Clóvis Moura: a história do Brasil negro

Clóvis Moura. Foto: Arquivo Pessoal
Por Nathália Mozer – educadora popular, militante do PCB de Nova Friburgo e diretora da Fundação Dinarco Reis
Neste ano de 2025, celebramos o centenário de nascimento de Clóvis Steiger de Assis Moura (1925–2003), nascido em Amarante – PI. Sociólogo, jornalista, historiador, poeta e militante revolucionário, sua obra é uma das mais importantes no estudo sobre a história da luta de classes no Brasil, em particular sobre a história de luta do povo negro.
Clóvis Moura tornou-se simpatizante das ideias marxistas, especialmente com o fim da Segunda Guerra Mundial e a derrota do nazifascismo. Aderiu ao PCB em meados da década de 1940 até início dos anos 1960, quando saiu do Partido, em proximidade ideológica com o grupo que formaria o PCdoB, apesar de nunca ter sido seu militante. A influência do pensamento marxista, das experiências revolucionárias no mundo e a troca extremamente rica entre Clóvis e a intelectualidade e militância pecebistas foram marcas fundamentais na sua obra, até o fim de sua vida.
Fez parte de diversas publicações políticas e culturais comunistas, escrevendo sobre política, cultura e a história do povo negro. Jornalista de mão cheia, trabalhou também em muitos jornais ao longo de sua vida. Existe uma historiografia e sociologia do povo negro brasileiro antes e depois de Clóvis Moura.
Em um período em que a historiografia burguesa ainda celebrava o “protagonismo” da princesa Isabel e atribuía o processo de abolição da escravatura às elites e aos liberais brancos, Clóvis propõe um olhar detalhado das revoltas dos escravizados como parte fundamental da conquista da abolição.
Em diversas obras, a partir do clássico “Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas”, livro publicado em 1959, Moura resgata o histórico de luta dos negros escravizados contra a escravidão. Aborda a escravidão como um fenômeno histórico, sociológico e econômico crucial para a formação social brasileira.
O protagonismo do povo negro na luta contra a escravidão
O principal destaque da obra está no fato de Clóvis romper com a visão elitista que apresentava o escravizado como sujeito passivo perante sua exploração, e apresentar uma perspectiva em que a população escravizada foi a principal responsável por sua libertação, num processo contínuo de desgaste e solapagem do escravismo colonial, do início ao fim desse sistema, utilizando diversas formas de luta, tendo esse binômio senhores de escravos x escravizados representado a principal contradição social até 1888.
O quilombo, símbolo maior da resistência dos negros escravizados, deixava de ser um refúgio isolado para se tornar uma unidade política de resistência contra o sistema, agregando um bloco social dos setores marginalizados, explorados e oprimidos (capitaneado pelos negros escravizados, mas que abrigou indígenas e brancos pobres também), com base no trabalho livre, na distribuição da propriedade da terra, na socialização dos bens produzidos e na busca ativa da libertação dos escravizados, constituiu-se na maior ameaça e alternativa ao sistema escravocrata.
Clóvis Moura foi o primeiro autor a exaltar a importância e a riqueza dessas experiências sob o viés político.
Deu contribuições substanciais às análises e divulgações sobre a história do movimento negro no século XX, como intelectual e militante, fazendo parte da fundação do MNU no final dos anos 1970.
Suas interpretações materialistas sobre o papel do racismo na sociedade brasileira e o legado dos tempos escravistas no imaginário das classes dominantes brasileiras são pontos de partida para quaisquer trabalhos sérios voltados a entender esses fenômenos. Somente com Clóvis Moura temos uma leitura insuficiente sobre o Brasil, mas sem ele é impossível entendermos nosso país e formularmos um programa socialista, revolucionário e antirracista para a nossa classe.
APOIE A FUNDAÇÃO DINARCO REIS:
Faça um Pix: 04345176000136
https://fdinarcoreis.org.br/
https://linktr.ee/fundacaodinarcoreis
