Vamos virar o jogo e vencer no segundo turno!

Nota Política do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

O resultado do primeiro turno representou um duro golpe para as forças populares, ampliou os riscos contra as liberdades democráticas e revelou o crescimento da extrema-direita, inclusive entre parcelas das classes populares. Esse resultado não surgiu do nada: é também consequência da política de conciliação de classes, que preferiu administrar a institucionalidade, negociar com o Centrão e fazer concessões às oligarquias, ao grande empresariado e ao capital financeiro, em vez de buscar alterar a correlação de forças por meio da organização, da mobilização popular e da luta de massas. Soma-se a isso o desgaste de aproximadamente duas décadas de governos que mantiveram as políticas neoliberais e a frustração de setores da população com expectativas de mudanças que não se concretizaram, levando parte do eleitorado a expressar nas urnas um voto de protesto.

Seria um erro, entretanto, considerar que todos os eleitores de Flávio Bolsonaro aderiram conscientemente à extrema-direita. É necessário compreender como a insatisfação popular foi capturada por um poderoso complexo político, religioso e tecnológico-digital, que explora o senso comum, preconceitos, questões morais e a religiosidade, utilizando intensamente igrejas pentecostais, redes sociais e grupos de WhatsApp. Enquanto setores da esquerda se afastaram dos bairros, das periferias e de locais de trabalho, a extrema-direita ocupou esses espaços e construiu vínculos duradouros com amplas parcelas da população. Essa realidade recoloca uma tarefa estratégica para a esquerda revolucionária: reconstruir o trabalho de base, disputar valores, cultura e visão de mundo e estar presente onde o povo vive e enfrenta seus problemas concretos, como salário, emprego, moradia, transporte, saúde, educação, segurança e endividamento. A luta política acontece todos os dias, nas ruas, nos locais de trabalho, moradia e estudo e também no universo digital.

Esse segundo turno ocorre em condições difíceis, agravadas por um Congresso ainda mais conservador e por uma conjuntura internacional marcada por disputas geopolíticas em torno das riquezas e da posição estratégica do Brasil. Mas agora é hora de levantar a cabeça e dar a volta por cima, disputar corações e mentes, transformar dificuldades em energia política. Acima de tudo, é necessário impedir uma vitória da extrema-direita, virar o jogo no segundo turno e, ao mesmo tempo, preparar as forças populares para as batalhas que virão depois das eleições. Independentemente do resultado eleitoral, somente a organização dos trabalhadores, das trabalhadoras e da juventude, o trabalho de base e a mobilização popular permanente poderão enfrentar a ofensiva conservadora, defender direitos e construir uma nova correlação de forças no país.

Mudar o rumo da campanha

A primeira coisa que podemos afirmar é que ainda existe espaço político para a disputa de ideias e projetos e para o diálogo com milhões de brasileiros. Mas isso exige uma mudança profunda no rumo da campanha. Uma campanha que tenha como eixo a austeridade, a responsabilidade fiscal, além da tentativa de tranquilizar os chamados mercados e as forças conservadoras, corre o risco de não dialogar com os problemas concretos vividos pela maioria da população e levar a um resultado negativo. Não é hora de concentrar o discurso nos estratos burgueses. É hora de falar com os trabalhadores, os desempregados, a juventude, as mulheres trabalhadoras, a população negra, os moradores das periferias, os endividados e os milhões de brasileiros submetidos diariamente à insegurança econômica.

O segundo turno precisa colocar no centro do debate a pauta popular: emprego, aumento dos salários, redução da jornada, fim da escala 6×1, defesa dos serviços públicos, fortalecimento da saúde e da educação públicas, moradia, transporte público, combate aos juros elevados e ao endividamento das famílias e defesa da soberania nacional e popular. É necessário apresentar uma perspectiva concreta de transformação. O enfrentamento à extrema-direita não pode se limitar apenas à denúncia dos riscos que ela representa, com uma defesa em abstrato da democracia. A disputa política também passa pela apresentação de propostas capazes de responder aos problemas concretos da maioria da população e pelo debate sobre as consequências sociais e trabalhistas dos diferentes projetos em confronto.

Por isso, camaradas, não é hora de desânimo. É hora de mobilização, organização e militância política. É hora de compreender criticamente os erros cometidos e intensificar o diálogo político, especialmente com aqueles que não compareceram às urnas no primeiro turno ou anularam o voto. A militância deve fazer a disputa nas ruas, nos bairros, nos locais de trabalho, nas escolas, nas universidades e nas redes sociais. É necessário conversar com os decepcionados e compreender especialmente os trabalhadores que votaram na extrema-direita não por uma convicção ideológica consolidada, mas por revolta, frustração ou descrença e convencê-los a mudar o voto.

Cada militante pode contribuir concretamente para realizar essa disputa política, conversando com os amigos, visitando parentes, organizando pequenas reuniões nos bairros, escolas e universidades ou plenárias populares, participando dos movimentos populares, além de atuar nas redes sociais apelando para que a população que não votou no primeiro turno vote agora em Lula, contra a barbárie da extrema-direita. Cada voto virado representa um passo adiante para a derrota dessas forças reacionárias. Nenhum militante pode ficar de braços cruzados: o momento político exige de cada um de nós firmeza política, entrega total e disposição para vencer essa dura disputa. É hora de colocar toda a nossa militância nas ruas, transformar indignação em organização e organização em força popular.

Para esse segundo turno, o PCB orienta sua militância, seus coletivos partidários, amigos e simpatizantes a participarem ativamente da batalha política voltada a derrotar a candidatura de Flávio Bolsonaro, mantendo nossa independência política, programática e orgânica. É preciso impulsionar a organização dos comitês populares em defesa das liberdades democráticas e dos direitos sociais, articulando espaços de luta capazes de acumular força política duradoura para o ciclo histórico vindouro, fortalecendo a mobilização das massas e promovendo iniciativas amplas de combate à reação. Como partido que historicamente participou das lutas contra o fascismo e em defesa das liberdades democráticas, o PCB considera necessária, neste momento, a atuação militante, ao mesmo tempo em que devemos nos preparar, desde já, para as duras batalhas do próximo período, diante de uma conjuntura marcada pelo crescimento da extrema-direita, pela intensificação das contradições sociais e pelos riscos às liberdades democráticas e aos direitos da classe trabalhadora. Nenhum minuto de trégua à extrema-direita! Vamos virar o jogo, vencer no segundo turno e reorganizar as forças populares para enfrentar os desafios do novo ciclo histórico!

Comissão Política Nacional do PCB