Trump perde maioria no Senado e na Câmara

Olga Fedorova / EPA
ABRILABRIL
Os democratas venceram as eleições intercalares dos EUA e tiraram dos republicanos o controle do Congresso. Capitalizando a indignação com o custo de vida, a inflação e o envolvimento militar externo, o Partido Democrata garantiu vitórias decisivas no Senado e na Câmara dos Representantes.
O sufrágio desta terça-feira funcionou como uma penalização direta às políticas da Casa Branca. A perda de popularidade da administração de Donald Trump, aliada ao descontentamento social com a crise econômica e à rejeição da guerra contra o Irã, impulsionou a mobilização do eleitorado contra o governo republicano.
Perante a perda da maioria legislativa, Donald Trump desvalorizou o revés nas redes sociais, antecipando uma fase de bloqueio ao anunciar que recorrerá sistematicamente ao poder de veto presidencial perante as iniciativas da nova maioria parlamentar.
A nova composição do Congresso, que toma posse em 3 de janeiro de 2027, impõe entraves à capacidade da Casa Branca de aprovar legislação e o orçamento sem fazer concessões. Embora a contagem final prossiga em alguns círculos eleitorais mais disputados, a maioria democrata em ambas as câmaras já está assegurada.
Destas intercalares sobressaem derrotas republicanas em bastiões históricos. No Texas, o democrata James Talarico conquistou um lugar no Senado, o que não acontecia a um candidato democrata naquele estado desde 1988. Talarico, ex-membro da Câmara de Representantes do Texas e com formação em teologia protestante, contou com o apoio ativo do ex-presidente Barack Obama durante a campanha.
Ainda no plano religioso e político, o pastor metodista Adam Hamilton venceu a eleição para o Senado no Kansas, impondo uma derrota aos republicanos num estado onde estes mantinham uma hegemonia ininterrupta na câmara alta desde 1932.
A campanha serviu de teste à capacidade do Partido Democrata de articular uma alternativa eleitoral à ala conservadora de Donald Trump, o que justificou o empenho direto de Barack Obama na mobilização do eleitorado em estados como o Ohio e o Kentucky. Obama esteve igualmente envolvido na promoção de figuras emergentes do partido.
No Michigan, o médico e professor Abdul El-Sayed centrou a sua campanha na defesa do direito à saúde e na proteção dos direitos dos trabalhadores. Num país onde o acesso aos cuidados médicos permanece privado e inacessível a milhões de famílias trabalhadoras, a exigência de um sistema público universal voltou ao centro do debate. Alvo de ataques devido às suas críticas ao apoio militar de Washington a Israel e ao genocídio na Faixa de Gaza, El-Sayed tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o Senado norte-americano.
Na Geórgia, Jon Ossoff garantiu a reeleição como senador, mantendo a postura de alinhamento com a linha oficial do partido no apoio a Israel, embora assumindo pautas sociais defendidas pela ala obamista, como o acesso à saúde e a descriminalização da canábis. Ossoff tem sido apontado como uma das figuras proeminentes para o futuro democrata.
Bipartidarismo, a mesma ordem institucional
Apesar de a presença de Barack Obama e o surgimento de novos rostos servirem para reanimar a base eleitoral democrata, a memória de seu governo revela os limites desta alternância. A administração Obama foi responsável pela continuidade e expansão das intervenções militares e bombardeios no Oriente Médio e no Norte da África, designadamente no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Iêmen, demonstrando como a política externa estadunidense mantém as suas linhas de força, independentemente do partido no poder.
O sistema político dos Estados Unidos continua estruturado em torno do bipartidarismo, funcionando como duas facções da mesma ordem socioeconômica, política e institucional. Embora o descontentamento social contra a inflação e a deterioração das condições de vida tenha sido canalizado para o voto nos democratas, a submissão do partido aos interesses do grande capital e ao complexo militar-industrial pode manter a política externa dos EUA inalterada.
Apesar da alteração de maiorias no Congresso, que permitirá aos democratas promover audiências públicas, atrasar nomeações presidenciais ou negociar pacotes de financiamento para a guerra e a corrida aos armamentos no Leste Europeu e no Oriente Médio, a Casa Branca mantém o controle da administração federal e a prerrogativa de agir de forma unilateral através de decretos executivos em matérias de política externa e comercial.
