Portugal: milhares nas ruas firmes para continuar a luta

JORNAL AVANTE! – Partido Comunista Português (PCP)
A manifestação nacional que a CGTP-IN promoveu no sábado, dia 17, em Lisboa, no Porto, em Coimbra e no Funchal, trouxe às ruas muitos milhares de trabalhadores, de jovens e aposentados, de pessoas que decidiram mostrar o seu descontentamento, tornando-o protesto coletivo bem visível, por mais salário, melhores pensões e serviços públicos, contra o aumento do custo de vida, por um novo rumo para Portugal.
A luta vai continuar e volta a confluir no dia 24 de novembro, em frente ao Parlamento
«É possível garantir um futuro onde o trabalho seja valorizado, os direitos sejam efetivos, os serviços públicos sejam fortes e a riqueza seja distribuída de forma mais justa», sublinha-se na Resolução aprovada no final das manifestações, que sintetiza a mensagem desta grande jornada.
No documento recorda-se que «os trabalhadores derrotaram o pacote laboral, exigem a revogação das normas prejudiciais que já hoje a legislação contém e estão determinados na luta pela derrota de uma política que põe em causa o futuro do país». Rejeitando «retrocessos», exige-se «outra política, que respeite e cumpra o consagrado na Constituição».
De manhã, da Praça da Batalha para a Praça D. João I, no Porto, da rotatória do Portugal dos Pequenitos para a Praça 8 de Maio, em Coimbra, e da Rua do Bom Jesus até à Rua Dr. Fernão de Ornelas, no Funchal, e, à tarde, do Cais do Sodré até ao Rossio, em Lisboa, a mensagem da manifestação nacional, descentralizada, foi traduzida em palavras de ordem, repetidas com energia e ilustradas com faixas e cartazes: o custo de vida aumenta, o povo não aguenta; queremos paz, pão e direito à habitação; acabar com a pobreza de quem gera a riqueza; os lucros a aumentar, quem trabalha a pagar; não podemos aceitar empobrecer a trabalhar; para o país avançar, salários aumentar; 35 horas para todos sem demoras; salários de miséria, rendas a subir, o povo não aguenta, está na hora de agir; para os patrões são milhões, para os salários são tostões; a luta continua nas empresas e na rua; público é de todos, privado é só de alguns; Saúde, Educação, Segurança Social são direito universal. Também se ouviu o povo unido jamais será vencido e 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.
Na manifestação convergiu a luta reivindicativa de trabalhadores da Administração Pública e de empresas privadas, dos diferentes sectores de actividade e profissões: indústrias transformadoras, autarquias locais, administração central e regional, professores, enfermeiros, transportes e comunicações, têxteis, vestuário e calçado, banca e seguros, cultura, arquitetura, arqueologia, pescas, agricultura, indústrias de alimentação, bebidas e tabaco, defesa, comércio e serviços…
Participaram igualmente organizações não sindicais, como o CPPC, a URAP, o MPPM ou o MDM, e muitas pessoas que não se inseriam em nenhuma estrutura, como inúmeros jovens com cartazes improvisados, em defesa do direito à habitação e outros.
A Norte, convergiram trabalhadores mobilizados pelas estruturas do movimento sindical unitário dos distritos do Porto, Vila Real, Bragança, Viana do Castelo, Braga e Aveiro; no Centro, dos distritos de Coimbra, Viseu, Guarda, Castelo Branco e Leiria; em Lisboa, deste distrito e dos de Santarém, Portalegre, Setúbal, Évora, Beja e Faro.
Exigiram, a uma só voz, «o aumento significativo dos salários e das pensões, para responder ao aumento do custo de vida», «medidas para travar o aumento do custo de vida», «o controle dos preços dos bens e serviços essenciais», e «defesa, investimento e reforço dos serviços públicos e das funções sociais do Estado».
Na Resolução, ficou assumido «o compromisso de intensificar a luta reivindicativa e a mobilização dos trabalhadores, pelos salários e direitos». Em novembro, que será «um mês de intensa ação e luta», vai se realizar, «entre outras ações», uma concentração junto da Assembleia da República, no dia 24, para quando está agendada a votação final do Orçamento do Estado.
No caminho certo
Ao intervir no Rossio, perante os milhares de participantes na manifestação, Tiago Oliveira, Secretário-Geral da CGTP-IN, lembrou que a jornada de dia 17 teve por objetivo «fazer ouvir a voz de protesto e indignação e lutar por um rumo diferente, uma política diferente, que coloque os trabalhadores no centro das suas decisões». «Hoje é um importante dia de luta», sublinhou, «contra um brutal aumento do custo de vida, contra o ataque aos serviços públicos (nomeadamente, ao Serviço Nacional de Saúde e à escola pública), em defesa da Segurança Social, pelo direito à habitação, pela elevação dos direitos de quem trabalha e por melhores salários e pensões».
Para contrariar o Governo, o PSD e CDS e «todos aqueles que, com o seu posicionamento continuam a validar a sua política», lançando «cortinas de fumo para encobrir o ataque aos salários», a CGTP-IN persiste em reivindicar «um aumento geral de todos os salários, de 15 por cento, no mínimo de 150 euros, e o aumento do salário mínimo nacional para 1.100 euros, já no início do ano que vem».
Tiago Oliveira lembrou que, «em Portugal, no último ano, teve lugar a mais expressiva luta dos trabalhadores em toda a Europa», frisando que «foi a luta, a nossa luta, que assegurou a vitória dos trabalhadores, com a derrota do pacote laboral». Mas «a luta não parou, a luta continuou e está em desenvolvimento», pois «a luta é o caminho da vitória».
Vida digna não é exagero
«Derrotado um dos maiores ataques aos direitos dos trabalhadores», como foi o pacote laboral, «o que é urgente é avançar», porque «impedimos que a nossa vida piorasse», mas «continuamos com os mesmos contratos, com os mesmos horários, com os mesmos salários», disse, do palco no Rossio, Rita Gonçalves, em nome da Interjovem. Trabalhadora do comércio e ativista do CESP, rejeitou «que – a nós, que pomos as empresas a trabalhar e criamos riqueza – nos digam que exageramos, quando dizemos que quem trabalha no duro, 40 ou mais horas por semana, não pode viver no desespero de ter de escolher entre pagar a renda ou comer». Não é exagero, «trata-se de ter uma vida digna».
Grande força para abrir um novo rumo
A jornada do dia 17 constituiu «uma demonstração de força, de determinação, de protesto», comentou Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP, em Lisboa. Em breves declarações aos jornalistas, observou que «há aqui uma indignação muito forte, mas também há aqui uma grande força para abrir um novo rumo para o País».
Uma delegação do Partido, da qual também fizeram parte Francisco Lopes, Manuela Pinto Ângelo, João Frazão, Paula Santos e Ricardo Costa, membros dos organismos executivos do Comité Central, saudou a passagem da manifestação, no início da Rua do Ouro, e acabou por juntar-se ao protesto, até ao Rossio. Delegações do PCP marcaram presença também no Porto, em Coimbra e no Funchal.
