Cuba reafirma o legado da Revolução

Jornal Avante! (Partido Comunista Português)

A Ilha Socialista quer criar, inovar e seguir em frente
Em mais um ani­ver­sário da Re­vo­lução Cu­bana, as­si­na­lado a 1º de ja­neiro, no ano em que se co­me­mora o cen­te­nário de Fidel Castro, são muitos os de­sa­fios co­lo­cados ao povo cu­bano, sendo es­sen­cial ampliar a so­li­da­ri­e­dade internacionalista.

A causa prin­cipal das di­fi­cul­dades re­side no blo­queio, mas há muito o que os co­mu­nistas e o povo de Cuba podem re­solver
In­ter­vindo numa reu­nião do Co­mitê Cen­tral do Par­tido Co­mu­nista de Cuba (PCC) e no en­cer­ra­mento da sessão da As­sem­bleia Na­ci­onal de Poder Po­pular, o Pre­si­dente da Re­pú­blica de Cuba e Pri­meiro Se­cre­tário do PCC, Mi­guel Diaz-Canel, re­feriu-se ao mo­mento ex­tre­ma­mente com­plexo para a eco­nomia e a vida co­ti­diana do povo que, su­bli­nhou, exige res­postas mais pro­fundas, rá­pidas e res­pon­sá­veis. Não se trata de mais uma crise, sa­li­entou, mas da acu­mu­lação de ad­ver­si­dades, di­fi­cul­dades e erros pró­prios, exa­cer­bados por um cerco ex­tre­ma­mente agres­sivo, num con­texto in­certo e pe­ri­goso.

Para o di­ri­gente cu­bano, uma coisa é certa: «Nin­guém em Cuba pre­cisa que lhe digam que a eco­nomia está sob pressão, isso sente-se nas filas, nos bolsos, nos apa­gões, nos trans­portes de­fi­ci­entes e no custo cada vez mais ele­vado dos ali­mentos. Vi­emos de anos de queda do Pro­duto In­terno Bruto (PIB), de in­flação ele­vada, es­cassez, crise ener­gé­tica e quebra da re­ceita ex­terna». Se a causa prin­cipal das di­fi­cul­dades re­side no blo­queio im­posto pelos EUA e no seu agra­va­mento re­cente, Mi­guel Diaz-Canel cen­trou a sua in­ter­venção na­quilo que está nas mãos do povo e dos co­mu­nistas de Cuba re­sol­verem, a co­meçar pela eco­nomia.

«Temos sido re­a­listas e au­to­crí­ticos, mas também temos re­a­fir­mado a con­fi­ança na ca­pa­ci­dade de o povo cu­bano re­sistir e vencer. A pá­tria não se rende! Se­guimos um prin­cípio: “Uni­dade, con­ti­nui­dade e re­sis­tência cri­a­tiva”. Uni­dade em torno do Par­tido, da Re­vo­lução e do ideário mar­xista, mar­tiano e fi­de­lista. Con­ti­nui­dade do le­gado his­tó­rico e da obra que cons­truímos. Re­sis­tência cri­a­tiva para, no meio das ca­rên­cias, criar, inovar e se­guir em frente», afirmou, anun­ci­ando um con­junto de me­didas que, res­pei­tando estes prin­cí­pios, cum­pram a von­tade po­lí­tica de mudar o que for ne­ces­sário para de­fender a jus­tiça so­cial e a so­be­rania na­ci­onal.

Avançar com o so­ci­a­lismo

Em de­bate no PCC e na As­sem­bleia Na­ci­onal do Poder Po­pular es­ti­veram temas que, como afirmou o Pre­si­dente pe­rante os de­pu­tados, «tocam no co­ração do pro­jeto so­ci­a­lista que de­fen­demos e cons­truímos». Re­to­mando a his­tó­rica per­gunta co­lo­cada por Le­nin, «Que fazer?», Mi­guel Diaz-Canel adi­antou a res­posta: «fazer, agir, trans­formar.» Como? Mo­bi­li­zando forças e ta­lento com cla­reza de ob­jetivos; li­gando in­te­resses e as­pi­ra­ções do país com o apro­vei­ta­mento má­ximo dos «es­cassos re­cursos de que dis­pomos».

O au­mento da pro­dução na­ci­onal foi apon­tado como pilar fun­da­mental do cres­ci­mento eco­nô­mico, ao mesmo tempo que se alertou para «dis­tor­ções, in­su­fi­ci­ên­cias e en­traves bu­ro­crá­ticos» que pre­ju­dicam hoje essa mesma pro­dução. É tudo isto que é pre­ciso en­frentar e re­solver, não ha­vendo lugar para o que o di­ri­gente co­mu­nista ape­lidou de «ad­mi­nis­tração re­sig­nada da crise».

Entre os ob­jetivos es­ta­be­le­cidos contam-se a re­dução da vul­ne­ra­bi­li­dade ener­gé­tica e da de­pen­dência da im­por­tação de com­bus­tí­veis; a re­cu­pe­ração de ca­pa­ci­dades pro­du­tivas, es­pe­ci­al­mente de ali­mentos, energia e in­dús­trias bá­sicas; o con­trole da in­flação; a sus­ten­ta­bi­li­dade e di­ver­si­fi­cação dos in­ves­ti­mentos ex­ternos; a pro­teção dos setores mais vul­ne­rá­veis; a re­dução drás­tica dos gastos im­pro­du­tivos.

Todas as trans­for­ma­ções que há a levar por di­ante, su­bli­nhou o líder cu­bano, «não são apenas es­tru­tu­rais, mas de men­ta­li­dade. Vemos no dia-a-dia coisas que se travam ou sim­ples­mente não avançam por falta de fle­xi­bi­li­dade ou por es­quemas que não fun­ci­onam para estes tempos, nem sob cir­cuns­tân­cias de tanto as­sédio». O único li­mite a esta fle­xi­bi­li­dade, ga­rantiu, é «aquilo que atentar contra os nossos prin­cí­pios, a nossa au­to­de­ter­mi­nação, a so­be­rania e in­de­pen­dência na­ci­o­nais».

As me­didas as­su­midas, anun­ciou ainda o Pre­si­dente, não são meras con­signas, mas «um sis­tema de de­ci­sões con­cretas, com prazos e res­pon­sá­veis». Assim, não basta aprovar me­didas e planos: há que cum­prir e prestar contas. Os de­sa­fios que o país en­frenta só se re­sol­verão, acres­centou, com tra­balho con­creto, con­trole sis­te­má­tico e par­ti­ci­pação po­pular ativa.

Sem lugar para o der­ro­tismo!

Apesar de erros e in­su­fi­ci­ên­cias, os re­vo­lu­ci­o­ná­rios cu­banos estão cons­ci­entes de que as di­fi­cul­dades que o país atra­vessa re­sultam so­bre­tudo «de seis dé­cadas de per­se­guição eco­nô­mica ex­terna», agra­vada nos úl­timos meses. Trata-se, su­bli­nhou o Pre­si­dente, de uma po­lí­tica de má­xima pressão, de des­gaste, de apli­cação de me­didas co­er­citivas, acom­pa­nhada por uma co­varde e ca­lu­niosa cam­panha de in­to­xi­cação mi­diá­tica. A ad­mi­nis­tração estadunidense e a co­mu­ni­dade contrarre­vo­lu­ci­o­nária se­diada nos EUA nunca dei­xaram de so­nhar com outra Cuba sub­me­tida e de­pen­dente, im­pressa como mais uma es­trela na ban­deira norte-ame­ri­cana.

A luta é árdua, longa e de­si­gual e a regra do ini­migo é que não há re­gras, afirmou o Pre­si­dente da Re­pú­blica de Cuba e Pri­meiro Se­cre­tário do PCC. Como afirmou, «nin­guém deixou es­crito como se cons­trói o so­ci­a­lismo num país que al­cançou a sua in­de­pen­dência efetiva de­pois de quatro sé­culos de co­lo­ni­a­lismo e 60 anos de su­bor­di­nação ne­o­co­lo­nial. Nin­guém como Cuba pode falar do que sig­ni­fica im­pul­si­onar o seu de­sen­vol­vi­mento com jus­tiça so­cial nas con­di­ções fa­vo­rá­veis da in­te­gração num campo so­ci­a­lista re­pen­ti­na­mente de­sa­pa­re­cido. Nin­guém nos pode contar o que é re­sistir exem­plar­mente, porém com custos eco­nômicos e, logo, também so­ciais, a uma po­lí­tica in­fame de blo­queio re­cru­des­cido e de per­se­guição feroz como sofre Cuba. Essa his­tória estamos escrevendo-a nós, os cu­banos, o povo de Cuba, todos os dias e agora mesmo.» As di­fi­cul­dades são enormes, re­co­nheceu, mas «aqui não há lugar para o der­ro­tismo».

O exemplo de Fidel

A As­sem­bleia Na­ci­onal de Poder Po­pular no­meou 2026 como “Ano do Cen­te­nário do Co­man­dante em Chefe Fidel Castro Ruz” e o pen­sa­mento e a ação do líder re­vo­lu­ci­o­nário cu­bano es­tarão em des­taque du­rante o ano num vasto e di­ver­si­fi­cado pro­grama co­me­mo­ra­tivo. O mote das co­me­mo­ra­ções é uma frase de Raul Castro, se­gundo o qual «Fidel está pre­sente onde quer que se tra­balhe (…), onde quer que um cu­bano, seja ele quem for, es­teja a de­fender a Re­vo­lução».

O pro­grama prevê que cada co­mu­ni­dade, centro edu­ca­tivo e local de tra­balho se torne um es­paço para co­me­morar este cen­te­nário, e pre­tende-se que as co­me­mo­ra­ções as­sumam um ca­ráter po­pular. Os jo­vens de­sem­pe­nharão um papel cen­tral, de modo a que se as­sumam como a «ge­ração do cen­te­nário de Fidel».

Entre as ini­ci­a­tivas co­me­mo­ra­tivas, des­taca-se a in­tenção de pu­blicar a obra com­pleta do Co­man­dante-em-Chefe da Re­vo­lução Cu­bana.

So­li­da­ri­e­dade não é uma pa­lavra vã… e é re­cí­proca

Um dos eixos cen­trais da Re­vo­lução cu­bana é a so­li­da­ri­e­dade – e são muitos os países e povos que dela se be­ne­fi­ci­aram e be­ne­fi­ciam: nos com­bates contra o co­lo­ni­a­lismo e o im­pe­ri­a­lismo, Cuba es­teve ao lado de An­gola, da Na­míbia, do Vi­et­nã e de tantos ou­tros países; o fim do apartheid na África do Sul tem marca cu­bana; pro­fis­si­o­nais de Saúde partem de Cuba para onde mais nin­guém ousa ir, em mo­mentos de ca­tás­trofe na­tural ou sa­ni­tária, e re­forçam di­a­ri­a­mente sis­temas de saúde mais vul­ne­rá­veis; a Ope­ração Mi­lagre de­volveu a visão a muita gente na Ve­ne­zuela, na Bo­lívia e em muitos ou­tros lu­gares; e mi­lhões apren­deram a ler graças aos seus mé­todos e pro­fes­sores; mi­lhares de mé­dicos idos de África, da Ásia e da Amé­rica La­tina for­maram-se em Cuba e hoje apoiam o de­sen­vol­vi­mento dos seus países…

Mas Cuba também re­cebe so­li­da­ri­e­dade de todos os cantos do mundo. Do Mé­xico par­tiram, há dias, dois pe­tro­leiros com 80 mil barris de com­bus­tível a bordo, e a Rússia também en­viou so­li­da­ri­a­mente pe­tróleo para o país. A China co­la­bora na pro­dução de ener­gias al­ter­na­tivas, de modo a di­mi­nuir a de­pen­dência de pe­tróleo (foram já sete os par­ques so­lares fo­to­vol­taicos ofe­re­cidos a Cuba) e o Vi­et­nã en­tregou há meses um do­na­tivo a Cuba re­sul­tante de uma ex­tra­or­di­nária cam­panha de fundos.

Em Por­tugal, con­tinua ativa e di­nâ­mica a Cam­panha de So­li­da­ri­e­dade “Por Cuba! Fim ao Blo­queio!”. Ao longo dos úl­timos meses, foram pro­mo­vidas pelas en­ti­dades pro­mo­toras de­zenas de ini­ci­a­tivas apelando para o re­forço da so­li­da­ri­e­dade com Cuba: de­bates, mo­mentos cul­tu­rais, venda de ma­te­riais de cam­panha e, claro, o apelo a con­tri­bui­ções fi­nan­ceiras.

Ao Jornal Avante!, a pre­si­dente da As­so­ci­ação de Ami­zade Por­tugal-Cuba (AAPC), Sandra Pe­reira, re­velou que «co­me­çamos por nos focar em brin­quedos, ma­te­rial es­colar, me­di­ca­mentos, ma­te­rial hos­pi­talar e ge­riá­trico e, com a pas­sagem do fu­racão Me­lissa e os efeitos de­vas­ta­dores que deixou na ilha ca­ri­benha, alar­gámos o apelo a ou­tros bens, no­me­a­da­mente col­chões». Como os efeitos do cri­mi­noso blo­queio econômico, co­mer­cial e fi­nan­ceiro que os EUA im­põem há mais de seis dé­cadas pre­ju­dicam di­a­ri­a­mente o de­sen­vol­vi­mento de Cuba, a nossa so­li­da­ri­e­dade não pode parar, apelou. Quando passam 67 anos do triunfo da Re­vo­lução, o co­ra­joso, so­li­dário e re­sis­tente povo cu­bano me­rece a nossa ami­zade e so­li­da­ri­e­dade.

Foram já muitas as do­a­ções e, graças a isso, es­tamos na imi­nência de en­viar dois con­ten­tores para Cuba! Mas Cuba pre­cisa de mais; Cuba me­rece mais! As or­ga­ni­za­ções que pro­movem a cam­panha apelam para a contribuição na forma de bens ma­te­riais e fi­nan­ceiros: como su­bli­nhou Sandra Pe­reira, «se o im­pe­ri­a­lismo norte-ame­ri­cano agrava o blo­queio e de­ses­ta­bi­liza a re­gião, re­for­cemos a nossa so­li­da­ri­e­dade com o povo cu­bano».