Ensinando o básico de economia para os liberais

Ensinando o básico de economia para os liberaisPor Jones Manoel*

O Livres – Renovação do PSL publicou um texto afirmando que ter como principal pauta de produção e exportação produtos primários não é um problema. Criticando ideais vagamente industrializantes de Bolsonaro e Lula, o Livres produziu um quadro comparativo mostrando que outros países centrados em produtos primários, no caso Chile, Austrália, Nova Zelândia e Hong Kong, tem uma renda per capita maior que o Brasil; esse argumento seria a prova empírica que mostra que é possível ter renda per capita alta mesmo sendo uma economia dependente da produção e exportação de produtos primários. Na sequência do escrito, o Livres tenta reconstruir a “teoria” das “vantagens comparativas” que supostamente seria de David Ricardo. Resumindo a ideia, a ideologia das “vantagens comparativas” defende que cada país deve se especializar no que melhor produz, ou seja, no que consegue produzir com menor custo, maior eficiência e produtividade, e comprar os outros produtos, afinal, segundo o Livres, o comércio não é “um jogo de soma zero”: com regras livres e estáveis, sem a interferência do governo, todos os países ganham com o comércio internacional. Vamos explicar em detalhes os erros dessa visão.

Renda per capita

A renda per capta é basicamente a divisão do número total de habitantes de um país pela riqueza produzida medida em PIB (Produto Interno Bruto). Ou seja, você pega o valor do PIB e divide pelo total da população. O resultado é a renda per capita. Normalmente, países ditos desenvolvidos, isto é, países centrais do capitalismo, têm uma renda per capta alta. A partir disso, o Livres te induz a pensar que a economia do Chile, por exemplo, é “desenvolvida”. A renda per capita é um dado que diz praticamente nada! Por quê? Um país como o Brasil a renda per capita é uma grande ilusão dado o altíssima índice de desigualdade. A renda per capita não informa a capacidade de consumo médio (a nossa renda per capita é de pouco mais de 8 mil dólares, quando 80% da força de trabalho do país recebe até três salários mínimos), o nível de desigualdade de renda, o papel do país na divisão internacional do trabalho, a capacidade produtiva da economia, o nível de domínio científico e tecnológico etc. É um dado que sozinho não revela nenhum aspecto da realidade.

Além disso, dos 193 países que existem no mundo, a maioria são países capitalistas dependentes ou periféricos que têm sua pauta de produção e exportação concentrada em produtos primários. O Livres de maneira desonesta selecionou uns poucos exemplos (a famosa exceção!) de países dependentes com renda per capita mediana maior que a brasileira ignorando que outros vários países, a imensa maioria, apresentam tendência contrária à Austrália, por exemplo. É como se em uma pesquisa numa amostra de 200, 192 apresenta uma tendência e 8 outra tendência. Aí você conclui que a tendência correta é a exibida pelas 8 amostras e ignora o resto. O sentido antilógico disso é evidente.

O Livres, também de forma desonesta, só lecionou países com baixíssima densidade populacional, isto é, só escolheu países com poucos habitantes. Como a renda per capita é uma divisão entre o número total de habitantes por riqueza medida em PIB, países com baixa população tendencialmente vão apresentar renda per capita maior. A Austrália tem 20 milhões de habitantes, o Chile 15 milhões e a Nova Zelândia 4,4 milhões. Junte a população desses três países e a região sudeste do Brasil tem densidade populacional maior!

Entendeu a falsidade desse dado como usado pelo Livres?

Industrialização e “desenvolvimento”

Sem elaborar muito teoricamente, buscando ser o mais didático possível, podemos dizer que uma característica comum das economias ditas mais “desenvolvidas” do mundo é altíssima complexidade produtiva (ou seja, economias industrializadas), domínio de ciência e tecnologia com produção em massa de patentes e infraestrutura eficiente e avançada. Pega os exemplos da União Europeia – especialmente os países centrais, como Alemanha, França e Itália –, Japão, China e EUA: nenhum desses países têm economias primário-exportadoras e vive de importar produtos industrializados prontos. Evidentemente que existem formas e formas de industrialização. O Brasil no século XX passou por um grande processo de industrialização chamada de “industrialização periférica” que não rompeu com a dependência e o subdesenvolvimento. Como se pode explicar isso? Dentre uma série de fatores, e buscando de novo simplificar, podemos dizer que dentro da divisão internacional do trabalho, as indústrias instaladas no Brasil eram as mais atrasadas, com menos tecnologias, menor produtividade do trabalho e as decisões de investimento e alocação de recursos eram feitas de acordo com o interesse das economias centrais – por exemplo: a fábrica da Fiat no Brasil monta o carro em nossa terra, mas a produção de componentes robóticos, microeletrônica etc. fica nos países centrais.

A despeito do fenômeno da “industrialização periférica”, uma coisa é certa: é impossível ser uma potência econômica sem altíssimo grau de complexidade produtiva, domínio tecnológico e elevada produtividade do trabalho (inclusive, esse ponto é meio óbvio, afinal, basta olhar as características econômicas da União Soviética e dos EUA, as duas superpotências do século XX, e da economia que mais cresce no mundo, a China).

Vulnerabilidade econômica

Não precisa entender muito de economia para saber que países com baixa complexidade produtiva que dependem basicamente de um ou poucos produtos estão mais expostos à crises econômicas ou dificuldades financeiras. Por quê? O Chile, exemplo de economia primário-exportadora de sucesso para o Livres, exporta essencialmente cobre. Para conseguir o dólar para comprar tudo que precisa ele depende do preço do cobre no mercado internacional. Quando o preço do cobre baixa, a balança comercial e de pagamentos do país apresenta problemas, a capacidade de importar é menor (dado a redução na entrada de dólares na economia), a inflação tende a aumentar devido a redução da oferta de produtos, o investimento diminuir, o crédito é reduzido etc. Uma economia mais diversificada, com pauta de exportações centradas em vários produtos com níveis de complexidade médio e alto, é menos vulnerável às “oscilações do mercado” ou a manipulação de preços pelos países e grandes monopólios. Por isso que a Alemanha vai sempre enfrentar com mais tranquilidade uma crise econômica que Grécia ou Portugal, por exemplo.

Vantagens comparativas

É até vergonhoso falar em teoria das “vantagens comparativas”. Recomendo aos curioso no tema que assistam o documentário disponível no You Tube “Ruy Mauro Marini e a dialética da dependência” que mostra suficientemente bem o quanto essa ideologia é um falseamento da realidade. Nesse texto, me parece ser satisfatório apresentar um dado importante. A teoria das “vantagens comparativas” defende que que um país deve ser o melhor no que produz para assim alcançar o desenvolvimento. Pois bem, o Brasil é maior exportador mundial de açúcar, café, carne bovina, carne de frango, porco, soja, laranja e suco de laranja e o quinto maior exportador de algodão. Somos, veja só, o melhor país do mundo na produção agroexportadora e continuamos na MERDA! Esse dado me parece razoável para mostrar que a ideia de “ser o melhor” na produção e exportação de um produto, não importando o produto, induz ao “desenvolvimento” é uma besteira.

Conclusão

Enfim, é isso, camaradas. Podemos perceber como a ideologia liberal opera um completo ocultamento da realidade, não compreende o básico da economia e busca legitimar o domínio do latifúndio. Para o Livres, assim como a Rede Globo, o agro é pop, o agro é tech, o agro é tudo!

Jones Manoel é militante do PCB

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