A LEGITIMIDADE DO ESTADO SIONISTA E A CONTRUÇÃO DE UMA PALESTINA LIVRE, LAICA E SOBERANA COM O RETORNO DOS REFUGIADOS

Acabo de voltar dos territórios palestinos, onde vivenciei experiências fantásticas. Vivências que outros militantes internacionalistas devem adquirir. Esta será uma das tarefas do Comitê de Solidariedade: estimular e ajudar caravanas de ativistas a conhecerem de perto a situação da luta na Palestina.

Dificilmente um militante comprometido com a causa internacionalista não é tomado por uma imensa vontade de tornar pública, de compartilhar o retrato de uma Palestina real, viva, vista ao vivo e com cores bastante fortes, compartilhar os lamentos e discussões desse bravo povo que resiste a tantas e tamanhas dificuldades, e ainda assim, consegue se redescobrir, se reinventar, cuidar um do outro e reconstruir mais forte sua resistência contra o poderoso inimigo externo e o interno.

Meu desejo é que este pequeno e singelo trabalho seja uma contribuição em aberto, no sentido de suscitar discussão na esfera do internacionalismo proletário, que faça avançar a solidariedade e, portanto, contribua dessa forma com a luta do povo palestino.

Este texto não pretende ser uma reconstrução histórica, apesar de contar com a liberdade de fazê-lo, toda vez que for necessário. Ele é, tão somente, o ponto de partida de um longo caminho de discussão sobre análise política, conjuntura e caracterização das estruturas políticas, sociais e ideológicas, onde se localiza a atual etapa da luta desse bravo povo, luta que se mantém há 62 anos.

Sobretudo é uma contribuição ao debate sobre a legitimidade e o caráter do Estado sionista e a construção de uma Palestina única, laica e democrática, com o retorno dos refugiados.

Não tenho a pretensão da neutralidade política, até por que não acredito nela. Desde já esclareço meu compromisso com a teoria marxista e dos partidos situados no campo internacionalista de reconstrução das organizações comunistas.

A luta por livrar a Palestina da ocupação sionista encontra-se numa encruzilhada.

Introdução

A grave crise econômica do capitalismo que atingiu os EUA e, agora, a Europa, desencadeando o desemprego estadunidense e europeu que vem tomando proporções assustadoras, sinaliza que a superação da crise não só não aconteceu, como ela pode dar um salto e se transformar numa crise política de proporções imprevisíveis.

Por sua vez, o crescimento dos investimentos no complexo industrial-militar, a crise energética e a constatação de que a produção petroleira, que move literalmente o capitalismo, bateu no teto, potencializam com mais força os graves e imorais problemas enfrentados há 62 pelo povo palestino, na luta política e social que travam.

A Palestina pode não ser o centro da luta de classes, mas, podemos considerar, sem dúvida, que sua situação particular exprime a síntese da crise moral e política do capital.

Foi transformada ao longo desses anos em um grande laboratório e campo de treinamento onde o imperialismo lida com a guerrilha urbana, movimento de massas, faz grandes experiências militares, forma seus quadros e testa sua armas experimentais.

O exército/Estado de Israel exporta, inclusive para o Brasil e a Colômbia, além de armas, serviços ligados à área de segurança e estratégia militar/terrorista contra povos. Na Colômbia, por exemplo, os assessores militares sionistas são parte do terror que o Estado lança mão contra a resistência camponesa, os estudantes e sindicalistas colombianos.

Dito de outra forma, o principal produto de exportação do Estado de Israel é o terror. Companhias de soldados mercenários, assessoria militar, empresas de segurança em presídios, empresas especializadas em informação, atividades terroristas estratégicas, etc…

Nesse contexto, a causa palestina está distante de ser apenas uma singela causa nacional.

O enfrentamento com o qual se depara o povo palestino se desenvolve em dois níveis: No campo do imperialismo, no qual o grande capital financeiro-industrial-bélico monopolista se materializa na forma do Estado sionista e, imbricada aí, se encontra a velha luta de classes, a luta social que se movimenta no interior do Estado Palestino entre as forças sociais históricas, que pode fazer a diferença se resolvida.

Esta conexão entre a luta nacional, cujo inimigo central é o imperialismo, representado pela entidade sionista (Estado) e a luta de classes interna é cada vez mais percebida por amplos setores populares.

A luta de classes se manifesta em todos os níveis, social, político e inclusive no encaminhamento e no desenrolar da luta nacional, na qual a burguesia palestina, tradicional direção do processo, por conta de seus interesses de classe, acaba travando a luta do povo por sua emancipação nacional.

Aprofundar essa compreensão e se por em marcha é o maior desafio para o povo e o conjunto das direções revolucionárias da Palestina ocupada.

Na Europa, os trabalhadores e suas organizações tentam recuperar, através das lutas e resistências contra a violenta investida do capital na superexploração, o elo perdido na construção da revolução e na luta pela destruição do Estado capitalista, é o que temos visto, em particular na Grécia.

Mas em que pese a disposição da classe trabalhadora européia, não observamos, até aqui nenhuma fissura na estratégica da burguesia para saída da crise. A unidade da burguesia tem sido a marca dessa etapa da luta de classes.

A entrada em cena dos trabalhadores, o aprofundamento da crise econômica e a recomposição da esquerda pode precipitar a temida crise política, quando a burguesia perde inteiramente o controle da situação, e a luta de classes pode confluir para uma nova configuração.

No entanto, o capital avalia e trabalha para a possibilidade de um outro cenário que lhe favoreça. A recente movimentação bélica dos EUA e de Israel, no canal de Suez, em torno de um possível ataque ao Iran e ao Líbano, sinaliza e confirma o empenho na mudança de cenário pela saída bélica, alimentando a ganância da indústria armamentista e fazendo a festa do capital especulativo. Os laços de Israel com o capital estadunidense e europeu estão firmes e seguros nesse sentido.

O ataque a Flotilla

Aqui passo a descrever a repercussão, nos territórios ocupados em 1948 (Israel), do criminoso ataque a Flotilla humanitária que assassinou militantes internacionalistas e feriu outros.

Na manhã friorenta do dia 31 de maio estávamos indo de Bem Sawhur, lugar onde nos hospedamos, em direção a Jerusalém, a caminho de Silwan, parte oriental de Jerusalém, onde participaríamos de uma reunião com o Comitê Popular do bairro El-Bustan, ameaçado de demolição.

Silwan é onde os moradores palestinos resistem bravamente à demolição de suas casas. Neste momento, Shadi, o jovem palestino, cuja tarefa era nos acompanhar e traduzir para o espanhol a poética língua árabe, recebe um e-mail em seu celular que o deixou transtornado:

O Estado de Israel havia atacado a Flotilla, não permitia nenhuma aproximação da imprensa e nem dava notícias do que acontecera, nem confirmava o número de feridos e mortos. Mas, os militantes internacionalistas conseguiram produzir pela internet informações e vídeos importantes, antes do Estado judeu confiscar todos os equipamentos de mídia e isolar os acontecimentos do resto do mundo, enquanto produzia a sua história oficial.

A situação era por demais grave, havia notícias de muitos mortos e de um ataque assassino e covarde a flotilla desarmada.

Obviamente, mudamos nossos planos e fomos para uma cidade portuária próxima a Tel-aviv – território ocupado em 1948 -, para onde, os rumores davam conta, iriam levar os barcos, os presos, os feridos e os mortos.

Esta cidade tem o nome árabe de Ashdod, mas foi alterada para Asdud. Essa é uma tática do sionismo para todas as cidades ocupadas, mudam seu nome, sua paisagem, sua história e seus habitantes.

Quando lá chegamos foi assustador: Havia um clima de festa, do tipo Copa do Mundo: jovens enrolados na bandeira de Israel pulavam e cantavam enquanto esfregavam a bandeira na cara das pessoas que desconfiavam serem árabes ou estrangeiros solidários; famílias bem nutridas disputavam o lugar com os religiosos judeus ortodoxos, aqueles com cachinho, grandes chapéus e capa preta, todos ostentando felicidade. Na rua, carros com bandeiras de Israel buzinavam. Sentimos repulsa e medo, muito medo.

O lugar ficava no alto de uma pequena colina de onde poderíamos avistar todo o mar. Lá estavam, também, todas as emissoras de TVs do mundo, que se ocupavam entrevistando os oficiais do exército sionista, prontos para dar declarações ao mundo sobre a “verdade oficial”.

O clima era de confiança, a população se sentia segura, seu exército, o Estado, havia mais uma vez afastado a ameaça assustadora: uma flotilla que vinha carregada de mantimentos, remédios e aparelhos hospitalares, cimento e outros materiais de construção e, é claro, muita solidariedade no coração para o povo aprisionado de Gaza, que vive num campo de concentração a céu aberto e que são vítimas da política de limpeza étnica da ilegítima ocupação sionista.

A bem armada juventude sionista

Esse não foi um momento particular, especial ou nascido de um setor marginal da sociedade sionista, não! O cheiro e os elementos que qualificam de fascista o Estado judeu estão presentes por todo lado: em todo território ocupado em 1948, nos territórios ocupados em 67 e nos checkpoints das estradas e os que ficam entre as cidades palestinas, nos território palestino.

Quando se chega nos territórios ocupados em 48, nas cidades cujas paisagens foram ocidentalizadas, a primeira impressão é a de que estamos numa grande cidade-base militarizada. Bandeira, bandeirolas ou bandeirinhas de Israel enfeitam as janelas, os prédios, o comércio, etc. Uma boa parte da população destes territórios é composta pelos ortodoxos judeus ou militares, que ostentam sua metralhadora com orgulho, satisfação e superioridade, estes são em muita quantidade, sendo a maioria absoluta de jovens.

A massa da juventude é responsável por resguardar a pátria amada e mística do ataque dos anti-semitas, dos não judeus. O exército é fonte de emprego da classe média e de seus filhos das colônias, dos Kibutz e dos judeus de todas as nacionalidades que são constantemente captados mundo afora pelo sionismo, para vir colonizar a terra estranha.

Já são algumas gerações de jovens marcados para sempre pela ideologia do fascismo. Andar pelas ruas dos territórios ocupados em 1948 dá medo e remete a Alemanha de Hitler.

Não é uma população homogenia ou de poucos tipos, pelo contrário: são perceptíveis as diferentes origens européias desde biológico-física, como cor do cabelo até a língua que se comunicam, mas esta é uma divisão aparente. Segundo alguns, o russo é o terceiro idioma falado aí. Uma curiosidade: eu vi um jovem oriental com o kiba usado pelos judeus. Há jovens de origem latina, como os argentinos e brasileiros, mas a maioria é de origem européia.

O que de fato importa nessa análise é que o aparelho repressivo do Estado dirige e comanda a imensa massa de jovens, mantendo-os coesos ideologicamente, preparados militar e tecnicamente para os interesses do grande capital na região.

Segundo as definições clássicas do fascismo, a característica militarista é a conjunção do aspecto nacionalista exacerbado e da face autoritária, hierárquica no interior do Estado, “de acordo com os interesses do grande capital expansionista” (Nikos Poulantza).

Israel atua, em parceria com os EUA, na contenção do status quo das ditaduras da região, no apoio logístico e humano nas operações de ocupação, como foi o caso do Iraque, do Afeganistão, do Líbano, e da Síria e, mantém, o domínio de um certo equilíbrio “instável” da região.

Obviamente, há críticas internas, mas estas são poucas e combatidas com rigor. O surgimento da menor crítica ao sagrado Estado, ou a sua política, é criminalizada, marginalizada e o crítico, excluído das oportunidades oferecidas pela sociedade, recebe o desprezo do grupo social e o rótulo de traidor da pátria, colaborador dos anti-semitas. São muito, muito poucos os bravos que se aventuram nessa rebeldia.

A esquerda israelense

As manifestações contra o ataque à Flotilla dentro do território de 1948 (Israel) foram pífias e inexpressivas. A esquerda israelense, salvo raríssimas exceções, pressionada pela mística fascista, não consegue se libertar da figura do sagrado e necessário Estado de Israel.

Algumas organizações e personalidades fazem campanhas exigindo basta ao terror, na perspectiva de que ao continuar dessa forma, o prejuízo será a própria desconstrução do Estado judeu, ou seja, do conquistado até aqui.

Há outros setores da esquerda que levantam a discussão do caráter autoritário dos governos, da direita israelense, estes direcionam a solução do ”conflito” para a perspectiva eleitoral e democrática burguesa.

Da mesma forma, ambas as perspectivas, jogam para o fortalecimento do Estado judeu.

Há queixas de grupos de judeus contra a prefeitura da cidade de Jerusalém que liberou a cidade santa para a especulação imobiliária que deu início a construção de edifícios com muitos andares. Esse grupo não concordava com o Projeto Urbanístico para cidade. O texto crítico, reproduzido no Jornal Há’arezt, ainda citava o profeta Isaías, falava da falta de zelo dos que retornavam para a cidade santa, reproduzindo a cantilena ideológica do “eterno retorno”. Lembrou que a humilhação promovida contra outro povo não bastava a Israel, e vaticinou que a ocupação aos territórios palestinos – que o autor considerou apenas os de 67 – vai se tornar um problema para os israelenses.

Ora, estamos diante de um típico exercício da democracia israelense: O sistema absorve, numa boa, as críticas e as discordâncias sobre a forma como a prefeitura administra a ocupação do solo árabe, sem problemas.

Repare como as questões caras aos palestinos como: o genocídio, o massacre, a ocupação sionista, a derrubada de casas, as prisões e torturas, enfim, a limpeza étnica produzida pelo Estado fascista é reproduzida como “humilhação”.

Repare que a preocupação democrática são os exageros na estética que podem trazer problemas para os seus novos habitantes. (Esse texto foi reproduzido pela Caros Amigos sob o título “No ano que vem, em Jerusalém”)

Em todos os casos, não vi movimento em direção à discussão sobre o caráter, a natureza e as definições que podem rigorosamente clarificar e classificar o Estado judeu. Definições importantes e necessárias que sirvam de base ao entendimento, desmistifiquem o caráter democrático, que o Estado tenta imprimir, e ajude a massa e o proletariado judeu a dar passos no sentido de se libertar da ideologia fascista/sionista dominante e a abrir mão dos seus privilégios de “raça eleita”, garantidos pelo Estado sionista e pelo imperialismo numa santa aliança; isso significa devolver ao povo palestino suas terras, direitos e suas vidas aprisionadas.

Lamento muito por isso!

A estratégia da limpeza étnica

Territórios Palestinos: Cisjordânia

Definitivamente, não há, em toda palestina histórica, lugar que não tenha colônias judias. Estão presentes nos territórios ocupados em 67 e no território árabe que “restou”, os 22% da Palestina Histórica.

Em todas as cidades, inclusive Hamallah, onde se encontra a Autoridade Palestina, cidade que ostenta um ritmo de normalidade aparente, há colônias judias na periferia da cidade.

Em Hebron e Jerusalém as colônias judias são construídas no centro das cidades árabes, são lugares de confrontos covardes. Aí concorre o Estado fascista/sionista com sua juventude armada e as milícias legais dos colonos contra os moradores árabes desarmados, sem milícias e exércitos.

Além das terras e casas roubadas para construção das colônias, o Estado sionista pode desapropriar, ao seu bel prazer, extensões enormes de terras para “fins militares”. Passei por uma dessas áreas militares a caminho da aldeia de Kafer Malek. Nela se encontram enormes torres de transmissão e antenas gigantescas, muito bem guardadas por arames farpados e a juventude do exército sionista bem armada.

A partir de 1993, ano do fatídico tratado de Oslo, os palestinos foram proibidos de transitar de um lugar para outro em seu próprio país. Nenhuma pessoa que more em Hamallah pode ir rezar ou trabalhar, ou visitar um parente em Jerusalém, ou Jericó, ou Jenin, ou Hebron. São proibidos de sair do lugar que moram, se saem não podem voltar.

O Estado confina as pessoas em suas localidades e as isola uma das outras. As aldeias foram transformadas em ilhotas afastadas umas das outras, entrecortadas por novas colônias judias, que por sua vez são interligadas por estradas bem construídas, por onde somente os judeus podem transitar.

No meio desse emaranhado de colônias judias, estradas judias e checkpoints judeus sobrevive o povo palestino com menos trabalho disponível. A conseqüência se reflete diretamente no que conseguem ganhar para garantir sua subsistência. Isso é dramático!

Não raro, grupos de trabalhadores arriscam a vida de madrugada para furar a cerca de arame farpado, em busca de qualquer trabalho numa colônia, nos territórios ocupados em 48 (Israel). Alguns tombam aí, assassinados pelos disparos da juventude do exército sionista.

As administrações civis locais judias operam no sentido de transformar a vida de cada família palestina num inferno:

Se uma família tem um terreno ou uma pequena casa e precisa construir mais cômodos, ou uma casinha para uma nova família que se forma, a administração sionista não lhe dá autorização para esta obra.

Se, porventura, começam as obras sem permissão do Estado, são obrigados a destruir o que construíram nos seus terrenos ou nas suas casas, além de pagarem uma grande multa por isso.

Mas o fato de não estarem utilizando o terreno é motivo legal para sua desapropriação, assim, o Estado cumpre a “lei do eterno retorno judaico”, ou seja, o imóvel é ocupado por uma família judia, não importando sua nacionalidade.

A primeira etapa da estratégia de ocupação sistemática foi expulsar o povo originário e construir colônias de imigrantes judeus de modo que o território árabe fosse absolutamente fragmentado. Agora, o projeto é transformar as colônias interligadas por estradas em corredores ou blocos bem policiados, que sistematicamente vão se juntando.

Neste sentido, não existe de fato e na realidade a famosa “linha verde”, o território palestino está totalmente entrecortado pela ocupação. Na agenda, as prioridades são Jerusalém e Hebron.

As estradas adquirem uma importância peculiar na estratégia de limpeza étnica. Elas são terrivelmente controladas por checkpoints que impedem a livre circulação de pessoas (palestinos) e mercadorias, asfixiando dessa forma toda organização social possível para os palestinos. Na verdade, é por onde se dá o controle fundamental e por onde criam as condições de novas expulsões e novas ocupações.

Cada cidade do território habitado pela população palestina da Cisjordânia, desconectados uns dos outros, é uma GAZA, com bloqueios que visam destruir, a teia social, a economia do lugar e a vida de seus habitantes. O que difere é que na Cisjordânia a estratégia é implementada de forma mais lenta da que usam em Gaza.

A parte da Palestina, ocupada em 67, somando a área que está sendo ocupada sistematicamente, foi transformada pelo Estado étnico em um grande canteiro de obras: Ampliação de estradas e novas redes de estradas dão sinais explícitos que os assentamentos judeus não vão parar e que a asfixia das reduzidas e fragmentadas cidades palestinas vão aumentar.

A ocupação é sistemática e permanente. Seu ponto central é, tão somente, expulsar o povo árabe de suas terras, limpar o território da presença árabe. Não é somente a anexação das terras que interessa, é, sobretudo, a limpeza étnica do território!

O Muro está inserido neste contexto perverso de anexação de terras, principalmente as terras mais férteis, das expulsões de famílias inteiras, do impedimento ao acesso ao trabalho nas fábricas, do impedimento da ida à escola, do acesso aos aqüíferos e às oliveiras. O Muro foi condenado pelo Tribunal Internacional de Haia, mas Israel tem como uma de suas características, clássica do fascismo, o aspecto “antijurídico”, levando em consideração somente a lei e a ordem imperialista.

O grande problema ainda é o número de habitantes árabes que insistem em resistir e não abandonam suas terras:

Existem cerca de 3,5 milhões de palestinos na Cisjordânia, 1,5 milhões de palestinos que ainda conseguem viver nos territórios ocupados em 1948 (Israel). Mais 1,5 milhões em Gaza. Além disso, é observado que é muito maior a taxa de natalidade do povo árabe do que a verificada nas colônias judias dos territórios ocupados.

Logo, isso significa que se fosse um problema de simples anexação de terras com a incorporação de sua população submetida, como acontece nas ocupações tipicamente coloniais, os árabes seriam maioria.

Mas isso não é possível no Estado fascista! Por isso é necessária a limpeza étnica, segundo a ideologia sionista, não se pode conviver com o inimigo, neste caso, os árabes, donos das terras roubadas.

Existem mais de 5 milhões de refugiados palestinos, cuja maioria vive em campos de refugiados acolhidos nas fronteiras dos Estados árabes, como o Líbano, a Síria e a Jordânia. Seus direitos não são considerados sob nenhum aspecto. Para o Estado fascista e o Imperialismo, esse já foi um problema, está resolvido.

Jerusalém

Ameaça sionista ao patrimônio da humanidade:

A Cidade velha de Jerusalém

Dentro das muralhas da histórica cidade árabe, centro e lugar sagrado de 3 religiões monoteístas: cristã, muçulmana e judia, está sendo cometido um verdadeiro crime contra a humanidade.

A mística sionista do “direito de retorno” é a máxima ideológica fundamental para uma obra que esburaca o espaço externo da Mesquita Al Aqsa, a segunda mais importante da religião islâmica. Essa obra, sem nexo aparente, compromete toda sua estrutura histórica. Os buracos estão sendo realizados em uma grande extensão e com bastante profundidade. Os soldados que montam guarda por ali, não nos deixam aproximar para ver a obra e seus imensos buracos.

O objetivo do Estado é achar indícios de que ali havia uma sinagoga. Até aqui, estão cavando e aprofundando e nada encontram! Alguns acreditam que o Estado forjará a construção de um sítio arqueológico capaz de justificar ainda mais os postulados que fundamentam ideologicamente a construção do Estado sionista.

Os muçulmanos não têm acesso livre para sua Mesquita, para entrar e rezar na Al Aqsa há um checkpoint israelense, guardado pela juventude do exército sionista. O mesmo não acontece com os cristãos. Estes têm livre acesso a seus lugares sagrados.

A cidade velha é uma típica construção árabe, com suas casas e comércio. Seus moradores estão aos poucos e sistematicamente sendo expulsos de suas casas e abandonando seu comércio: Ali já se apropriaram de algumas residências. A maioria desta colônia judia é de origem russa e o confronto covarde é a regra.

A estratégia é que Jerusalém se torne uma cidade de maioria judia até 2020, nesse sentido se apressam para cumprir a agenda da limpeza étnica. O projeto urbanístico da prefeitura sionista muda radicalmente a paisagem do lugar. A cidade está sendo descaracterizada, edifícios enormes estão sendo construídos, para colonos judeus, o cemitério árabe histórico profanado para construção do Museu do holocausto, bairro após bairro tem suas casas derrubadas e as famílias engrossam o número dos que vão viver nos campos de refugiados.

Em Silwan/Jerusalém: Um Bairro que resiste à ocupação e destruição de suas casas

Bairro construído em 1948, El-Bustan é o foco atual da ocupação. O Estado sionista considerou o bairro ilegal, o que significa dizer que não têm autorização para continuar sua existência e, portanto, deve ser demolido.

Fundamenta sua decisão em mais uma história mística, nome bonito para manipulação histórica, de que há 3 mil anos atrás o rei Davi passeava e brincava naquela esplanada.

No bairro, como em toda Palestina ocupada, os palestinos são obrigados pelo Estado sionista a pagarem os impostos à municipalidade, no entanto, em nenhum lugar, onde moram os palestinos, isto se reverte em serviços como: lixo, saúde, educação, etc. Em Silwan não é diferente!

Os serviços do Estado sionista só valem e estão disponíveis para os judeus, nas colônias judias e nos territórios ocupados em 1948.

A prefeitura tem uma agenda e um compromisso claro: a limpeza étnica de Jerusalém até 2020.

No documento de desapropriação não consta o nome do proprietário árabe, que passa a ser identificado pelo Estado com um número no mapa do bairro. A desumanização é proposital, o palestino não é visto pelo Estado como um ser humano, que participa do corpo social, que têm direitos iguais a qualquer outro cidadão.

Já destruíram e expulsaram mais de 10 famílias, mas a resistência está aumentando. Os moradores se organizaram em Comitê Popular, onde tudo é discutido e resolvido e onde discutem a estratégia de luta que vai defender seu bairro e suas casas.

Há uma crença geral de que estão defendendo o símbolo de sua dignidade e orgulho e, por isso, estão dispostos a dar a vida, se necessário for, para defender sua família, suas casas e suas terras da ocupação. É com firmeza que o principal líder do bairro fala: “Não vamos a lugar nenhum, aqui é nosso lugar, aqui ficamos. A destruição das nossas casas representa a destruição da família e do futuro dos palestinos em sua terra natal”

A pressão psicológica é muito grande, sobretudo, sobre as crianças. O Estado fascista tenta minar a resistência dos moradores efetuando prisões sistemáticas das crianças quando vão ou voltam da escola. Esta é uma estratégia que tem deixado marcas profundas nas famílias: uma criança de 5 anos de idade foi presa e ficou durante dias incomunicável, sem que seus pais soubessem onde estava; um menino de 10 anos já foi preso 4 vezes e um outro jovem de 14 anos, após ser solto depois de alguns dias, foi condenado a não poder sair de casa, está cumprindo pena domiciliar.

Profanação dos cemitérios muçulmanos

O histórico Cemitério muçulmano, campo santo de Maám Allah, situado próximo a cidade velha de Jerusalém, onde estão enterrados os restos mortais dos guerreiros de Saladino e dos companheiros do Profeta Mahoma, está sendo profanado pelo Estado apesar dos protestos internacionais, das críticas internas e do pronunciamento da ONU. O cemitério, de existência milenar – do século VII, será transformado em Museu do Holocausto, pela Fundação Simon Wiesenthal. O Estado transferiu sem o consentimento das famílias, os corpos dos mais de 1.500 jazigos para lugar desconhecido.

Vi a mesma falta de respeito em Hebron e em outros cemitérios avistados da estrada.

Essa política deliberada vai no sentido de apagar do mapa e da história os vestígios milenares que provam para todos os efeitos que naquela terra sempre viveu um povo, o povo palestino. Coisa que a ideologia mística de cunho religioso não consegue esconder com facilidade.

Hebron

Fomos conhecer a colônia de ocupação judia em Hebron, conhecida pela sua extrema violência. A ocupação sionista na região se deu em 1967.

Foi em Hebron que um colono americano judeu entrou numa Mesquita e descarregou uma metralhadora nas pessoas que ali estavam rezando, assassinando 69 palestinos. Quando descarregou todas as balas, os palestinos, sobreviventes, pegaram ele. No dia seguinte, sua esposa denunciava o massacre de seu marido por um bando de palestinos raivosos!?

Essa colônia, na década de 80, ocupou parte da cidade velha e expulsou os moradores desta parte e do entorno, por “segurança”.

Para alcançarmos a colônia passamos por um bem armado checkpoint, onde fomos revistados, e seguimos a única rua dentro desta área ocupada. Ela exibe uma série de casas de dois andares, típicas dos árabes e onde, outrora, a vida corria solta e livre. Se deixarmos a imaginação fluir, podemos sentir a sua majestade e importância no contexto social anterior ao sionismo, anterior à ocupação fascista.

Seguimos a rua até encontrar 3 carros enormes da polícia sionista, com policiais armados de metralhadoras e vestidos de coletes à prova de balas, impedindo o acesso à colônia. Na verdade, pretendíamos passar pelo entorno, na parte “desapropriada para fins militares”, rodeando a colônia. Um pouco à frente tínhamos que subir uma pequena colina.

Nossa aproximação suscitou neles uma certa agitação: abruptamente tomaram nossa frente e subiram a escadaria que dá acesso à parte interditada pelo exército, a uma escola para meninas e algumas sobreviventes casas palestinas. No final da estreita escadaria fizeram um corredor polonês por onde tínhamos que passar. Tentei o máximo ignorar suas presenças mortais, ato impossível! Tive muito medo!

No alto da colina, encontramos a escola cercada de arames e algumas casas de famílias palestinas que sobrevivem ali, apesar de toda provocação, violência e dificuldades.

Quando estávamos descendo, do outro lado, em direção a cidade velha, parte árabe, voltamos a encontrar a rua deserta. De um lado da rua vimos os prédios árabes de dois andares abandonados, aqui e ali havia sinal de que algumas famílias estavam resistindo no inferno, na qual foi transformado o bairro, nesta área perigosa e tão exposta aos assassinos sionistas…

Nesses prédios, as varandas foram fechadas com telas e madeiras para proteger as famílias palestinas das maldades dos colonos. Do outro lado da rua larga, um enorme cemitério árabe violado, apresentando tumbas remexidas, quase totalmente destruídas.

Mais adiante havia toneladas de arames farpados espalhados nas áreas livres entre os prédios, nas suas entradas e naquilo que um dia foi os espaços de brincar. Isso é feito para impedir o retorno dos moradores expulsos.

Nas paredes, desenhos de crianças judias mostravam o tipo de ideologia que lhes são ensinados. Desgraçadamente, as crianças judias são vítimas de seus pais fascistas.

Apressamos-nos para sair deste ponto desértico e sem vida, estávamos sozinhos numa área fantasma, onde éramos alvos fáceis para os soldados, para os milicianos e para os colonos sionistas armados de sentinela nas várias torres ao longo do trajeto. Tivemos receios e medo!

Próximo ao fim, a rua é dividida por um muro de 1 metro de altura. A pequena e estreita parte é por onde os palestinos podem andar e o resto da rua é destinado aos judeus.

Entramos na cidade velha por aí. Parece muito com as construções que vimos dentro das muralhas de Jerusalém. Também nesta parte vivem alguns colonos judeus, que transformam a vida dos moradores palestinos num inferno.

Os colonos judeus jogam objetos nas telas colocadas no espaço aéreo das ruelas. Essas telas foram colocadas pelos palestinos para proteger seus moradores e as pessoas que buscam o comércio árabe, das investidas dessas colônias judias.

Quando passamos pelas ruelas onde se encontram tais colônias e os armados jovens milicianos, o cheiro é insuportável. Os colonos judeus jogam, nas telas, todo tipo de lixo doméstico, incluindo de banheiro, fazendo as telas cederem com o peso. Essa é a intenção!

Os moradores ou comerciantes que moram em baixo ficam muito expostos às doenças, aos líquidos e a falta de compradores para suas mercadorias, já que muitos evitam essas áreas. Isso sem falar, nas constantes demonstrações de força, que colocam a população palestina na mira das metralhadoras do exército sionista ou das milícias violentas dos colonos.

O Problema alimentar e de saúde na Palestina

Agricultura

UNION FoR AGRICULTURAL WORK COMMITEES – UAWC

Fundada em 1986, a organização nasceu da preocupação com a grave crise alimentar e a posição vulnerável da produção de alimentos, como efeito direto da ocupação sionista, do confisco de terras e da água.

O objetivo desta organização é promover e melhorar as condições de vida das aldeias palestinas, nesses aspectos:

  • Amparo as famílias despossuídas para que voltem à produção,
  • Melhoramento das sementes criolllas. Manutenção e ampliação do Banco de sementes,
  • Distribuição das sementes e melhor aproveitamento da água,
  • Produzir retorno financeiro com a produção,
  • Proteger a terra, contra a ocupação e os desastres naturais,
  • Garantir o acesso à água,
  • Promover ações próximas ao muro: plantar e construir hortas, por exemplo,
  • Elaborar planos de emergências nos casos de despejos forçados,
  • Organizar as mulheres camponesas para obtenção de renda própria na criação de pequenos animais e abelhas,
  • Orientar as organizações dos camponeses em torno dessas e outras questões que lhes afligem.

A ocupação do solo palestino pelo sionismo não foi aleatória. O Estado quando promoveu a limpeza étnica no campo, se apropriou de 70% das terras agricultáveis, as terras mais férteis.

A partir dessa organização, os palestinos estão conseguindo reorganizar a produção do azeite de oliva, mas deram curtos passos na parte da distribuição e venda do produto para o mercado externo. O Japão, alguns países da Europa, Canadá e os EUA são alguns países que compram o azeite palestino, mas como a moeda é israelense e o comércio dos palestinos é totalmente dependente do Estado étnico, as dificuldades são muitas.

A solidariedade internacional é a base que sustenta esse pequeno comércio externo

Os produtos palestinos, em especial o azeite, têm tratamento secundarizado e inferior aos produtos produzidos nas colônias judias. Os constantes descumprimentos de prazos contratuais para entrega são uma dessas dificuldades enfrentadas, que aumentam os custos, tornando o produto pouco competitivo no mercado. Outros produtos perecíveis estragam nos corredores da burocracia sionista.

Esta organização palestina é filiada internacionalmente ao Comitê Internacional pela Soberania Alimentar. A Via Campesina recusou sua filiação pelo critério de não serem uma organização de massa.

O esforço dessa organização tem o apoio de todas as organizações políticas da Palestina, sua tarefa é minimamente manter o povo produzindo alimentos e resgatando sua dignidade.

O trabalho deles está longe de ser uma simples intervenção técnica, é um trabalho político de grande monta. A estratégia principal do grupo é a sobrevivência do povo.

Eles têm muita clareza da importância desse trabalho e do contexto político da ocupação que transformou o povo em vítima da limpeza étnica, sem liberdade para ir e vir, sem direitos políticos, legislativos e sociais, onde o Estado ocupante não permite que produzam o mínimo para suprir suas diversas necessidades básicas.

O trabalho é junto aos camponeses sem terras que vivem com muitas dificuldades. Durante as atividades de colheitas têm que enfrentar as armas dos colonos e do Estado invasor que passam o dia atirando para o campo.

SAÚDE

Os palestinos se organizam em vários comitês que, como o agrícola, têm a tarefa de promover uma vida mais digna para o povo, no contexto da ocupação sionista e tudo que isso implica, na área da saúde coletiva.

O Comitê da Saúde reúne a coordenação e o monitoramento de projetos para saúde das crianças, das mulheres e dos idosos, nos territórios árabes.

O comitê da Criança e da Adolescência se dedica em especial a cuidar das crianças vítimas da ocupação feroz, crianças que já foram presas, ou que viram seus pais serem humilhados, ou que já foram elas próprias humilhadas, feridas ou torturadas. Trabalha por mostrar à sociedade palestina os direitos das crianças e a importância da defesa desses direitos.

A preocupação de manter o povo vivo e ativo, de cuidar de seus velhos, das mulheres, da juventude e das crianças é constante nas discussões com os vários tipos de organizações da qual participei.

A solidariedade interna é um traço forte no perfil da sociedade palestina. Em algumas ocasiões ouvi a frase: “Com uma mão eu resisto, com a outra tenho que sobreviver”

Acho que esses Comitês específicos materializam de certa forma no campo social a perspectiva da sobrevivência, no contexto de sua luta permanente contra a ocupação sionista.

Presos Políticos

Nos últimos 42 anos de resistência, os palestinos contabilizam que foram presos cerca de 800 mil palestinos, dos quais 8 mil permanecem nos cárceres sionistas.

Na Palestina ocupada, todas as formas de luta levam à prisão. Ser um ativista comunitário e defender seu bairro contra a demolição de casas é crime, atirar pedras nos tanques e caveirões sionistas é crime, organizar e promover manifestações é crime! Resistir à ocupação é um crime!

Ser palestino ou palestina é um crime gravíssimo, sujeito à prisão, ao desterro ou ao extermínio, na Palestina ocupada pelo sionismo.

O direito de lutar e resistir à ocupação, contra o extermínio de seu povo, é reconhecido pelas leis do Direito Internacional e pela Organização das Nações Unidas. Entretanto, os palestinos não estão lidando com um Estado de direito mas com um Estado fascista clássico, que faz das leis letras mortas.

Por todos os lugares há famílias que perderam seus filhos, ou maridos, ou mulheres ou mães para as temidas prisões israelenses. Mas isso não é tudo! Além das prisões, o Estado de Israel toma as casas dos presos e o direito das suas famílias viverem aí.

A campanha pela libertação dos presos e de amparo as suas famílias desabrigadas é permanente. Há várias organizações envolvidas que se preocupam em dar suporte jurídico aos presos e suas famílias.

As crianças presas não têm direito aos estudos e são, constantemente, vítimas de torturas psicológicas, físicas e de abuso sexual.

As denúncias de maus tratos e tortura não param de chegar. Os presos são muitas vezes colocados incomunicáveis, durante muito tempo, e em lugares distantes de suas famílias. Como não podem transitar livremente de uma cidade para outra, na prática, as famílias são impedidas de visitá-los. São vítimas de todo tipo de pressão, o objetivo é quebrar sua moral revolucionária e mudar sua opinião política.

Os líderes e ativistas reconhecidos da causa palestina são os principais alvos. É o caso do Secretário da Frente Popular pela Libertação da Palestina, membro eleito do Conselho Legislativo Palestino, Ahmad Saadat.

Preso pela polícia da Autoridade Nacional Palestina, em 2002, a pedido de Israel e uma exigência dos EUA, foi colocado sob custódia dos agentes norte americanos e ingleses na prisão de Jericó, território da ANP.

Sua prisão detonou uma série de apelações de todas as entidades e organizações palestinas, inclusive da Corte Suprema Palestina de Justiça, pela sua liberdade. Mas Arafat manteve a prisão do líder da resistência.

Em 2006, o exército sionista montou uma operação militar que culminou com o seqüestro dos prisioneiros ligados à FPLP sob custódia dos agentes americanos e ingleses nas prisões da Autoridade Nacional Palestina. Desde então, Saadat encontra-se em cárcere sionista. A cada 3 meses ele é mudado de prisão e posto em solitária. Dessa forma dificultam as visitas de sua mulher e filhos.

Contudo, sempre que pode, reafirma suas firmes convicções e esperança na luta travada por seu povo em defesa de suas vidas, dignidade e de suas terras.

Conclusão

I –

A composição política e social que hoje se apresenta como herdeira daqueles que 1897 projetaram a construção de um Estado judeu mudou.

A entidade sionista votada pela ONU em 1948 não é mais dirigida pela pequeno burguesia judia em aliança de fogo com o capital pela defesa dos interesses imperialistas na região.

O sionismo é a própria representação ideológica do capital financeiro, produtivo e do complexo industrial militar. Detém o controle sobre os principais bancos privados e os bancos centrais dos países; controlam os maiores veículos de comunicação de massas no mundo, a indústria bélica e os arsenais nucleares.

Sua religião é o capital, sua nacionalidade é norte americana e européia.

O sionismo construiu o Estado de Israel para a função de ser uma poderosa base militar, com poder nuclear, para proteger os interesses das grandes corporações, do grande capital transnacional e das companhias de petróleo no Oriente. Os Estados Unidos da América gasta 25% da produção petrolífera mundial de petróleo para uma população que representa 3% da população mundial.

Israel existe para manter os governos títeres sob controle, colaborar com a política de ocupações imperialistas no Iraque e no Afeganistão e ampliar as fronteiras ocidentais para a Síria, o Líbano e o Iran.

O sionismo tem o domínio ideológico total de amplas massas comprometidas e dispostas a matar o inimigo interno, indigno, mesmo quando esse inimigo é uma criança árabe, tudo em nome do nacional-sionismo. É em Israel que se conforma e se forma o exército de homens mercenários e prontos para invadir, ocupar ou controlar as riquezas dos povos oprimidos ou que lutam contra a opressão.

Seu caráter fascista, que mal consegue disfarçar com algumas maquiagens “democráticas”, se apresenta em todos os aspectos da vida social.

As instituições não têm autonomia e se sustentam sob o pilar da ideologia militar e religiosa.

A limpeza étnica e o genocídio que promovem, cotidianamente, contra o povo palestino é parte fundamental da construção desse Estado militar fascista.

Lembremos de Gaza e do ataque assassino, em dezembro de 2008 , quando, durante 22 dias, Israel despejou centenas de bombas experimentais que vão marcar para sempre a vida de seus habitantes e seus descendentes com mutações genéticas. Ato contínuo, impôs um bloqueio criminoso a 1,5 milhões de palestinos, transformando Gaza no maior campo de concentração do mundo. E ainda hoje, Israel faz incursões militares por ar, atirando e matando os palestinos.

A luta no campo midiático não é negligenciada, ao contrário, o sionismo manipula a história descaradamente. Nisso, contam com a indústria cinematográfica, do entretenimento e com as grandes cadeias de TVs e jornais, a maioria de propriedade do capital sionista.

Por trás do discurso de vítimas que repetem ao extremo e à exaustão se esconde a mais poderosa máquina de fazer lucros e corpos do mundo, ou seja, a burguesia transnacional, a mesma que sustenta com sua máquina lucrativa a guerra, o genocídio dos povos oprimidos e a usurpação e concentração das riquezas naturais.

Na atualidade, a rigor, os exércitos da burguesia não se enfrentam uns contra os outros na disputa por mercados. O que se observa é o conflito bélico covarde: Os poderosos exércitos que se somam aos exércitos privados, compostos por mercenários, que se lançam contra os povos e suas resistências para garantir o domínio das riquezas locais.

Muito se tem escrito sobre o significado do ataque de Israel à Flotilha humanitária, alguns dizem que esse fato deixou seqüelas no relacionamento com os EUA e com a Europa.

Acho que ainda é prematuro para as certezas, mas a princípio não vejo nenhum sinal que identifique uma ruptura. Por óbvio, existem contradições na administração e nos encaminhamentos políticos e militares do grupo representante do sionismo que compõe o governo de plantão. Mas, são contradições absorvidas plenamente no jogo dos interesses compartilhados. Israel não tomaria atitude militar sem o conhecimento e o consentimento dos EUA.

Outra coisa é a esfera dos discursos encomendados e necessários. Nesse caso, os EUA cumprem o papel de acalmar as expectativas de seus aliados e principalmente, das massas desses países aliados.

Após o criminoso ataque à Flotilha, as massas dos países árabes foram às ruas exigindo o rompimento das relações com Israel. Obviamente, que os governos do Egito e da Turquia ficaram numa situação complicada e problemática, em seus países. Esse fato novo os forçou a tomar medidas e posições que antes não estavam colocadas no cenário. Isso cria contradições, por certo, mas ainda não é sinal de ruptura.

Senhores e senhoras, este é o drama palestino! Eles estão na alça de mira do canhão mais moderno que o capital especulativo pode apresentar à sociedade.

II –

Na Palestina, não existem condições objetivas para a coexistência de dois Estados.

Mesmo que houvesse, de fato, essa intenção, os territórios palestinos estão absolutamente fragmentados para supor tal proposição. Este Estado seria absurdamente controlado pela ocupação.

Não teria sequer um espaço contíguo. Conformar um Estado ao lado, cercado, e sob a tutela da ocupação sionista, sem o retorno dos refugiados, é na prática legitimar o Estado fascista, étnico e racista, é legitimar a injustiça, a ocupação e legitimar o poder do sionismo na Palestina e no Oriente Médio.

Os palestinos perderam a soberania de todas suas riquezas naturais. Lá existem 3 aqüíferos e todos estão sob o controle do sionismo. Roubaram de Gaza sua reserva off shore de gás natural. Os palestinos não têm controle sobre a distribuição da energia, da venda de seus produtos, das suas próprias vidas.

Para sobreviver, são obrigados a vender sua força de trabalho para o ocupante e fazem isso se arriscando a ganhar um tiro ao tentar atravessar a cerca, ou o muro.

Trabalham em empreitadas para qual não encontram quem as façam, no meio judaico e recebem ou não, por isso. Depende do humor do judeu que o contratou. Se não recebe, vai reclamar com quem? No tribunal Israelense, cujo juiz é um bem remunerado funcionário público do Estado sionista morador do Kibutz ou das colônias? Preocupado e interessado, ele próprio, com a manutenção e a reprodução do Estado étnico que lhe garante os privilégios?

Ouvimos muitas histórias tristes das experiências dos palestinos com a ocupação, mas é de cortar o coração a história de um jovem que se arriscou para tentar arrumar qualquer trabalho numa colônia, conseguindo, justamente, na demolição de uma casa que outrora era a casa de seus pais, que foram expulsos do lugar,

O Estado corta sem piedade as oliveiras milenares, chamadas de romanas; apropria-se das terras férteis; destrói os bairros; derruba as casas e expulsa as famílias. Provoca a fuga de milhares de pessoas que fogem da morte para campos de refugiados, depois de terem suas terras saqueadas e roubadas, seus cemitérios profanados, suas escolas destruídas e seus filhos e pais assassinados ou presos.

Os palestinos, em sua própria terra, não gozam dos benefícios das leis para os judeus, não têm direitos civis e direitos humanos, nem direitos sociais. Por outro lado, esse mesmo Estado articula a migração de uma massa de judeus de diversas nacionalidades, garante para eles uma boa casa ou apartamento numa colônia construída sob os escombros de um bairro palestino, garante saúde de primeiro mundo, escola barata e de qualidade para seus filhos e um emprego nas Forças Armadas, cuja tarefa é garantir a reprodução desse sistema perverso, fascista.

A proposta de dois Estados muda o que e onde nessa história?

Israel não vai mudar, pelo convencimento, seu caráter, sua natureza e sua função no projeto do capital sionista para o Oriente Médio. Portanto, mesmo que fosse possível ou viável a discussão de dois Estados, a situação dos palestinos não mudaria. Toda cadeia de injustiça na qual está baseada a construção do Estado fascista se manteria por uma simples razão: a Palestina fragmentada em cidades estanques continuaria ser um Estado dependente econômica e politicamente e impedido de reconstruir sua teia social. Nada mudaria para os trabalhadores que se arriscam diariamente para trabalhar, os checkpoints, as estradas continuariam controladas por Israel, o Exército sionista bem armado controlando tudo e todos, as prisões, as incursões, enfim…

Para ser franca, começo a achar que os que defendem essa solução fazem, mesmo que inocentemente, o jogo do sionismo.

Nesse sentido, a única forma de confrontar e atiçar as contradições da situação política de crise moral, do fascismo, é contrapor a luta por um Estado Palestino Livre, laico e soberano para todos os povos, com o retorno dos refugiados.

Só desta forma, podemos destruir o Estado fascista e impedir sua reprodução, não há outra via.

Muitas tarefas se impõem até lá e os palestinos, em particular a esquerda, que conta com um grande e precioso capital, tem pela frente a urgência de acelerar o processo de construção da unidade neste campo, acelerar a percepção popular do caráter duplo da opressão e enfrentar a direita que trai a luta do povo.

Que fique claro, a luta pela destruição do Estado fascista não será obra dos palestinos sozinhos. Essa luta requer o envolvimento de todos os setores antiimperialistas na maioria dos países. Essa é uma tarefa de todos nós.

Nesse sentido, vem lá da Palestina a proposta unitária da esquerda de darmos início a construção de uma ampla frente para confrontar a aliança do imperialismo com o sionismo.