Quando o fascismo bate à nossa porta

Milton Pinheiro *

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão
e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada

(“No Caminho com Maiakóvski”, poema de Eduardo Alves da Costa)

A noite do dia 4 de outubro, quando as urnas foram abertas, o pavor tomou conta de amplos setores da esquerda brasileira, desde aqueles contemplados pelo espectro governista até a esquerda socialista com projeto estratégico radical. O susto imposto pela votação obtida pelo representante do grande capital, das milícias delinquentes, dos operadores do racismo-misoginia-legbtfobia e do fundamentalismo religioso, trouxe, também, um momento de reflexão e de procura por saídas imediatas para reverter o quadro eleitoral de vantagem neofascista.

No entanto, para além de procurar culpados sociais e esconder-se atrás dos divãs da política, é necessário abrir, no caráter da emergência política, algumas pistas que possam com celeridade nos recolocar, enquanto potência, na disputa eleitoral em curso. O tempo é exíguo, contudo, vanguarda e massas populares ainda podem balançar o mapa do voto em nosso país.

O Brasil, no cenário político da crise orgânica do capital, é dirigido por um governo que não tem conseguido se desvencilhar das armadilhas impostas pela “lógica” da austeridade fiscal, o que impacta na não resolução de graves problemas sociais e na falta de perspectiva política para dialogar com as massas populares, proletárias e a juventude. As políticas sociais são extremamente focalizadas e de curto alcance diante da parca oferta.

Sucumbir ao discurso do capital financeiro de “ajuste fiscal” é a porta de entrada para derrotas políticas e sociais. O grande capital financeiro construiu uma ideologia para disputar na sociedade a ideia de governança. O neoliberalismo se estabeleceu com a premissa de que o Estado é o inimigo dos pobres e periféricos, isso se constituiu numa ideologia de forte apelo social, que tem levado ao conjunto das massas populares o movimento de transitar para a direita nos processos eleitorais e em suas lutas particulares, apartando-se da centralidade dos seus interesses.

A nova “desordem” do trabalho que, paulatinamente, corroeu a organização dos trabalhadores e seu papel enquanto sujeito coletivo, tem favorecido o individualismo, o empreendedorismo, a fragmentação da classe e possibilitado a captura do trabalhador pela lógica do fundamentalismo religioso que prega a teologia da “prosperidade”. São tempos de inversões ideológicas e de profunda alienação política, quando o sujeito social não consegue desvelar seus interesses de classe.

Nesse complexo cenário societário, passamos a ter um papel extremamente deseducativo das diversas sociais democracias pelo mundo, em especial na Europa e no Brasil, que não conseguem sair do arcabouço fiscal, com seus diversos ajustes em defesa da burguesia mundial e interna. A ação do governo Lula, diante de algumas questões cruciais como a do STF/Vorcaro, dos acordos com o Centrão, da forma como se coloca diante de pautas importantes sem chamamento dos interessados para as ruas, dificultou o rendimento eleitoral do candidato à presidência.

A burguesia mundial, dirigida pelo grande capital financeiro, construiu um espírito de época, a partir da ideologia neoliberal, que armou a extrema-direita e os fascistas para agirem como seu braço armado no enfrentamento da esquerda e da classe trabalhadora. Esse espírito de época tem fomentado uma fuga das pautas do mundo trabalho para o mundo das identidades que tem deixado turva a centralidade da luta.

Enfrentar esse projeto da classe dominante requer ações em que as mediações táticas e as lutas das identidades estejam organizadas pelo projeto estratégico. Essa perspectiva metodológica de organizar a ação também deve estar muito atenta à presença do braço armado da burguesia e do grande capital mundial nesse começo do século XXI. O fascismo está nas instituições e nas ruas.

O fascismo, em sua nova configuração, embora seja herdeiro do que surgiu na Itália e na Alemanha nas décadas de 1920/30, é um modelo político e ideológico que se bate pela construção de um Estado totalitário, centrado no culto à violência, operando para disseminar e constituir o medo social e político, fomentando um papel de destruição da diversidade, inclusive no campo da religião e do pensamento, manifestando de forma obscurantista uma visão única sobre a família.

O neofascismo continua afirmando que o líder deve agir com apelo militar, procuram de todas as formas fabricar um inimigo, divulgando um nacionalismo fundamentalista, colocando-se contra a pluralidade de ideias e da cultura, sua ideologia criou o medo de qualquer possibilidade de transformação que possa apresentar o novo, por isso eles exercem a censura, a perseguição aos opositores, reafirmam a obediência ao líder, tudo isso metodologicamente articulado por uma imensa propaganda que se conecta ao momento de crise da ordem do capital. Sua estratégia é o enfraquecimento das instituições e a violência social, construídas pela mentira para criar um fundamental arcabouço de medo. Por fim, crise e concentração de poder para efetivar um projeto articulado de enfraquecimento da democracia.

Portanto, diante da presença perigosa dessas hordas na confecção de um ambiente social de desordem coletiva, como agiu o governo e a esquerda que operam no espaço da ordem política e social nesse momento eleitoral? Podemos afirmar que tivemos um quadro de desmobilização orgânica da esquerda que contagiou uma postura política que não construiu sentidos para as ações do campo proletário e popular. Lula e a coordenação da sua campanha evitaram uma ação no corpo-a-corpo e nas ruas. Isso pavimentou o espaço político para o crescimento da candidatura do seu opositor, expressamente conformado no ambiente do fascismo.

Para além dessas reflexões, necessárias para sugerir um novo ritmo social e político para reverter o quadro eleitoral, devemos nos indagar se o procedimento de não ter uma candidatura do PSOL no primeiro turno não nos desarmou para o segundo turno. Essa possibilidade de candidatura poderia ter ampliado um leque para o discurso da esquerda que apresentaria seus projetos e enfrentaria o fascismo de forma mais educativa para as massas populares.
Seria importante ter se somado ao PCB, PSTU e UP na disputa política. No entanto, o PSOL preferiu, numa eleição em dois turnos, se dispersar na coalizão de Lula e talvez não tenha muito o que apresentar no segundo turno. E mais importante teria sido se o campo popular e proletário tivesse tido uma candidatura unificada no primeiro turno.

Mas devemos, também, ter outras preocupações. Na cena política não desvelada pela ausência do operador social e político, um fator muito impactante, com método dirigido de intervenção nas redes, apresentou a versão da extrema direita, forjando ações em massa através dos algorítimos. As Bigs Tecs tornaram o espaço da terra plana extremamente convincente, com bizarria, obscurantismo, fake News e entretenimento. Isso alavancou a candidatura do miliciano.
É importante registrar que desde o momento do plebiscito do Brexit no Reino Unido até as últimas eleições na Colômbia, Peru, Equador, EUA, países do leste europeu e no Brasil, sistemas operados, a exemplo da Cambridge Analytica e esquemas montados ao estilo do Steve Bannon, estão sendo colocados em ação pela direita que tem tornado as pesquisas totalmente inapropriadas para informar sobre os reais resultados eleitorais.

O resultado do primeiro turno foi dramático e impactante. Lula perdeu essa primeira volta por pouco menos de 2%. Contudo, tivemos 33,4 milhões de não votantes, 3,7 milhões de votos nulos e 2,3 de votos em brancos. Há muitas possibilidades de alteração do quadro eleitoral e político. A juventude, a esquerda organizada e as massas populares entraram em cena, isso pode ser fator decisivo na virada de Lula no segundo turno.

Não fomos apenas derrotados no primeiro turno pela segunda colocação de Lula, fomos derrotados também através do que foi eleito para o parlamento, em especial para o senado. É um quadro de vertigem institucional que, a depender da correlação de forças nas ruas, podem proporcionar outro golpe por dentro das instituições. Com forte ataque contra a classe trabalhadora, a seguridade social, a proteção ao trabalho, as políticas sociais e o arcabouço de funcionamento da saúde, educação e segurança. Sem falar na possibilidade de reformas constitucionais deletérias para o Estado brasileiro e o conjunto da sociedade.

Estamos numa situação muito complexa. Abriu-se um drama político entre as ruas e as redes de contágio. O candidato do fascismo, com suas fazendas em redes, de onde tem sido disparado um conjunto significativo de fake news, tem operado com muita força. Porém, a esquerda conseguiu avançar nas redes e com o susto político do dia 4 passou a ter uma grande ação de mobilização que tem gerado um poderoso movimento ao levar milhões de pessoas para as ruas. A multidão pró Lula tem tomado conta da iniciativa política que tem ocupado praças e ruas por todo o Brasil, e em alguns lugares no exterior.

Nesses poucos dias que faltam para o segundo turno, ainda precisamos de projetos, denúncia do que fará o fascista se chegar ao governo, e projetar nossas vozes com maior alcance. É necessário chegar aos rincões do Brasil. Se vamos vencer é uma incógnita, no entanto, precisamos avançar na luta e propor, Lula ganhando ou não, um novo dia para o Brasil.

É necessário um projeto de classe, cuja ação de mediação tática esteja submetida ao projeto estratégico, é necessária a unidade da esquerda socialista, trabalho político e orgânico, ação coletiva tendo como centro a questão da classe e do trabalho, mas também, identidades incorporadas ao projeto da classe trabalhadora.

O ciclo político liderado pelo PT, embora em crise, ainda não acabou; todavia só será superado quando um projeto à esquerda surgir com independência de classe, perspectiva universal e unidade do campo proletário e popular, se apresentando para representar um novo ciclo de lutas com perspectiva revolucionária para agir com a classe trabalhadora nas batalhas anticapitalistas e anti-imperialista.
Independentemente do resultado do pleito eleitoral, não podemos sair das ruas. A classe trabalhadora tem que ter protagonismo para defender e lutar por sua pauta, com Lula ou sem Lula. Mas é evidente que as liberdades democráticas com Lula tendem a ser preservadas. Estamos em luta, a juventude nas ruas nos mostrou o caminho e a possibilidade de vencer.

Venceremos!

* Milton Pinheiro é cientista político, professor Titular/Pleno de História Política da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e Secretário Nacional de Formação Política do Partido Comunista Brasileiro (PCB)