Com Milei, trabalhadores ficam sem salário até o fim do mês

Um relatório do Banco Provincia revela que 36% dos trabalhadores esgotam o seu salário nos primeiros dez dias do mês Créditos/ TeleSur

ABRILABRIL

Dados revelados por uma investigação bancária evidenciam que os salários duram cada vez menos na Argentina e destacam as dificuldades crescentes das famílias para chegar ao fim do mês.

Um relatório técnico do Banco Provincia, tendo por base mais de 320 mil contas-ordenado do sector privado, revela que «57% dos trabalhadores e das trabalhadoras ficam sem saldo antes do final da segunda quinzena do mês».

A análise – citada pela TeleSur – detalha que «metade do rendimento mensal desaparece cinco dias depois de ter sido recebido», devido ao impacto dos débitos automáticos, ao pagamento de serviços públicos, que se tornaram mais caros, e às despesas fixas inevitáveis, como a renda da casa.

O relatório do banco aponta que «a deterioração atinge com maior severidade os setores de menores rendimentos, nos quais 36% dos trabalhadores e das trabalhadoras esgotam a totalidade da sua remuneração antes do décimo dia do mês».

Os dados confrontam diretamente o posicionamento expresso pelo presidente argentino, Javier Milei, ao intervir na abertura da Argentina Oil & Gas Expo 2026 – tendo classificado como «tolice» a afirmação de que os cidadãos não conseguem chegar com seus salários até o fim do mês.

Numa clara demonstração de total indiferença frente às dificuldades cotidianas sentidas pelas famílias argentinas, Milei questionou: «Se ficam mesmo sem dinheiro no dia 20, como é que vivem dez dias sem comer nem beber?»

Posicionamento «perverso»
Em declarações ao Página 12, o presidente da entidade bancária, Juan Cuattromo, disse que «é perverso que o presidente não se aperceba do que está se passando com a população». O responsável alertou que as famílias estão reduzindo as despesas essenciais e que os indicadores mostram um processo de empobrecimento que está se aprofundando entre os setores de menores rendimentos.

Cuattromo defendeu que a queda do poder de compra está diretamente relacionada com a orientação econômica da administração «libertária». «É a concepção da política econômica», afirmou o presidente da entidade, explicando que o objetivo do programa nacional é «aliviar a pressão sobre o dólar» e mantê-lo estável, «mesmo a um custo social, econômico e produtivo extremamente elevado».

Neste ponto, salientou que existe uma relação direta entre as decisões do governo e a deterioração das condições de vida. «Há uma precariedade e um modelo muito regressivo», afirmou, ao analisar o impacto da austeridade promovida por Milei.

Desvalorização rápida dos salários
O padrão de despesas registrado pela instituição pública confirma que os compromissos de caráter obrigatório consomem uma parcela substancial da massa salarial na primeira semana depois de o salário ter sido recebido. As famílias assalariadas vêem-se forçadas a cortar nos consumos não essenciais, a reajustar os orçamentos domésticos e a adiar as despesas ligadas ao bem-estar integral ou à manutenção da casa.

A análise econômico-financeira aponta, ainda, que «o esgotamento acelerado dos recursos disponíveis ocorre num cenário de contração generalizada do consumo», marcado por uma «queda interanual de 4,3% no salário real e de 8,6% nas transações realizadas através de cartões e meios electrônicos».

Esta dinâmica evidencia que os salários perdem, de forma acelerada, a sua capacidade de cobrir a cesta básica alimentar, o que gera um esgotamento prematuro dos recursos disponíveis antes do encerramento do ciclo mensal.

A crise econômica sob o governo de Milei acentuou a perda do poder de compra dos salários, limitando a capacidade real de compra dos trabalhadores e das trabalhadoras face ao custo de vida, recorda a TeleSur, que destaca ainda a situação de crescente endividamento das famílias para fazer frente às despesas básicas.