Etiópia: 530.000 refugiados no mega campo sem hospital

imagemOs destroços do naufrágio dos cristãos no Nilo Branco encalharam aqui, no vasto campo de barracas brancas perto de Gambella. Quinhentas mil almas. Raros homens não-combatentes, muitas e muitas mulheres com bebês ao peito, formigueiros de crianças com camisetas de Messi ou Ronaldo. As mesmas usadas, do outro lado da fronteira, pelas 17.000 crianças-soldados arrastadas para o turbilhão da guerra.

A reportagem é de Gian Antonio Stella, publicada por Corriere della Sera, 07-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

São uma multidão, 530 mil pessoas. O triplo de todos os imigrantes que chegaram à Itália em 2016. Cinco vezes os de 2017. No entanto, é apenas um oitavo dos quatro milhões de sudaneses do sul forçadas a deixar casas, terras, animais para escapar da matança. Um êxodo bíblico que busca abrigo metade em áreas ainda não incendiadas pela guerra civil e metade no exterior: em Uganda, Quênia, Congo, Etiópia. Como Nguenyyiel, um dos aglomerados do mega-campo nas colinas perto de Gambella. Inaugurado há um ano, sozinho já hospeda 54 mil refugiados. Um mar de tendas, alguma choupanas, caminhões-pipa para a distribuição de água, uma espécie de alfaiataria itinerante criada por um jovem fugitivo com a velha máquina de costura Dress, barbeiros que improvisam penteados estilo Neymar, vacas, atoleiros e três galpões compridos, estreitos e insalubres. É o ”hospital’. Onde uma menina esquelética dorme no chão entre enxames de moscas. A mãe deixou-a debaixo de uma árvore, ao lado das rodas de um caminhão.

Pó, ferrugem, desinfetante nas narinas, cheiro de urina, mulheres doentes que perambulam feito sonâmbulas, ao lado de crianças com o destino traçado. “Esta pequena agora está no fim. Malária. Dificilmente vai passar desta noite. A mãe só pode molhar sua testa e segurar sua mão. Em um hospital de verdade, talvez … Aqui, não” suspira dom Dante Carraro, médico, padre e diretor da “Cuamm-Médicos com a África” que aceitou o apelo para assumir a organização e a gestão do autodenominado nosocômio e de um minúsculo centro sanitário em ruínas entre o campo ONU e Gambella. Onde Giuseppe Baracca, um médico que percorreu ao longo das décadas meia África vendo de tudo (“incluindo garotinhas infibuladas e costuradas entre lágrimas com espinhos de acácia”) está treinando uma pequena equipe de jovens para montar uma nova maternidade e a pediatria (“um recém-nascido prematuro pode ser salvo com 25 euros”) no hospital regional de Gambella. E que com um punhado de médicos e enfermeiros, quase nunca especialistas, é o único em uma área do tamanho da Sicília e tem de carregar o peso de 420 mil pessoas. Mais as emergências do imenso campo de refugiados. Atacado ocasionalmente por sangrentas incursões armadas.

“Erva venenosa”, significa Nguenyyiel. Mas aqui tudo é envenenado. Primeiramente, as relações entre as muitas diferentes etnias do Sudão do Sul. Nascido em julho de 2011, depois de duas guerras sangrentas contra o norte islâmico que duraram quarenta anos e custaram dois milhões de vidas, o Estado mais jovem do mundo levou apenas meses para precipitar em uma terceira guerra civil. O tempo de comemorar o referendo da independência, vencido com 98,6% dos votos e já ressurgiam calejadas e ancestrais divisões. Dentro da própria população cristã. Os próprios números são envenenados. Tanto é assim que de uma dúzia de milhões de habitantes, um terço foi despejado tanto no país quanto fora dele, e nem mesmo está claro quantos precisamente seriam os cristãos (que expressam tanto o presidente Salva Kiir, um Dinka, como os maiores opositores Riek Machar e Taban Deng, de etnia Nuer), quantos os animistas e quantos s islâmicos. Os quais, mesmo tendo se separado do Sudão declaram ser dominantes. Verdadeiro? Falso? O que é certo é que o estado recém nascido está devastado por um conflito tão feroz a ponto de impelir os bispos católicos a lançar duas semanas atrás um apelo: “Apesar dos nossos apelos dirigidos a todos os partidos, facções e indivíduos para parar a guerra, continua-se a matar, roubar, pilhar”. Relatos apavorantes. “Muitas pessoas foram amontoados em casas, que em seguidas foram incendiadas.” Histórias todas iguais. Como nas deposições de vinte anos atrás em Ruanda: “Começaram pelos meus filhos. Eu vi cair as pernas do primeiro e depois a sua cabeça. Comecei a gritar, então vieram na minha direção. Cortaram-me em pedaços e eu desmaiei. A maior desgraça foi acordar entre os cadáveres dos meus filhos”. Enquanto os senhores da guerra, cristãos que sentam em poltronas VIP em frente ao altar da Catedral de Juba, matam-se pelo controle dos ricos campos de petróleo (“O próprio Salva Kiir denunciou que, entre 2005 e 2011, 74 pessoas apropriaram-se de 4,5 bilhões de dólares dos 11 dados pelos doadores”, relatou ao “Mondo e missione” o frade comboniamo Daniele Moschetti), o mundo muçulmano em torno pressiona, pressiona, pressiona. “Até poucos anos atrás, aqui em Gambella a comunidade islâmica era quase inexistente”, explica Don Aristide Marcandalli, o padre que dirige a Missão Salesiana: “Agora tem uma mesquita e o disco do muezim toca a noite toda. Ainda são uma minoria, mas …”.

“Eles fazem assim. Têm o dinheiro da Arábia Saudita ou dos Emirados e constroem mesquitas em toda parte, mais cedo ou mais tarde, eles dizem, os fiéis virão”, suspira o arcebispo católico etíope Berhaneyesus Souraphiel, sentado em seu minúsculo escritório. “Nós não temos dinheiro nem mesmo para o mínimo, eles são ricos e ergueram uma mesquita mesmo na frente da Secretaria Católica. Compram lojas, assumem contratos católicos, etc. Um proselitismo arrasador. O problema é que Roma está longe, e a Somália perto. Se a Europa fecha, aqui a Etiópia explode. É como uma morsa. Corremos o risco de acabar como os armênios. Nós e eles fomos os dois primeiros estados cristãos do mundo. Agora estamos cercados”.

“Falta tudo, menos armas!”, repete o padre Moschetti. Desolado por “seu” mundo sudanense do sul em guerra fratricida. O petróleo é cobiçado, a terra é cobiçada (“já 9% foi concedida a empresas multinacionais e fundos soberanos, tanto para a agricultura como para as matérias-primas), a água é cobiçada em um país rico de rios, lagos e florestas tropicais. O resultado é que o tráfico de morteiros, metralhadoras, lançadores de foguetes e granadas comprados em quase todos os mercados globais vai de vento em popa, vento de morte. Sem que a proposta de um embargo no Conselho de Segurança da ONU, os mesmos que distribuem os refugiados que fogem dessas armas, jamais tenha conseguido dar um basta. Business is business. Nem mesmo o Papa Francisco foi capaz de abrir uma brecha no ódio: nenhuma visita. Muito arriscado.

Tema: o que vai acontecer com esses quatro milhões de refugiados que correm o risco de se tornarem cinco, seis …? Este é o nó. E não teria sequer a desculpa, para mantê-los longe, de trazer à baila as hordas islâmicas: são em grande maioria cristãos. E então, o que fazer? A única possibilidade para evitar uma catástrofe humanitária é dar sentido as palavras: ajudá-los realmente, lá na África em chamas. Com opções de alcance mundial e junto com a força de um compromisso diário. Como justamente a dos voluntários do Cuamm que, desembarcados na Etiópia em 1980 em um leprosário, são hoje a alma do hospital São Lucas de Wolisso, a duas horas de Addis Abeba, e o ponto de referência, em várias excelências e duas dezenas de “centros de saúde” espalhados pelos lugares mais remotos, de um milhão e meio de habitantes. É Gambella, no entanto, o desafio de hoje. A ser vencido no transbordante campo de refugiados sem hospital. Mas, ainda mais, em nossa casa. Ou as palavras “vamos ajudá-los na casa deles” permanecerão realmente apenas conversa fiada.

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