos presos indefinidamente, sem acusação ou julgamento. De acordo com dados da B’Tselem, milhares de palestinos – incluindo muitos presos sem acusações formais – permanecem encarcerados sob esse regime. Tal detenção viola normas fundamentais de justiça e devido processo legal, deixando os detidos em uma espécie de limbo, sem recurso legal ou clareza sobre as acusações contra eles.
Politicídio
Mas para compreender todo o alcance das políticas punitivas israelenses, devemos olhar para além das estatísticas agregadas; para indivíduos cuja detenção se tornou emblemática da luta pelos direitos palestinos. Marwan Barghouti é uma dessas figuras, mas existem muitas outras.
Barghouti, um líder palestino veterano e figura-chave no Fatah, está preso em prisões israelenses desde 2002. Condenado por um tribunal de Israel por várias acusações relacionadas com a violência durante a Segunda Intifada – com provas contestáveis e forjadas –, ele é amplamente conhecido tanto na Palestina quanto internacionalmente como prisioneiro político.
Ao longo de décadas, a prisão de Barghouti tem sido um símbolo de resistência e uma aspiração política palestina, que une as diversas organizações palestinas. Muitos vêem-no como um potencial líder unificador do movimento nacional da Palestina. A sua ausência de um importante acordo de libertação de prisioneiros acertado durante as negociações de cessar-fogo em 2025, que envolveu quase dois mil prisioneiros palestinos, foi um forte lembrete de seu peso político e da recusa de Israel em libertá-lo.
Mais preocupante do que a sua detenção contínua são as condições documentadas que ele tem enfrentado enquanto preso. Várias fontes confiáveis relatam que Barghouti está em confinamento solitário prolongado desde o início do genocídio em Gaza, sujeito a espancamentos, humilhações forçadas e outras formas de maus-tratos por parte dos funcionários da prisão. Essas alegações incluem ser forçado a se deitar no chão e ter o ombro deslocado, ser espancado durante transferências e suportar condições adversas com cuidados médicos limitados. Defensores dos direitos humanos em Israel e além têm argumentado que essas condições equivalem a tortura e coerção psicológica.
A prisão e o assassinato funcionam como instrumentos paralelos dentro da mesma estratégia política: quando a prisão consegue neutralizar a liderança, ela silencia a resistência lentamente; quando falha, o assassinato seletivo remove essas figuras permanentemente do cenário político.
Israel prende e mata sistematicamente líderes políticos, líderes comunitários, médicos, engenheiros, físicos (o caso de Imad Barghouthi é um exemplo) e até mesmo ativistas estudantis como parte da sua campanha de politicídio, isto é, a destruição deliberada da existência política de um povo. O assassinato e a prisão de líderes de grupos palestinos que estão fora da Autoridade Palestina tornaram-se rotina e enfraqueceram os processos políticos palestinos.
A prisão é um local fundamental de punição para a vida política palestina: tornou-se um meio de controlar a sociedade através da remoção de figuras-chave, da instilação do medo e da fragmentação das comunidades. Desta forma, o sistema prisional funciona como parte de uma estratégia mais ampla para minar a autodeterminação palestina e restringir a capacidade do povo palestino de manter a organização política e a continuidade nacional.
Mas esta desumanização sistemática não impediu os palestinos de resistirem a este sistema. Acadêmicos e líderes políticos palestinos presos conseguiram resistir concentrando-se na educação e no trabalho acadêmico. Desde escrever palestras políticas usando ossos de galinha, cinzas e pequenos pedaços de papel encontrados em maços de cigarros, como os palestinos faziam nos anos 60, até fazer greves de fome exigindo acesso a papel, canetas, livros e educação, a experiência palestina é verdadeiramente única, pois eles literalmente transformaram as prisões em escolas e universidades. A Universidade Al Quds administrou um programa a partir de 2005 que oferecia aos prisioneiros palestinos diplomas de bacharelato e mestrado através de um sistema de educação e testes projetado para garantir a excelência acadêmica; até 2023, 800 prisioneiros palestinos conseguiram formar-se no programa.
O sofrimento dos prisioneiros palestinos não deve ser visto isoladamente. A prisão serve aos objetivos políticos mais amplos de Israel: suprimir a liderança política palestina, quebrar o espírito de resistência e normalizar um regime de controle que se estende das celas das prisões às comunidades em todos os territórios ocupados. A transformação das instalações de detenção israelenses no que a B’Tselem corretamente chama de campos de tortura é um símbolo gritante de como a máquina do Estado pode ser usada para desumanizar toda uma população.
Ao refletirmos sobre o relatório da B’Tselem, devemos insistir que as instituições internacionais, os governos e os mecanismos de direitos humanos responsabilizem os culpados por abusos sistêmicos. Os prisioneiros palestinos, sejam figuras de destaque como Barghouti ou civis comuns presos em ondas de detenções, merecem tratamento humano, transparência e proteções legais. Acabar com essas práticas não é apenas uma questão de obrigação legal; é um imperativo moral.
O relatório «Inferno na Terra» obriga-nos a encarar a realidade das prisões israelenses não como locais isolados de justiça criminal, mas como pontos-chave de um sistema mais amplo de opressão. Ignorar essa brutalidade é aceitar a normalização da tortura e do tratamento cruel no mundo moderno. É hora de a comunidade global agir – com firmeza, inequivocamente e em solidariedade com os palestinos cujas vidas estão sendo moldadas dentro e fora das paredes da prisão.
Artigo republicado no âmbito de uma parceria com a Globetrotter, traduzido por Raul Chiliani, editado pelo AbrilAbril.
