Guerra, imperialismo e resistência

Jorge Cadima

ODIARIO.INFO
A guerra acompanha o capitalismo ao longo de toda a sua História. Mas é na fase imperialista do capitalismo que a guerra se tornou inseparável da expansão mundial do grande capital. As centenas de milhões de vítimas das grandes e pequenas guerras que marcam a História do capitalismo testemunham a natureza profundamente criminosa desse sistema socio-económico.

Hoje ressoam de novo os tambores do belicismo. O “partido da guerra” avoluma-se no seio das grandes potências imperialistas e seus acólitos. É assim nos EUA, mas também na UE, Inglaterra, Canadá, Japão, Israel e Ucrânia. Apesar das suas rivalidades, acabam por alinhar com as exigências da grande potência imperialista, os EUA. Afinam pelo diapasão da guerra – em todas as suas formas – contra os povos e países que não aceitam submeter-se à dominação imperialista. Desesperadamente, procuram travar o seu próprio declínio e a sua decadência. Espalham a guerra e o caos para tentar manter uma hegemonia política que já não corresponde à realidade económica.

O partido da guerra

Em 18 de junho reuniram-se em Bruxelas os ministros da Defesa da OTAN, preparando a Cúpula deste bloco político militar de 7 e 8 de julho na Turquia. O Secretário-Geral Rutte (o tal que elogia a severidade do “paizinho” Trump) deu o mote. Regozijou-se com «o aumento massivo nos investimentos» militares no ano 2025, com “os europeus” e Canadá a aumentarem as despesas militares em 90 bilhões de dólares. «Trata-se dum valor estonteante, que representa um aumento de quase 20% num único ano, estando previstos ulteriores aumentos para 2026» (1). Há sempre dinheiro para a guerra e para os banqueiros (que no fundo é a mesma coisa). Dinheiro que vai ser roubado aos povos. O Ministro da Guerra dos EUA, Hegseth, discursou em Bruxelas. Anunciou uma «OTAN 3.0, modelada na OTAN 1.0 que ganhou a Guerra Fria». Quer uma Europa que seja «uma potência militar aliada com uma América forte». Reiterou a exigência de Trump de que os países da OTAN gastem 5% do seu PIB em despesas militares e reafirmou que os EUA «dão o exemplo» com um orçamento militar de um bilhão (2) de dólares em 2026, que subirá para 1,5 bilhões em 2027. Foi cáustico com os “recalcitrantes” e elogiou os que estão se preparando para «conflitos simultâneos em todo o mundo».

A ex-deputada alemã Sevim Dagdelen sintetiza assim: «A OTAN 3.0 significa retirar a mordaça ao revanchismo alemão contra a Rússia, para defender os interesses dos EUA. E revanche de quê? Vingança pela derrota alemã às mãos da União Soviética a 8 de maio de 1945 em Berlim» (morningstaronline.co.uk, 20.6.26). Quem ache que isso é exagero faria bem em ler com atenção o discurso do ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro deste ano. O ano de 1945, ano da derrota de Hitler, também lá consta: «Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente esteve em expansão (…). Mas em 1945, pela primeira vez desde a era de Colombo, estava se contraindo. (…) Os grandes impérios Ocidentais tinham entrado em declínio terminal, acelerado pelas revoluções comunistas ateias e por levantamentos anticoloniais que iriam transformar o mundo e plantar a bandeira vermelha da foice e do martelo em vastas áreas do mapa nos anos que se seguiram. Neste contexto, então como hoje, muitos chegaram a pensar que a era da dominação Ocidental tinha chegado ao fim (…). Mas em conjunto, os nossos antecessores (…) recusaram essa opção (…) e é aquilo que o Presidente Trump e os Estados Unidos querem de novo fazer, convosco». Para quem anda há décadas a ouvir dizer que “o comunismo morreu”, que “a História chegou ao fim” com a vitória eterna do capitalismo neoliberal e outras patranhas semelhantes, o discurso de Rubio parecerá estranho. Se o imperialismo ganhou em toda a linha, para quê uma nova Cruzada pela “dominação Ocidental”?

O alvo principal da Cruzada pela “dominação Ocidental” não é explicitado por Rubio, mas está nas entrelinhas. Potência “não Ocidental”, que fez uma “revolução comunista” e um “levantamento anticolonial” é a China, o país que tem hoje a maior economia do planeta e que é a grande fábrica do mundo. Para o imperialismo é inaceitável que a China, resgatada pela grande Revolução Chinesa de 1949 do Século de Humilhação que as potências imperialistas lhe haviam imposto, se tenha erguido e tornado na maior potência econômica do planeta. Fê-lo sem recorrer à agressão e à guerra, ao contrário do que aconteceu na ascensão das potências imperialistas. E fê-lo tendo de funcionar no contexto de regras econômicas mundiais impostas por uns EUA hegemônicos desde há quase quatro décadas. Faz agora 26 anos que o General Loureiro dos Santos previa uma «guerra mundial inevitável» porque os Estados Unidos da América – então potência hegemônica incontestável – não iriam aceitar a ascensão de novas potências que «reúnam capacidade para se opor ou desafiar os Estados Unidos», considerando a guerra «praticamente inevitável […] dentro de 15, 20 anos» (Diário de Notícias, 13.3.2000). Trump e Xi Jiping não eram ainda dirigentes políticos nos seus países. Putin tinha acabado de se tornar Presidente de uma Rússia destruída e exangue após uma década de brutal restauração capitalista. Mas já então o General Loureiro dos Santos ouvia nos corredores da OTAN os planos de guerra que hoje estão a ser concretizados. Não porque outros fossem agressivos, mas porque o imperialismo dos EUA não aceita “desafios” à sua hegemonia.

Para esta nova “Guerra Fria”, tal como para a anterior, estão convocadas todas as forças defensoras do capitalismo, desde a social-democracia aos fascistas (com velhas ou novas roupagens). E estes estão correspondendo, apesar de zangas públicas. O Conselho Europeu de 18-19 junho 2026 reiterou os planos de militarização e o apoio incondicional à Ucrânia, ignorando a sua permanente glorificação dos velhos colaboradores com o nazismo (3). Entretanto, os fascistas sionistas ficam impunes apesar do genocídio sem fim dos povos do Oriente Médio. Como afirmou o PM alemão Merz, aquando do primeiro ataque de Israel ao Irã: «Este é o trabalho sujo que Israel está fazendo por todos nós» (RT, 18.6.25). Ou de forma igualmente clara nas palavras da dirigente do Partido Conservador inglês: «Israel está combatendo uma guerra por procuração em prol do Reino Unido, tal como a Ucrânia o faz em prol da Europa Ocidental contra a Rússia» (Middle East Eye, 2.6.25). Que ninguém subestime o significado de frases como a de Merz: «Há ainda em parte da nossa sociedade um enraizado medo da guerra. Mas eu não o partilho» (Süddeutsche Zeitung, 27.6.26). Ou títulos como o de um jornal inglês: «Grã-Bretanha prepara mísseis de longo alcance para ajudar a Ucrânia a bombardear Moscou» (telegraph.co.uk, 20.6.26). O desespero do declínio pode conduzir as potências imperialistas a aventureirismos catastróficos.

A importância da resistência

Se é um erro ignorar os reais perigos de guerra que pairam sobre os trabalhadores e os povos, é igualmente errado deixar-se paralisar pelo medo, perante a bravata arrogante do “partido da guerra”. O que é decisivo é a resistência dos povos face à deriva belicista e fascistizante dos centros imperialistas. Sendo certo que a agressão EUA-Israel contra o Irã não terminou, a verdade é que o ataque de 28 de fevereiro foi derrotado, mostrando que o poder imperialista tem limites, mesmo no plano estritamente militar. Tal como aconteceu com o governo Montenegro e o seu pacote laboral em Portugal, a resistência dos povos é o fator determinante para barrar o caminho ao “partido da guerra”. A luta pela paz e a solidariedade com os povos vítimas do imperialismo é uma tarefa central do momento presente. As ações convocadas em Lisboa e no Porto para dia 8 de julho são um momento para as afirmar nas ruas.

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Notas

(1) https://www.nato.int/en/news-and-events/articles/news/2026/06/17/nato-secretary-general-previews-defence-ministers-meeting-building-a-stronger-europe-in-a-stronger-nato.

(2) Milhão de milhões.

(3) Após a transformação de Bandera em herói nacional, a Ucrânia agora repatriou e enterrou com honras de Estado A. Melnyk, outro «dirigente dum movimento [OUN] que apoiou e colaborou com a Alemanha Nazi na perseguição e assassinato de milhões de judeus» (www.jpost.com, 27.5.26). O Presidente da Polónia anunciou ir retirar a Zelenski a mais alta condecoração de Estado polaca após «o dirigente ucraniano atribuir a uma unidade militar o nome duma organização paramilitar ucraniana [UPA] acusada de massacrar polacos durante a II Guerra Mundial» (AP, 19.6.26).

Fonte: https://www.avante.pt/pt/2744/temas/184301/Guerra-imperialismo-e-resist%C3%AAncia.htm