89 anos da UJC-Brasil e os 10 anos da sua reorganização: A construção de uma escola de comunistas!

imagemLuís Fernandes*

No último dia 1º de agosto milhares de jovens e militantes comunistas brasileiros comemoram os 89 anos da fundação da União da Juventude Comunista (UJC). Em 1927, no Rio de Janeiro, tendo Leôncio Basbaum a principal figura de referência, ocorria o I Congresso da UJC-Brasil. A primeira organização juvenil de esquerda no país e mais do que isso: a primeira organização nacional que visava organizar a crescente juventude proletária dos centros urbanos brasileiros.

Talvez não tenhamos a real compreensão do pioneirismo e audácia da primeira geração organizada de jovens comunistas brasileiros. Seguindo as diretrizes de Lênin e a do movimento comunista internacional, a formação das Juventudes Comunistas cumpriria um papel estratégico no projeto revolucionário internacionalista. Tratava de organizar e preparar os filhos da classe trabalhadora para a tarefa de dirigir e erguer a sociedade comunista. Menos viciados com a velha porcaria da sociedade capitalista, as Juventudes Comunistas também cumpririam um papel político e ideológico pedagógico em educar e se auto educar no bojo da luta revolucionária.

O leitor pode se assustar com esse último parágrafo, afinal, essa perspectiva de organização juvenil parece ter sido “vencida pela história”. As derrotas e as degenerações no interior do movimento comunista internacional, no século XX, parecem ser a prova de que as ideias de Lênin e Liebknecht estão ultrapassadas. A ideologia pós-moderna, hegemônica nos dias atuais mesmo nos meios de esquerda, cisma em converter a juventude em uma mera faixa de consumo ou em um conjunto plural de identidades sociais. O grande desdobramento disso para as organizações de esquerda juvenis seria que o “caráter revolucionário” da organização estaria na mera soma das partes de lutas específicas/setoriais nas lutas estudantis, populares, nos movimentos negro, feminista, LGBT dentre outros.

O caráter revolucionário de uma organização juvenil não está apenas no sentido de unir lutas particulares, representá-las ou até mesmo estar inserida nas mesmas. Uma lição de que devemos tirar desse 89º aniversário da UJC é este: o caráter revolucionário de uma organização também está fundamentalmente no vínculo estratégico entre a juventude e poder político. Para nós comunistas, na atual fase histórica, nossa grande tarefa é luta pela derrubada do Estado capitalista, ou seja, um dos principais objetivos de uma organização juvenil comunista é o de formar quadros experimentados, preparados e cientes da justeza das ideias comunistas, nosso radical humanismo e a constante capacidade crítica e autocrítica.

Mas, um quadro revolucionário não brota em um, dois ou três anos. Não é apenas participando de algumas lutas de massas ou participar de cursos sobre conceitos marxistas que se forma um quadro. Trata-se de uma complexa equação a qual se une as características particulares individuais, o momento histórico na luta de classes, a formação teórica e capacidade crítica e autocrítica no trabalho coletivo. Dependendo do momento histórico, são anos e anos para se formar um quadro, trata-se de um produto social coletivo.

Essa é uma tarefa das mais difíceis para a UJC. Apesar de ter formado muitos quadros no século XX como: João Saldanha, Zuleika Alembert, José Montenegro de Lima, Leandro Konder, dentre outros. A inconstância na existência da UJC, durante o século XX, fora produto dentre outras razões de um Partido Comunista Brasileiro (PCB) em muitos momentos sem grande coesão ideológica e teórica, e por isso impossibilitado em formar e projetar o seu futuro. Consolidando a sua reconstrução revolucionária, principalmente a partir de 2005, o PCB consegue pela primeira vez na sua história dar sequência a um projeto de construção de sua juventude comunista.

Nesse ano, completa-se também 10 anos da reorganização da UJC. Em 2006, um grupo de jovens em Belo Horizonte, ousou reconstruir a Juventude Comunista ao organizar o congresso de reorganização da UJC. Propuseram um novo modelo de organização, eixos políticos, desde sempre nos reinserimos no processo de reconstrução do movimento juvenil comunista internacional aos pouco a UJC foi ganhando corpo nacional e se tornando uma das principais organizações de juventude da esquerda brasileira.

A contribuição daqueles camaradas, em 2006, é muito maior dos que a citada acima. Tratou-se de recuperar a perspectiva comunista na qual uma organização de juventude deve ter. A juventude com um projeto de classe e organizada com a finalidade de contribuir para a real disputa do poder econômico, social, cultural e político da sociedade. Por isso, passados esses 10 anos é possível já identificar os primeiros sinais da construção de um centro formativo de quadros para o PCB e o movimento revolucionário.

Além de fortalecer o trabalho partidário e o realinhamento do PCB com a classe trabalhadora, principalmente a operária, o desenvolvimento da UJC como um espaço de formação de comunistas nos leva a criar situações para resolver lapsos teóricos e organizativos do movimento comunista brasileiro. Certamente podemos avançar mais, principalmente no sentido formarmos militantes mais vinculados ao trabalho coletivo, maior senso crítico e autocrítico e profundamente antidogmáticos.

Antidogmatismo em nada reside na adoção de conceitos de uma dita “heterodoxia” ou incorporar acriticamente críticas de setores de direita e de esquerda ao movimento comunista e ao PCB. Devemos ter uma profunda consciência histórica e questionadora. Histórica no sentido que as condições de luta que travamos fora um legado de muitas lutas, vitórias e derrotas de gerações anteriores. A História, quase sempre, é contada com o viés daqueles que têm o poder, dos ditos vencedores. Por isso, para construirmos uma profunda crítica histórica do nosso legado devemos, primeiramente, combater essa História dos de cima.

Essa consciência histórica nos permite questionar nossos erros com justeza, respeito e, principalmente, tirar lições para o nosso tempo, sabendo que o nosso desafio é sempre o de produzir uma crítica positiva, isto é, que supere a mera negação do passado e que apresentemos novas sínteses teóricas e práticas.

No Brasil, há uma péssima tradição de nos relacionarmos com o pioneirismo dentro da esquerda, inclusive comunista. Há sempre a tendência de minimizarmos os feitos por pouco conhecermos os contextos vivenciados ou então apenas apontarmos críticas às insuficiências da geração passada. Contudo, dentro da história da UJC, há muito o que referenciar entre os pioneiros de 1927 e 2006. Afinal, esses camaradas foram marcantes para a existência de uma radical e revolucionária forma de organizar a juventude, em especial trabalhadora. Mais do que isso, de forma direta são responsáveis pela formação dessa grande escola de comunistas brasileiros, em pleno século XXI, que é a União da Juventude Comunista.

Viva os 89 anos da UJC,

Viva os seus 10 anos de Reorganização,

Ousando Lutar, Ousando Vencer,

Semeando a Revolução.

*Luís Fernandes – Secretário Politico da União da Juventude Comunista-Br.

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