A fuga de Flávio Bolsonaro e as manobras do império

Charge: Mauro Iasi

Em defesa da legitimidade do resultado eleitoral e da mobilização popular contra o fascismo, o imperialismo e o neoliberalismo! Pelo Poder Popular!

Nota Política do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

A vitória de Lula nas eleições presidenciais contra Flávio Bolsonaro representou um duro golpe contra a extrema-direita brasileira e as pretensões do imperialismo estadunidense de ampliar seu domínio sobre a América Latina. Contudo, o cenário político continua bastante adverso para a classe trabalhadora brasileira. A composição do Congresso Nacional, com uma maioria conservadora, comprometida com a agenda neoliberal e com setores vinculados ao projeto neofascista, demonstra que a batalha contra a extrema-direita ainda será longa e exigirá permanente mobilização e unidade de ação para defender os direitos conquistados e avançar na conquista de novas reivindicações. Essa conjuntura torna-se ainda mais grave diante da fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos e das possíveis consequências desse episódio para o Brasil, mesmo levando em conta sua carta patética, na qual se intitula presidente eleito do Brasil.

A fuga do candidato derrotado constitui um acontecimento de enorme gravidade política, cujo significado ultrapassa as fronteiras brasileiras. Sua busca de proteção em território estadunidense, diante das investigações e acusações envolvendo seus crimes, não pode ser interpretada como um episódio isolado, mas deve ser compreendida no contexto das relações históricas entre o imperialismo e as oligarquias reacionárias latino-americanas. Ao longo de décadas, os Estados Unidos acolheram e protegeram políticos autoritários, conspiradores golpistas e representantes das classes dominantes comprometidos com seus interesses estratégicos. O imperialismo estadunidense, que procura apresentar-se como defensor da democracia e da liberdade, não hesita em acolher e proteger o que existe de mais reacionário na América Latina quando estão em jogo seus interesses econômicos e geopolíticos.

A proteção do governo Donald Trump a Flávio Bolsonaro representa mais uma manifestação dessa política de ingerência nos assuntos internos dos países latino-americanos. Não seria surpreendente que Washington procurasse transformar a situação do candidato derrotado em instrumento de pressão contra o Brasil, utilizando acusações de perseguição política para atacar o Supremo Tribunal Federal, questionar a legitimidade do resultado eleitoral e alimentar novas campanhas de desestabilização contra o governo brasileiro. A utilização de representantes da extrema-direita latino-americana como instrumentos da política externa estadunidense constitui uma prática historicamente conhecida, especialmente quando esses setores demonstram disposição para subordinar a soberania de seus países aos interesses do imperialismo.

A fuga de Flávio Bolsonaro poderá ser utilizada pelo governo estadunidense como pretexto para acusar as instituições brasileiras de perseguição e autoritarismo, intensificando as pressões de Donald Trump contra a soberania nacional e incentivando ataques às instituições democráticas e ao governo federal. Nesse sentido, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) reafirma a necessidade de investigação rigorosa das denúncias contra o clã Bolsonaro, seus aliados, financiadores e eventuais cúmplices, com a devida responsabilização daqueles cujos crimes forem comprovados. Não pode haver impunidade para articulações golpistas nem tolerância com iniciativas destinadas a subverter a vontade popular expressa nas urnas. A defesa das liberdades democráticas exige também o enfrentamento às forças econômicas e políticas que financiam, sustentam e procuram legitimar a extrema-direita no Brasil.

A participação ou facilitação do governo de Javier Milei no deslocamento de Flávio Bolsonaro pelo território argentino acrescenta outro elemento preocupante a esse cenário. A articulação entre governos de extrema-direita, forças políticas neofascistas e setores do imperialismo estadunidense constitui uma ameaça concreta à soberania e às conquistas democráticas dos povos latino-americanos. Essa convergência não se limita à solidariedade entre dirigentes reacionários, mas expressa uma identidade de projetos econômicos e sociais: submissão ao capital financeiro internacional, privatização das riquezas nacionais, destruição dos direitos trabalhistas, repressão aos movimentos populares e aprofundamento da dependência econômica. Trata-se de uma aliança continental das classes dominantes contra os trabalhadores e os povos da região, na qual o neofascismo aparece como instrumento político de preservação dos privilégios do grande capital.

O PCB alerta que o imperialismo estadunidense não permanecerá passivo diante das derrotas políticas de seus aliados na América Latina. A crise da hegemonia internacional dos Estados Unidos, longe de tornar sua política externa menos agressiva, tende a estimular novas formas de intervenção, chantagem econômica e desestabilização política. Nesse cenário, a defesa da soberania nacional e popular está indissoluvelmente vinculada à solidariedade internacionalista com os povos que resistem à dominação imperialista, especialmente Cuba, Venezuela, Palestina e os demais países submetidos a ameaças, bloqueios e agressões. É necessário fortalecer a integração soberana dos povos latino-americanos, combater a presença militar estrangeira na região e rejeitar qualquer tentativa de transformar nosso continente em território subordinado aos interesses de Washington.

Diante dessa conjuntura, o Partido Comunista Brasileiro conclama a classe trabalhadora, a juventude, os movimentos populares e todas as forças democráticas e anti-imperialistas a manterem a mobilização permanente contra o fascismo, o neoliberalismo e a ingerência estrangeira. A derrota eleitoral do bolsonarismo representou importante conquista democrática, mas a batalha política e social está longe de terminar. Não podemos permitir que os interesses imperialistas condicionem o futuro do Brasil ou que a vitória popular seja esvaziada pela continuidade das políticas econômicas favoráveis ao grande capital. A luta contra o neofascismo exige também o enfrentamento ao neoliberalismo, à concentração da riqueza e à política de conciliação de classes, que preserva o poder econômico e político dos setores dominantes responsáveis pela sustentação da reação.

É necessário transformar a resistência contra as manobras do imperialismo em uma poderosa ofensiva política e social dos trabalhadores e das trabalhadoras, fortalecendo suas organizações de classe, preservando sua independência política e ampliando sua capacidade de mobilização e luta. A defesa da legitimidade do resultado eleitoral e das liberdades democráticas deve estar articulada à conquista de novos direitos, à revogação das contrarreformas neoliberais e à construção de uma alternativa política comprometida com os interesses históricos da classe trabalhadora. Somente a organização independente dos trabalhadores e das trabalhadoras, a mobilização popular e a luta pelo poder popular poderão enfrentar as raízes econômicas e sociais do fascismo, romper com a dominação imperialista e abrir caminho para a construção de um Brasil soberano, democrático e socialista.

Comissão Política Nacional do PCB