Venezuela 2017: a vitalidade do chavismo

imagemPor Atilio A. Boron

Passada a meia noite de domingo, a edição digital do diário Clarín (Buenos Aires) não dizia uma palavra sobre o resultado das eleições venezuelanas. Sua colega La Nación, em compensação, intitulou da seguinte maneira o ocorrido na Venezuela: “Rotunda vitória do chavismo nas regionais, resultados que a oposição não aceita”. Em um caso a negação absoluta da notícia: o acontecimento não existiu; no outro, manipulação da notícia, porque a ênfase está colocada no fato de que, como era previsto, a oposição não aceitava sua derrota. El Nuevo Heraldo (Miami) é mais cauteloso, e intitula assim: “Chavismo ganha 17 de 23 governações; oposição venezuelana denuncia possibilidade de fraude em eleições”. O que se dá como um fato para La Nación passa a ser uma possibilidade de fraude pelo periódico de Miami. El Nacional de Caracas também destacava as 5 governações obtidas pela MUD frente às 17 do PSUV. Ao terminar de escrever estas notas, ainda não tinha sido definida a situação do estado de Bolívar, que de nenhum modo poderia alterar o cenário eleitoral. Na Argentina, quase todos os programas informativos da manhã de hoje, segunda-feira, oficialistas declarados ou envergonhados, só falavam da fraude. Para fundamentar tão grave acusação, entrevistavam irrepreensíveis informantes, todos eles férreos opositores do governo bolivariano que diziam, sem apontar uma só prova, que as eleições tinham sido fraudulentas. Repito: para esses pseudo-jornalistas – na realidade, pérfidos agentes de propaganda da direita – os ditos raivosos perdedores de ontem são evidências mais que suficientes para que suficientes para desestimar o veredito das urnas.

É óbvio que o resultado registrado ontem, domingo, na Venezuela é um golpe duro para a direita, não só desse país, mas de toda América Latina. Um revés para os planos golpistas e de destituição, obcecados em derrubar Nicolás Maduro e, dessa forma, apoderar-se do petróleo venezuelano que é a única coisa que interessa a Washington. Esse resultado é, assim, um caso excepcional, onde um governo é atacado com sanha a partir do exterior: guerra econômica, ofensiva midiática, agressão diplomática (a OEA, governos europeus, etc.), ameaças de intervenção pelo governo dos Estados Unidos (declarações de Donald Trump, Rex Tillerson, Mike Pompeo e outros personagens menores) e que provocam indizíveis sofrimentos à população consegue prevalecer nas urnas. Não lembro de caso semelhante onde, ante esta perversa constelação de fatores desestabilizadores, um governo tenha saído triunfante nas urnas com uma maioria absoluta de votos, com cerca de 54%. Uma proeza similar obteve Salvador Allende. Enfrentando um ataque muito pertinente, ainda que nem tanto como o infligido à Venezuela, conquistou um grande resultado nas eleições de deputados de março de 1973, ao receber 44.2% dos votos, impedindo que a oposição de direita alcançasse os dois terços necessários no Senado para destituir o presidente chileno. Ainda assim, está longe do número alcançado pelo chavismo. E Winston Churchill perdeu as eleições convocadas com o término da Segunda Guerra Mundial para o trabalhista Clement Attlee: 49.7% contra 36.2% de Churchill. As penúrias de uma guerra, declarada ou não, afetam negativamente os partidos governantes e Churchill o sofreu na própria carne, tudo o que realça ainda mais a notável vitória obtida pelo chavismo nas eleições regionais do dia de ontem.

É claro, como era previsto, a direita fala de uma fraude: terá ocorrido tal coisa no Zulia, em Táchira, em Mérida, em Nueva Esparta e Anzoátegui, onde triunfou a oposição? Ou seja, onde esta venceu não houve fraude, mas uma límpida consulta cidadã; onde perdeu, houve fraude. Um disparate. Aqueles são estados muito importantes e, curiosamente, o governo do “ditador” Nicolás Maduro aceitou o revés eleitoral sem reclamar. O repúdio da direita e de seus aliados de fora da Venezuela ante as reiteradas derrotas sofridas nas mãos do chavismo é uma prática viciada, que se arrasta desde que Hugo Chávez vencera nas eleições presidenciais de dezembro de 1998. Como é bem conhecido, as relações entre a direita e a democracia sempre foram tensas. Sua história é a história de um matrimônio mal empreendido, que dá lugar a “uma relação infeliz”. A primeira aceita a segunda só quando a favorece, coisa que não ocorre com a esquerda, que invariavelmente aceitou o veredito negativo das urnas, como o demonstra a história venezuelana estes últimos 18 anos. A vitória vermelha no crucial estado de Miranda, arrebatado de Henrique Capriles, é todo um símbolo da vitalidade do chavismo, apesar das enormes dificuldades que venezuelanas e venezuelanos enfrentam na vida cotidiana como produto principal, embora não exclusivo, da fenomenal agressão externa. Pelo tamanho de seu eleitorado, Miranda é o segundo distrito do país. Porém, o chavismo também venceu em Lara, Carabobo e Aragua, que são os três que seguem pela dimensão de seu corpo eleitoral. Mas a derrota do oficialismo na chamada “meia lua”: Zulia, Táchira e Mérida, estados fronteiriços com a Colômbia, é preocupante e não pode ser medida tão somente em termos eleitorais. Ali se abrigam setores animados por um forte espírito separatista que, caso as condições internas cheguem a se deteriorarem, podem converter-se em um crucial território para facilitar alguma intervenção estrangeira na Venezuela.

Apesar da sabotagem ao processo eleitoral e às denúncias antecipadas de fraude, lançadas com o objetivo de desencorajar a participação popular nas eleições, os 61.14% que acudiram às urnas – algo mais de dez milhões de cidadãos – se localiza acima da média histórica para este tipo de eleições estaduais e constituem motivo de inveja de mais de um país cujas credenciais democráticas jamais são colocadas em questão pela ideologia dominante. Por exemplo, o Chile, onde nas últimas eleições presidenciais participou, na disputa entre Michelle Bachelet e Evelyn Matthei, apenas 41.9% do padrão eleitoral. Contudo, a canalha midiática não para de caracterizar o governo bolivariano como uma “ditadura”. Muito estranha, como recordava Eduardo Galeano: com eleições a cada ano – 22 contando com a ocorrida no dia de ontem – e aceitando as derrotas quando acontecem. Sem dúvida, um duro quebra-cabeças para os politólogos e publicistas do establishment, que têm de vê-las com uma raríssima “ditadura” adepta de eleições. Para resumir: o chavismo, que antes contava com 20 governações, perde três e conserva 17. Porém, a recuperação de Miranda e Lara tem um significado político muito especial, já que reconquistam dois baluartes a partir dos quais a direita planejava relançar suas aspirações presidenciais.

O que está por vir não parece difícil de discernir. Desesperada por sua frustração eleitoral, um setor da direita, estimulado por seus amos estadunidenses, anuncia sua vontade de marchar pela terceira vez para “esquentar as ruas” e apostar na violência criminosa como forma de acabar com o chavismo. Coisa que teriam feito de todas as maneiras, porque uma vitória como a que escapou a eles pelas mãos e que ansiavam com tanta (infundada) esperança os teria encorajado para “ir adiante” e exigir a renúncia de maduro, além de um chamado antecipado para eleições presidenciais. Ou seja, desconhecimento das eleições quaisquer que fossem seus resultados. Como perderam, sua fraquíssima densidade democrática se fará liquefaz por completo e – tomara que eu esteja errado – certamente veremos o súbito ressurgimento da onda terrorista que assolou o país durante mais de três meses. Em tal caso, será responsabilidade indelegável do governo garantir a ordem pública isolando os setores terroristas e evitando que, com sua insatisfação e sua “intransigência”, se coloquem como cabeça da oposição. Porém, para que tal coisa não ocorra, será preciso não só impedir com energia a irrupção da violência, mas também fortalecer os canais de diálogo com as forças política que apostaram na institucionalidade democrática e que conquistaram o governo em cinco estados. A Venezuela não pode voltar a viver o pesadelo experimentado entre abril e julho do corrente ano. Seu povo não merece a reiteração de tamanho castigo e a revolução bolivariana não deve voltar a transitar a beira do abismo, como ocorreu durante aqueles sombrios meses. Em suma: uma importante vitória do chavismo, conquistas significativas da oposição em alguns estados de grande importância econômica e geopolítica, e a esperança de que, desta vez, se evite a queda em espiral na violência política persistentemente promovida pela direita, com o incentivo oferecido pela Casa Branca e a cumplicidade das oligarquias midiáticas que desinformam e embrutecem as populações de Nossa América.

Fonte: http://www.atilioboron.com.ar/2017/10/venezuela-2017-la-vitalidad-del-chavismo.html

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)