Portugal: Greve Geral em defesa dos direitos trabalhistas

Foto: CGTP-IN
Greve geral convoca todos para derrotar o ataque generalizado
AVANTE! – Jornal do Partido Comunista Português (PCP)
O pacote laboral que o Governo entregou, na semana passada, na Assembleia da República, «contém todas as medidas que os trabalhadores já rejeitaram e que com a luta vamos derrotar», alertou a CGTP-IN, salientando que a Proposta de Lei 77/XVII/1, para revisão do Código do Trabalho e legislação conexa, «agride todos os trabalhadores» e «a todos convoca para lhe dar o combate que vai conduzir à sua derrota».
A posição da confederação foi apresentada em conferência de imprensa, na terça-feira, dia 19 de maio, ao final da tarde. O Secretário-Geral da CGTP-IN, questionado sobre recentes declarações da ministra do Trabalho, acusou o Governo de recorrer a artimanhas e apelou a que o debate seja centrado no conteúdo das medidas e no impacto que estas terão na vida dos trabalhadores.
Sobre adesões de outras estruturas à greve geral, convocada para 3 de junho, Tiago Oliveira, citado pela agência Lusa, declarou que ela «é uma greve de todos, uma greve para derrotar o pacote laboral» e adiantou que há adesões de várias estruturas sindicais. A CGTP-IN, acrescentou, desenvolve ação diária em empresas e locais de trabalho, para mobilizar os trabalhadores.
Foi reafirmada a exigência de retirada deste pacote laboral, «um autêntico assalto aos direitos dos trabalhadores».
A proposta do Governo «agrava a precariedade, desregula ainda mais os horários, fomenta o trabalho gratuito, acrescenta dificuldades às que já existem para a conciliação da vida profissional com a vida pessoal e familiar, pretende contornar o princípio constitucional da segurança no emprego, tentando impor a demissão sem justa causa», afirma-se no comunicado que a CGTP-IN emitiu, reagindo à entrada na AR de um pacote com 85 páginas e mais de cem modificações.
Este é «um pacote laboral feito à medida dos interesses das grandes empresas, que fragiliza o trabalhador ainda antes da sua contratação, durante a prestação de trabalho e mesmo quando este finda» e que «ataca o direito à greve, à contratação coletiva e à liberdade sindical».
O plano do assalto
A Intersindical Nacional apresentou, em seis eixos, «uma lista não exaustiva do assalto ao salário e aos direitos que o Governo quer, mas a luta dos trabalhadores vai impedir».
A proposta «facilita as demissões, com a tentativa de destruição do princípio da proibição da demissão sem justa causa, ao permitir a não reintegração de trabalhador demitido ilicitamente».
Em vários pontos, «eterniza e generaliza a precariedade», pois «prevê que trabalhadores que nunca tenham tido um contrato efetivo possam ter para sempre um contrato com vínculo precário; dá liberdade total para todos os patrões promoverem demissões coletivas e, no imediato, recorrerem ao outsourcing [subcontratação a empresas externas], para pagarem menos salários e garantirem menos direitos; amplia os motivos justificativos para contratar por tempo determinado, para os aposentados e os desempregados de longa duração; quando o contrato de utilização do trabalho temporário é ilícito, a integração do trabalhador passa a ser na empresa de trabalho temporário, ao invés de o integrar na empresa utilizadora; cria ainda mais obstáculos à regularização do falso trabalho independente, através do aumento do limiar de dependência econômica para 80% do rendimento a um só patrão; para os trabalhadores das plataformas digitais fica ainda mais difícil confirmar que existe um contrato de trabalho».
Num terceiro conjunto de medidas, o pacote laboral «desregula ainda mais o tempo de trabalho e cria mais entraves à conciliação da vida profissional com a vida pessoal e familiar». A CGTP-IN afirma: «a introdução do banco de horas, permitindo ao patrão aumentar o horário até duas horas por dia, 10 por semana e 150 horas por ano, que não são pagas como trabalho extraordinário»; o patrão terá «a possibilidade de impor aos trabalhadores, com filhos até 12 anos, deficiência ou doença crônica, a obrigação de trabalharem à noite, fins-de-semana ou feriados»; o pacote «impõe os dois anos da criança, como máximo para amamentar e obriga a trabalhadora a apresentar atestado para exercer este direito».
O ataque à contratação coletiva é feito «através da facilitação do processo de caducidade das convenções colectivas». Além disso, a proposta do Governo «permite ao patrão escolher a convenção a aplicar», «impede a aplicação da contratação coletiva a trabalhadores temporários e de outsourcing» e permite «reduzir, modificar ou suspender a aplicação da contratação coletiva em situação de crise empresarial».
O ataque à liberdade sindical é concretizado, «dificultando o acesso dos sindicatos às empresas e locais de trabalho, especialmente as que não têm trabalhadores sindicalizados», e «colocando na esfera de decisão patronal as condições e exercício do direito de reunião e de distribuição e afixação de informação».
Por fim, é atacado o direito à greve, «impondo serviços mínimos obrigatórios, mesmo quando não estejam em causa necessidades sociais impreteríveis, bastando para tal que a entidade se integre em setor de atividade suscetível de prestar atividades deste tipo».
Faz greve e sai à rua!
Mobilização cresce com muitas razões
A greve geral de 3 de Junho, como voltou a salientar a CGTP-IN, «é mais um momento para todos os que trabalham no nosso país, independentemente do setor ou do vínculo, demonstrarem a sua rejeição à degradação das suas condições de vida e ao retrocesso social que é o pacote laboral».
É igualmente «um momento para reivindicar mais salário, num contexto em que aumenta o custo de vida, para exigir a melhoria dos direitos e dar um basta à precariedade e à desregulação das jornadas», «para exigir as alterações que se impõem, para efetivar plenamente o direito à greve, à contratação coletiva e à liberdade sindical».
Na greve geral, «afirmamos a defesa e a necessidade de melhoria dos serviços públicos e das funções sociais do Estado, do SNS, da habitação e, entre outras, da educação e dos transportes públicos».
Em suma, é «uma greve geral para derrotar o pacote laboral e afirmar as soluções para os muitos problemas que enfrentamos e exigir o futuro a que temos direito».
Em vários setores, empresas e grupos, os motivos indicados pela CGTP-IN são reforçados e ampliados pela participação dos trabalhadores, pela apresentação de pré-avisos de greve e pela indicação de razões acrescidas para fazer a paralisação – um trabalho de esclarecimento, mobilização e compromisso que se desenvolveu até o início da greve geral.
O CESP considera que, com o pacote laboral, o Governo pretende legalizar práticas ilegais de ataque aos direitos dos trabalhadores, como as que ocorrem no Pingo Doce. Para o sindicato, fica assim demonstrada a influência dos patrões da grande distribuição nas propostas de alteração legislativa.
Diante das lojas do Pingo Doce em oito distritos, o CESP realizou ações de denúncia da desvalorização dos trabalhadores, quando a Jerónimo Martins, em 2025, somou 646 milhões de euros de lucros e continuou a ter o gestor mais caro do país, recebendo o equivalente a 226 funcionários.
Situação semelhante denunciou o STT nos setores de telecomunicações (lucros milionários, sustentados numa crescente externalização de serviços, baixos salários e vínculos precários), comunicação social e audiovisual (milhares de trabalhadores vivem na instabilidade permanente, muitos em subcontratação).
O setor financeiro é um setor bastante rentável, exige muitas qualificações dos seus trabalhadores, mas paga salários quase miseráveis, sem ter em conta as exigências colocadas, denunciou o SINTAF. Com o pacote laboral, «não sabemos se, no futuro, não seremos todos outsourcing», alertou o sindicato, que promoveu, na semana passada, uma assembleia com mais de duas centenas de trabalhadores do BNP Paribas. Estes rejeitaram o pacote laboral e declararam apoio à greve geral.
Sindicatos de diferentes setores têm dado notícia da realização de inúmeras assembleias, com aprovação de uma moção para rejeitar o pacote laboral e assumir o compromisso de adesão à greve geral e de participação nas concentrações e manifestações convocadas para o dia 3.
Assim foi, por exemplo, na Frismag (Torres Vedras), na Versigent (antiga Aptiv, em Castelo Branco), na ENEOP3 e na Uchiyama (ambas em Viana do Castelo), na Teijin (Matosinhos), na Bimbo, na OGMA; na higiene urbana do município de Évora, no serviço de alimentação (SUCH) dos Hospitais da Universidade de Coimbra, nas conservas COFISA, no Complexo Grundig (em Braga, onde esteve, na segunda-feira, Tiago Oliveira, Secretário-Geral da CGTP-IN e onde as organizações representativas dos trabalhadores das empresas Aptiv, Fehst e Bosch CM subscreveram um apelo comum), na Super Bock (Matosinhos), na Aumovio (Vila Real), na Gestamp (Cerveira, com greves parciais, na segunda e na terça-feira, dias 25 e 26), no Complexo Industrial da Volkswagen Autoeuropa.
A FECTRANS e os seus sindicatos apresentaram pré-avisos de greve (em alguns casos, com outras organizações sindicais) para o dia 3 em todos os setores do seu âmbito, designadamente transporte rodoviário e ferroviário de passageiros e mercadorias, metropolitanos, marítimos, fluviais, portos e viagens, centros de inspeção automóvel, escolas de condução, táxis, correios e telecomunicações, comunicação social e audiovisual. A federação divulgou igualmente um extenso plano de iniciativas de esclarecimento e mobilização.
O SNPVAC, em assembleia-geral, aprovou a adesão dos tripulantes de voo à greve geral.
A FIEQUIMETAL apresentou um pré-aviso para todos os setores representados pelos seus sindicatos e lançou apelos específicos para os trabalhadores das empresas do Grupo EDP e das lojas e centros de contacto da EDP, contratados através de prestadoras de serviços.
Foram ainda emitidos pré-avisos pelo Sindicato Nacional dos Psicólogos («em luta por nós, enquanto classe trabalhadora, mas também por todas as pessoas que acompanhamos», porque «sem direitos não pode haver saúde mental») e pelo Sindicato dos Trabalhadores em Arquitetura.
No seu pré-aviso de greve para as autarquias e empresas da Administração Local, o STAL acrescentou exigências específicas (em matérias como o suplemento de penosidade e insalubridade, suplementos de disponibilidade e piquete, profissões de desgaste rápido e reposição integral do direito à indenização devida por acidente de trabalho e doença profissional). «A ofensiva da coligação de direita, com o apoio da direita liberal e da extrema-direita, é contra todos os trabalhadores, dos setores privado e público», salientou o sindicato.
No mesmo sentido intervêm, entre outros, a FNSTFPS, a FESAHT, a FESETE, o Sindicato dos Jornalistas, o STARQ (arqueologia) e o SINAPSA.
Envolvendo diversos sindicatos, as uniões distritais da CGTP-IN realizam iniciativas de contato e esclarecimento, dirigidas a trabalhadores e à população, como sucede, em Lisboa, hoje (em interfaces de transportes, de manhã, e no Campo Grande, ao final da tarde, com a Interjovem), sábado (na Feira do Livro) e no Dia Mundial da Criança (de manhã, na Voz do Operário, com Tiago Oliveira).
Em dois ou três dias, uma centena de advogados e juristas subscreveu e divulgou uma carta-aberta, condenando a subversão da «Constituição do Trabalho» e declarando apoio solidário à greve geral.
«Todos somos necessários para derrotar o pacote laboral do Governo e dos patrões», destacou a CIL – Coordenadora das Comissões de Trabalhadores da Região de Lisboa, num comunicado de dia 18.
O Comitê Nacional Preparatório do 20.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes apelou à adesão dos jovens à greve geral, reafirmando que «a luta dos trabalhadores está intimamente ligada à luta da juventude pela paz, pela emancipação individual e coletiva, por um futuro de progresso social, trabalho com direitos, acesso universal à educação, cultura, saúde, habitação e participação democrática».
