Argentina: mais de 600 mil manifestantes repudiaram a ditadura e o macrismo

Quanta força e quanta memória

POR CARLOS AZNÁREZ, Resumen Latinoamericano, 24 de março de 2017.

Seiscentas mil ou mais? Não existem olhos que alcancem para contar quantas mulheres, homens, jovens, adolescentes, meninos e meninas marcharam no dia 24/03 pelas ruas de Buenos Aires e de todo o país para repudiar os militares da ditadura de 1976 e, ao mesmo tempo, assinalar como um de seus herdeiros o governo atual de Mauricio Macri.

Éramos muitos e muitas. Sobrava imaginação nos cartazes que cada um portava, onde se expressava a homenagem emotiva às e aos revolucionários dos anos 70, às e aos 30 mil desaparecidos, a essa geração rebelde e insurgente que decidiu tomar os céus por assalto e sofreu um dos grandes genocídios de nossa história. Ali estavam, junto a todos e todas que marchavam, as crianças que alfabetizavam nas vilas e foram sequestradas, os trabalhadores da Ford ou Mercedes Benz que também foram sequestrados, assim como os cortadores de cana de Tucumán e Salta, as companheiras do magistério, os religiosos Palotinos e o Padre Carlos Mugica, os e as militantes dos partidos de esquerda, todos eles assassinados por capangas da Triple A ou da estrutura militar e policial repressiva. Não faltaram no percurso de tantas horas de caminhada, as e os insurgentes das FAP, FAR, Descamisados, Montoneros, ERP, FAL, OCPO, PCML e tantas organizações revolucionárias, que foram detidos, torturados, assassinados. Porém, também, marcharam muitas da Madres, Abuelas, HIJOS, irmãs que em todos estes 40 anos mantiveram a chama acesa da memória e aquelas que foram semeadas junto às árvores da Praça.

Além disso, graças a alguns cartazes juvenis, pudemos nos sentir mais próximos de Rodolfo Walsh, Haroldo Conti, Daniel Santoro, Raymundo Gleyzer, Pirí Lugones, todas e todos os jornalistas assassinados pela ditadura.

No entanto, o que não puderam matar é a memória. Nem os milicos de ontem, nem os “democratas” que os sucederam, sequer este presidente que tenta fazê-lo por todos os meios. Impressionava ver as colunas majoritariamente jovens, alegres por estar ombro a ombro, incisivos nas palavras de ordem e inflexíveis na luta contra o macrismo governante. Tampouco se economizaram epítetos dirigidos ao ex-chefe do exército Milani, a quem em grandes estandartes se tipificava como genocida.

A histórica Plaza de Mayo recebeu a todos e todas durante praticamente oito horas e se escutaram todas as vozes, primeiro a dos organismos de direitos humanos, acompanhados por organizações majoritariamente kirchneristas e, depois, uma multidão de núcleos de esquerda.

Ao final de uma jornada inesquecível, ficou a satisfação de que somos mais do que acreditamos, que se nos uníssemos acima das siglas estaríamos construindo um germe de poder popular imparável. Se pensarmos bem, é possível tentar um pouquinho. Sempre na rua como agora, com força, com garra, com alegria, sem esquecer o que nos fizeram, sem perdoar e sem nos reconciliarmos. Fugindo de todos as possibilidades e propostas de resignação. Recorrendo ao legado dos 30 mil, para demonstrar que a luta deles e delas não foi em vão.

Cabe a todas e todos nós cumprir com esse desafio.

FOTOS: Cobertura coletiva de Agencia Resistir y Luchar (Resumen Latinoamericano, Revista Venceremos, FM Riachuelo)

Uma multidão na Plaza de Mayo junto aos organismos de Direitos Humanos

Milhares e milhares de pessoas ocuparam a Plaza de Mayo, continuaram mobilizando-se pela Avenida de Mayo desde o Congresso e pelas ruas paralelas, reunidas pela palavra de ordem “São 30 mil”. Os organismos de Direitos Humanos denunciaram “a miséria planificada” pelo Governo nacional e advertiram: “Há 41 anos denunciamos o mesmo plano econômico”.

Do palco central na Plaza de Mayo, exigiram colocar fim à repressão e à perseguição sindical e política, e denunciaram que “os discursos negacionistas” dos funcionários do Governo nacional operam sobre o setor do Poder Judiciário, pondo em risco a continuidade dos julgamentos.

No documento, os organismos também renovaram o pedido de liberdade a Milagro Sala e os presos políticos da Tupac Amaru e o pedido de justiça por Luciano Arruga, Julio López e militantes das organizações sociais. Também se pronunciou um forte respaldo à luta docente pela educação pública.

“O governo tentou transferir este feriado para que seja um dia de lazer e reduzir a mobilização, porém novamente somos milhares nas ruas e praças. 24 de março é um dia no qual o povo reivindica a luta”, sentenciaram os organismos para recordar “a luta dos 30 mil”.

Os organismos lamentaram os discursos negacionistas do presidente Mauricio Macri e funcionários, como Darío Lopérfido e Juan José Gómez Centurión; e denunciaram o fechamento e o esvaziamento de vários programas destinados a impulsionar as causas jurídicas por crimes de lesa humanidade.

“Os processos são parte do povo argentino. Vamos continuar lutando por mais memória, verdade e justiça”, reivindicaram e destacaram os 750 condenados desde o reinício dos julgamentos, porém advertiram que “os discursos negacionistas operam sobre um setor do poder judiciário” e exigiram que a Corte Suprema assuma a “responsabilidade” frente às manobras ditatoriais, além da abertura dos processos por crimes de lesa humanidade prévios à ditadura e os cometidos contra combatentes das Ilhas Malvinas. Com o mesmo tom, celebraram o avanço da causa contra o ex-titular do Exército, César Milani.

A leitura do documento dos organismos começou pouco depois das 16 horas, quando milhares já tinham marchado pela Avenida de Mayo até a Plaza de Mayo, outros milhares ainda estavam fazendo o percurso, e quando as Mães e as Avós já tinham ingressado à histórica praça com a bandeira com os rostos dos 30 mil detidos-desaparecidos.

Como antecipava a palavra de ordem da convocatória, o documento foi muito crítico à gestão do Cambiemos desde as declarações negacionistas de seus funcionários até o plano econômico. “Reinstalaram um sistema econômico no qual os trabalhadores voltam a ser os prejudicados. São milhares de demitidos, enquanto tentam que regressemos aos tempos de flexibilização”, advertia o documento.

Nesse tom, se defendeu que “o plano econômico é completado pela perseguição” aos trabalhadores, sindicatos e organizações sociais, e que “os planos econômicos de fome têm como condição necessária a repressão”, a partir do qual se pronunciou um dos vários apoios às associações docentes, em meio de “um março de mobilizações”, e “à luta pelo direito ao trabalho”.

O documento enfatizou os conflitos que mantém os trabalhadores da tipografia AGR do Grupo Clarín, Textil Neuquén, Atanor e a Cooperativa do Bauen; para depois repudiar as novas ameaças da ministra de Segurança, Patricia Bullrich, de aplicar “um protocolo de repressão aos protestos sociais”. “Essa é sua resposta diante de um povo organizado”, sentenciaram e recordaram a perseguição e repressão às mulheres que participaram do Encontro Nacional de Mulheres em Rosario e da paralisação e marcha mundial do 8 de março. Em outro momento, se denunciou o “Poder Judiciario patriarcal” que revitimiza as vítimas e os “funcionários que por ação ou omissão são parte do delito”.

Cada organização, cada grupo de trabalhadores que se mencionava no documento, continuava na Avenida de Mayo com suas bandeiras, com suas reivindicações. Os trabalhadores da gráfica AGR repartiam sua revista “Viva, las luchas obreras”, La Garganta Poderosa reivindicava dezenas de esquinas aos 30 mil, vestidos de jalecos brancos; os que marchavam juntos a seu sindicato, movimento social ou organização social; cantavam, filmavam renovavam as palavras de ordem de luta.

No palco, os organismos também recordaram que “os povos originários seguem sofrendo o abandono do Estado, que responde com repressão”, após o ocorrido com a comunidade mapuche em Chubut, e destacaram que se defende “os empresários, que são os sócios e amigos de Mauricio Macri, como Joe Lewis”.

O pronunciamento dos organismos também denunciou a perseguição às organizações sociais e os casos de violência institucional, recordando o caso dos jovens militantes de La Garganta Poderosa, Iván e Ezequiel, e reclamando justiça pelo desaparecimento de Luciano Arruga, e pelo assassinato do militante do Movimento Popular La Dignidad Darío “Iki” Julián.

Ao mencionar os jovens, os organismos se pronunciaram contra a intenção do Governo nacional de impulsionar o debate de um novo regime penal juvenil com o objetivo de baixar a idade jurídica. “O Estado deve garantir os direitos, o Estado não pode atuar contra os tratados de proteção de crianças e adolescentes. Vemos funcionários mais preocupados em prender nossas crianças, que em garantir todos os direitos que lhes correspondem”, denunciaram.

Nesse momento, os organismos apresentaram as detenções arbitrárias como parte do sistema repressivo e voltaram a reclamar a Liberdade de Milagro Sala e de todos os presos polítidos da Tupac Amaru. “Presos e presas políticas do governador Gerardo Morales, do presidente Mauricio Macri e do empresário, responsável por crimes de lesa humanidade, Carlos Blaquier”, assegurou a mãe da Plaza de Mayo, Taty Almeida.

“São 30 mil. Foi genocídio”, “Todos somos netos, todos somos filhos”, “Eu sou os que faltam”, rezavam centenas de cartazes empunhados pelos milhares de participantes. “Dentro o chori, fora Macri”, eram algumas das convocatórias dos comerciantes de ocasião. Cada movimento para a praça, cada canto estava marcado nas dezenas de silhuetas de cores que a Associação de Madres de Plaza de Mayo colocou ao longo da Avenida de Mayo, emulando aquele lembrado “siluetazo” de meados da década de 80, porém desta vez a partir da “alegria” para representar “os meninos que lutam”, explicou Hebe de Bonafini.

Durante a manifestação, os organismos voltaram a reclamar o “rompimento dos pactos de silêncio dos genocidas para saber onde estão os corpos dos desaparecidos”. “Sem essa verdade, sem cada neto com sua família, a dívida da democracia continua sendo enorme”, expressaram e lembraram que este ano se cumprirão 40 anos de luta das Avós e Mães. “40 anos buscando encontros, 40 anos buscando verdades”, resumiram.

Como encerramento, lembraram os 40 anos da Carta Aberta à Junta Militar de Rodolfo Walsh, e nas palavras do jornalista desaparecido, descreveram os 15 meses de governo de Macri: “O que vocês chamam acertos são erros, aqueles que são reconhecidos como erros são crimes, e os que são omitidos são calamidades”.

Outra multidão participou do Encontro Memória, Verdade e Justiça na Praça de Mayo

A convocatória denunciou a política do macrismo. Exigem perpétua para Cesar Milani.

24 de março

O Encontro Memória, Verdade e Justiça se congregou na Praça de Mayo, onde realizou um ato em comemoração dos 41 anos do golpe genocida. A enorme coluna deste espaço político, todavia, não para de ingressar à histórica praça. A convocatória nuclea múltiplos organismos de direitos humanos, organizações política e sociais, e a esquerda.

Esta convocatória tem um caráter independente dos distintos setores políticos padrões. No documento que se leu à tarde, no ato ao fim da mobilização, afirma, entre outras coisas “estamos aqui, enfrentando o governo de Macrie sua política de ‘reconciliação’ com os genocidas, contrária à memória, à verdade e à justiça”.


Documento completo do Encontro Memória, Verdade e Justiça

O texto foi acordado por dezenas de organizações de direitos humanos, políticas, sindicais, estudantis e culturais, e lido na Praça de Mayo no marco da mobilização independente.

Sexta-feira, 24 de março de 2017

A Izquierda Diario reproduz o documento completo que na tarde de sexta-feira, dia 24, foi lido na Praça de Mayo no marco da mobilização independente de toda variante política padrão.

Companheiros e companheiras: estamos na Praça, como temos feito sistematicamente durante mais de quatro décadas, para repudiar o golpe que instalou a ditadura mais sangrenta de nossa história.

Mais que nunca, nosso compromisso é hoje com a memória rebelde, com a memória que rende homenagem a nossos 30 mil companheiros e companheiras detidas-desaparecidas, a seus sonhos de um país sem opressão nem exploração, ratificando o compromisso e a unidade na luta contra a impunidade de ontem e de hoje, e pelos direitos dos trabalhadores e do povo.

Estamos aqui, enfrentando o governo de Macri e sua política de “reconciliação” com os genocidas, contrário à memória, à verdade e à justiça.

Dizemos: NÃO À RECONCILIAÇÃO! NÃO À TEORIA DOS DOIS DEMÔNIOS!

Hoje efrentamos uma ofensiva do Governo nacional a favor da impunidade dos genocidas da ditadura. O governo de Macri está desenvolvendo uma pérfida campanha política e midiática a favor da reconciliação, negando o plano sistemático de desaparecimento de pessoas e colocando em xeque o processo de 30.000 detidos-desaparecidos.

Basta recordar as declarações do próprio Presidente quando disse “não saber” quantos foram os desaparecidos e falou de “guerra suja”, negando assim o terrorismo de Estado ou os decretos de “autogoverno” das forças armadas; o desfile do carapintada Aldo Rico e dos genocidas do “Operativo Independencia”; as entrevistas do secretário de Direitos Humanos Avruj com os grupos defensores dos repressores; os ditos de Gómez Centurión, que propõem um novo ponto final e a postulação de um reconhecido defensor de genocidas como Carlos Horacio de Casas para a Corte Interamericana de Direitos Humanos, entre outros tantos fatos.

Esta campanha do Governo é respaldada por uma campanha midiática que inclui os editoriais de La Nación traçando uma verdadeira apologia do golpe de Estado.

No Encontro Memória, Verdade e Justiça denunciamos que a negação do genocídio da ditadura visa isentar o Estado de sua responsabilidade nos crimes contra o povo.

Denunciamos que se busca envolver as Forças Armadas nas tarefas de repressão interna. Processo que teve um ponto de inflexão no ano de 2013 com a designação de Milani como Chefe do Exército durante o governo de Cristina Fernández.

Busca-se instalar a ideia de que se tratou de uma guerra, retomando o velho argumento da ditadura e restaurando a velha teoria dos dois demônios. O questionamento do número de desaparecidos é o típico argumento utilizado para negar todos os genocídios. São 30.000! Foi Genocídio.

Esse é o número que surge da quantidade de habeas corpus apresentados na Justiça, do testemunho de centenas de sobreviventes e da existência comprovada de mais de 600 campos de extermínio; inclusive um informe do Batalhão 601 da Inteligência, reportava “22.000 entre mortos e desaparecidos”.

Nenhum dos governos constitucionais abriu os arquivos da ditadura. Com isso, seria possível conhecer o destino de nossos companheiros desaparecidos e recuperar a identidade de seus filhos nascidos em cativeiro e capturados. Porém, para o Governo e os apologistas de Videla e Massera, a verdade histórica é insignificante. Só querem trânsito livre e impunidade para reprimir e fazer passar o ajuste.

CÁRCERE COMUM E EFETIVO A TODOS OS GENOCIDAS! ABERTURA DE TODOS OS ARQUIVOS! RESTITUIÇÃO DA IDENTIDADE DE TODOS OS JOVENS CAPTURADOS!

Hoje, 41 anos do golpe, repudiamos a ditadura que, a custa do sangue de nosso povo, impulsionou a entrega e o endividamento, a exploração e a fome. Repudiamos o genocídio que impôs o desaparecimento e homens, mulheres, jovens e crianças como paradigma do terror; o assassinato, o cárcere, o exílio, o sequestro, a tortura e o roubo de crianças.

O genocídio teve como objetivo aniquilar o movimento operário e popular em ascensão, que se propunha alcançar profundas transformações na Argentina. Por isto, buscou-se destruir todas as formas de organização dos trabalhadores e do povo, como corpos de delegados, centros de estudantes, organizações políticas, de bairros, profissionais, as mais diversas militâncias, que ganharam as ruas a partir do Cordobazo.

A ditadura colocou em marcha uma máquina genocida. Cada cidade importante do país contou com campos de concentração, tortura e extermínio a cargo das forças armadas e de segurança. Denunciamos, também, os crimes contra o povo que começaram a ser ensaiados antes do golpe, no Operativo Independencia de Tucumán e na ação da Triple A e demais grupos fascistas em todo o país.

Repudiamos os grupos do poder econômico, o setor financeiro, os grandes empresários, os latifundiários, que planejaram e financiaram o golpe.

Denunciamos, também, os patrões e dirigentes sindicais traidores, que entregaram corpos de delegados, como no Engenho Ledesma, Mercedes Benz, Ford; a maioria da hierarquia da Igreja que os benzeu, os juízes que os ampararam, os políticos que os apoiaram e os grandes meios de comunicação que lavaram o rosto de todos eles.

Por todos e cada um dos companheiros desaparecidos, por cada um dos ultrajes sofridos por nosso povo:

EXIGIMOS JUSTIÇA! NÃO ESQUECEMOS, NÃO PERDOAMOS, NÃO NOS RECONCILIAMOS!

O caminho iniciado com o heroísmo das mães plantadas frente à ditadura e a resistência antiditatorial de nosso povo, com as milhares de solidariedades que a sustentaram, teve continuidade nestes 41 anos de presença nas ruas onde várias gerações expressaram a vontade inquebrantável de obter punição aos genocidas. Enfrentamos, construindo memória, todas as políticas de esquecimento, de impunidade, de criminalização do protesto, da pobreza e da juventude impulsionadas pelos governos constitucionais posteriores à ditadura.

A partir do Encontro Memória, Verdade e Justiça, comprometidos com esta luta, dizemos:

SEGUIMOS LUTANDO CONTRA A IMPUNIDADE DE ONTEM E DE HOJE! NÃO À RECONCILIAÇÃO!

A mobilização sistemática das organizações populares e a rebelião de 19 e 20 de dezembro de 2001, que fez girar o governo De la Rúa e questionou a governabilidade do sistema, tornaram possível essa conquista histórica que foi a anulação das leis de impunidade de Alfonsín. Assim, se abriu a possibilidade de julgar os genocidas.

Foram as décadas de luta empreendidas por nosso povo contra a impunidade que permitiram a realização dos processos dos genocidas. Conquista extraordinária da mobilização popular e não propriedade de governo algum.

Conseguimos que se realizassem julgamentos em diferentes lugares de nosso país. No entanto, há 14 anos da anulação das leis de impunidade e há 11 anos de julgamentos orais só se conseguiu a condenação de 737 genocidas, menos da metade dos repressores processados.

Se considerarmos que existiram mais de 600 Centros Clandestinos de Detenção, ao largo e ao longo do país, as condenações alcançaram apenas a proporção de pouco mais de um genocida por campo de concentração. A realidade é que desde 2012, diminuiu o número de julgamentos por ano em todo o país, e nos últimos 4 anos quase a metade dos processos foram cortados e parciais, onde são acusados de 1 a 3 repressores por cada julgamento.

40% dos repressores com causas abertas (mais de 520) gozam do benefício da prisão domiciliar, outorgadas em sua maioria durante o governo anterior. A partir da ascensão de Macri, diferentes ministros de seu governo avalizaram a outorga da prisão domiciliar, por razões de idade, a conhecidos torturadores e responsáveis pelos mais atrozes crimes.

No ano passado, conseguimos frear a prisão domiciliar do genocida Etchecolatz, que não é investigado pelo segundo desaparecimento de Julio López. Porém, este ano, foi outorgado esse benefício a um dos mais conhecidos torturadores da ESMA: Antonio Azic.

Os sócios e cúmplices civis da ditadura – empresários, juízes, políticos – permanecem impunes. Da mesma maneira, os crimes da Triple A e de outros grupos fascistas.

Denunciamos que goza de impunidade o procurador geral de Mar del Plata, Fernández Garello, um dos responsáveis pelo sequestro, tortura e assassinato de Ana María Martínez.

Os governos de Néstor e Cristina Kirchner, não só não agilizaram os julgamentos, dispondo dos recursos políticos para fazê-los, como decidiram conviver com um poder jurídico repleto de juízes designados durante a ditadura e que atuaram uma e outra vez como garantidores da impunidade.

Denunciamos que o Estado continua ocultando os arquivos da ditadura militar. A desclassificação prometida a partir de 2014 foi uma farsa. Os documentos difundidos pelo Ministério de Defesa já eram conhecidos ou diretamente irrelevantes.

Milhares de militares, policiais juízes, promotores, membros do aparato de inteligência, que atuaram sob a ditadura continuam em suas funções. Em toda a década anterior, como com todos os governos constitucionais, o Estado não contribuiu com uma só prova contra os repressores: os julgamentos se baseiam exclusivamente no testemunho e na contribuição de sobreviventes e familiares.
Exigimos:

NÃO À PRISÃO DOMICILIAR! ABERTURA DE TODOS OS ARQUIVOS DAS FORÇAS ARMADAS, DE INTELIGÊNCIA E DA IGREJA!

O segundo desaparecimento de nosso companheiro Jorge Julio López no ano de 2006, foi encoberto pelo governo kirchnerista, que não tomou nenhuma medida para investigar a bonaerense, nem os serviços de inteligência. Há mais de 10 anos, os responsáveis políticos e materiais seguem impunes.

EXIGIMOS A APARIÇÃO COM VIDA DE JULIO LÓPEZ! CASTIGO A TODOS OS RESPONSÁVEIS POLÍTICOS E MATERIAIS POR SEU DESAPARECIMENTO!

Sob o governo anterior, se aprovaram leis “antiterroristas” para perseguir as lutas populares. Também tivemos o repressor Berni e o Projeto X de espionagem. Nomear Milani a frente do Exército, em julho de 2013, foi um salto na tentativa de reconciliação com os genocidas. No mesmo dia em que Cristina Kirchner o designou, ocorreu o Encontro Memória, Verdade e Justiça, apoiando a denúncia de familiares e vítimas, exigindo sua destituição, julgamento e punição.

Fruto da denúncia, a mobilização e o repúdio popular, hoje esse genocida está preso. Com essa autoridade, hoje dizemos:

PERPÉTUA PARA MILANI! REVOGAÇÃO DAS LEIS ANTITERRORISTAS!

Em todos estes anos, unimos as bandeiras de nossos 30 mil às lutas de hoje. Nos une a defesa do direito de lutar. Por isso, denunciamos todas as ações repressivas do governo de Macri e dos governadores.

As novas ordens de Macri para aplicar os “protocolos antipiquetes”, ratificadas pelas declarações da ministra Bullrich e acompanhadas por uma infame campanha midiática para demonizar os que lutam e para impedir violentamente os piquetes.

A permanência na prisão, há mais de um ano, de Milagro Sala, detida em um acampamento e escandalosamente condenada por um escracho ao atual governador Gerardo Morales, que persegue sistematicamente trabalhadores do açúcar, estatais e povos originários.

Os voluntários, as listas negras e os descontos com que pretendem amedrontar os docentes hoje em luta por seus salários e a ameaça de tirar a representatividade gremial de seus sindicatos.

A perseguição aos docentes, encabeçada por Vidal na Província de Buenos Aires, utilizando a Bonaerense para fazer inteligência e delação dos grevistas nas escolas.

A condenação penal e o processo de exoneração da direção do SUTEF e de 17 docentes, promovido hoje pela governadora Bertone em Tierra del Fuego.

A perseguição aos docentes, trabalhadores e cooperativistas petroleiros em Santa Cruz por parte do governo de Alicia Kirchner.

A detenção do companheiro Nelson Salazar, dirigente da CCC de Salta, com dois meses de prisão preventiva e a decisão de leva-lo à julgamento oral, assim como os 3 atentados contra instalações da CCC, na província governada por Urtubey.

A cumplicidade do governo com as demissões na AGR-Clarín e a tentativa patronal de recrutar provocadores para desalojar os trabalhadores.

O processo dos delegados do Editorial Perfil como castigo por sua greve em 2013 contra as demissões.

O veto à lei de expropriação e a ordem judicial de desalojamento contra os trabalhadores do Bauen, que autogerem o Hotel há mais de 14 anos.

A falha trabalhista que revogou a inscrição sindical dos delegados do metrô, em sintonia com a patronal, o governo e a burocracia da UTA e a tentativa de impeachment dos delegados de Sarmiento.

A ameaça de demissão de 40 trabalhadores da linha 60, por denunciar as condições de trabalho que provocaram a morte de David Ramallo.

A falha jurídica que criminaliza o canal comunitário Antena Negra TV e censura a comunicação popular.

A detenção por policiais civis de 6 companheiras feministas por uma pintura convidando para o 8 de Março, e a detenção de outras 20 companheiras, também de forma violenta, ao fim da marcha das mulheres na Praça de Mayo.

A Resolução 154 do Ministério da Defesa, que abre a porta para a espionagem interno por parte dos militares.

O equívoco jurídico na causa que criminaliza os manifestantes que apoiaram os trabalhadores de Lear.

A demissão de 350 trabalhadores na General Motors, Rosario, por parte de um patronato cúmplice da ditadura em acordo com Pignanelli, secretário geral do SMATA.

A continuidade na perseguição dos lutadores populares. Seguem abertas as velhas causas e se somam novas ante cada conflito.

A perseguição, repressão e despojo das terras dos povos originários.

A repressão e as perseguições às organizações ambientalistas, como em San Juan e Chubut.

Diante de tudo isto, dizemos:

NÃO À CRIMINALIZAÇÃO DO PROTESTO! LIBERDADE PARA MILAGRO SALA! LIBERDADE PARA TODOS OS PRESOS POLÍTICOS! ABSOLVIÇÃO DOS PETROLEIROS DE LAS HERAS CONDENADOS À PRISÃO PERPÉTUA! ENCERRAMENTO DE TODAS AS CAUSAS E ANULAÇÃO DAS CONDENAÇÕES! NÃO AOS PROTOCOLOS REPRESSIVOS!

Desde 1983 até hoje o gatilho fácil, a tortura e a morte nas prisões e delegacias tirou a vida de mais de 5.000 jovens, em sua maioria de setores humildes. Em 2016, o Estado assassinou 216 pessoas, ou seja, um crime a cada 25 horas. Enquanto deixa sem futuro os jovens, o governo criminaliza, militariza os bairros populares e pretende diminuir a maioridade penal. Por isso, dizemos:

NÃO AO GATILHO FÁCIL E À MILITARIZAÇÃO DOS BAIRROS! NÃO À DIMINUIÇÃO DA MAIORIDADE PENAL! NÃO À CRIMINALIZAÇÃO DA JUVENTUDE E DA POBREZA!

Do Encontro Memória, Verdade e Justiça denunciamos o tráfico de pessoas sob o amparo do poder político, jurídico e das forças de segurança.

EXIGIMOS O APARECIMENTO COM VIDA DE TODAS AS MULHERES DESAPARECIDAS NA DEMOCRACIA!

Ao melhor estilo Trump. Macri ditou o xenófobo DNU 70, aprovado por Pichetto e a Comissão Bicameral, que restringe a lei nacional migratória. Demoniza os imigrantes, corta seus direitos, agrava a hostilidade policiais e, inclusive, afeta as radicações já outorgadas e pretende enfrentar pobres contra pobres. Por isso, dizemos:

NÃO AO DNU CONTRA OS IMIGRANTES! EXIGIMOS DO CONGRESSO SUA IMEDIATA REVOGAÇÃO!

Reivindicamos a luta dos familiares das vítimas da tragédia de Once contra a impunidade, que conseguiram a condenação de boa parte dos funcionários e empresários responsáveis. Exigimos punição para De Vido e demais envolvidos. Exigimos:

PRISÃO EFETIVA PARA TODOS OS RESPONSÁVEIS! EM DEFESA DAS ESTRADAS DE FERRO: REESTATIZAÇÃO SOB O CONTROLE DE SEUS TRABALHADORES E DO POVO!

Rendemos homenagem aos 194 jovens mortos no massacre de Cromañón e a todas as vítimas de tragédias que são produto da corrupção estatal-empresarial.

Há 23 anos do massacre impune da AMIA, o julgamento oral AMIA 2 está terminando com os arquivos fechados, sem investigar a participação criminosa do Estado argentino e ninguém irá preso.

Para obter verdade e justiça necessitamos de uma Comissão Investigadora Independente, com pleno acesso a todos os arquivos que este governo também se nega a abrir.

No próximo dia 4 de abril se cumprem 10 anos do assassinato de Carlos Fuentealba, docente e militante.

EXIGIMOS PRISÃO PARA SOBISCH E TODOS OS RESPONSÁVEIS POLÍTICOS POR SEU ASSASSINATO!

Desta Praça, repudiamos a política de entrega e ajuste de Macri e os governadores, que descarregam a crise sobre os trabalhadores e o povo. Se o governo anterior pagou ao FMI e ao Clube de Paris e indenizou a Repsol, Macri devolveu uns 50%, pactuou com os fundos abutre, endividou ainda mais o país, eliminou os impostos às mineradoras e agroexportadoras, e protege as corporações. Além disso, criam tarifazos, inflação e a reforma da Lei de ART para precarizar ainda mais os trabalhadores.

Nestes 15 meses de Macri, ocorreram mais de 200.000 demissões, suspensões e um milhão e meio de novos pobres. Hoje, frente a 13 milhões de pessoas na pobreza e quase 3 milhões na indigência, resultam obscenos os casos dos Panamá Papers, o Correo Argentino, Avianca e outros escândalos de corrupção.

Ante cada ataque do governo se responde com mobilização e essa Praça é um exemplo mais. A resistência popular cresce. Desde a grande greve estatal de fevereiro de 2016 contra as demissões até as ocupações de Banghó, Textil Neuquén ou AGR-Clarín e dezenas de lutas por fábrica, como Cresta Roja, Mascardi, Atanor e General Motors Rosario. No mês passado, os bancários romperam o teto salarial.

E em princípios deste mês, a insatisfação popular saiu massivamente às ruas. Assim, foi em 6 de março, na greve nacional e nas grandes marchas docentes.

A mobilização de 7 de março, chamada pela CGT, convocou mais de 300.000 trabalhadores e desbancou os dirigentes, exigindo Greve nacional já!

Também em 8 de Março, no marco de uma inédita paralisação internacional, as inúmeras mobilizações em todo o país confirmaram o papel protagonista das mulheres em defesa de seus direitos. Dizemos:

BASTA DE FEMICÍDIOS! NEM UMA A MENOS! IGUAL TRABALHO, IGUAL SALÁRIO!

Desta histórica Praça de Mayo reiteramos, em especial, todo nosso apoio à luta dos docentes. Se eles ganham, ganhamos todos. E, também, a todos os trabalhadores empregados, desempregados aposentados e demais setores populares em luta.

A partir do Encontro Memória, Verdade e Justiça, damos todo nosso apoio à greve nacional ativa de 6 de abril. Exigimos:

NÃO AO AJUSTE, À ENTREGA E À REPRESSÃO DE MACRI E DOS GOVERNADORES! NÃO ÀS DEMISSÕES E TARIFAZOS! PARITÁRIAS SEM TETO! NÃO AO PAGAMENTO DA DÍVIDA EXTERNA!

Mais uma vez denunciamos a agressão imperialista aos países e povos do Oriente Médio e sua política criminosa, com a maré de refugiados que fogem das guerras e da miséria.

Repudiamos o governo fascista de Erdogan na Turquia, que aplica o terrorismo de Estado sobre o conjunto dos trabalhadores e o povo de seu país e, especialmente, sobre o povo curdo. Nos solidarizamos com o povo sírio e repudiamos o massacre de Aleppo por parte do genocida Al Assad com o apoio imperialista. Nos solidarizamos com a luta do palestino contra a agressão do Estado de Israel.

Denunciamos o massacre de 35 mulheres e meninas guatemaltecas e a feroz repressão do narcoestado no México.

Exigimos a punição dos responsáveis pelo desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa.

Nos solidarizamos com todos os povos do mundo que lutam contra a opressão e por sua autodeterminação.

Hoje, 41 anos depois do golpe genocida, permanecemos lutando. Cada conquista obtida nos dá mais força para seguir. Assim, fizemos retroceder a ditadura. Assim, rompemos a impunidade que buscaram com leis e indultos. Assim, enfrentamos um governo ajustador atrás do outro. Assim, levamos a julgamento e condenação mais de 700 repressores. Assim, recuperamos 121 netos.

Por isso, hoje estamos aqui e nas praças de todo o país.

Companheiras e companheiros:

Ante nossos 30.000 queridos detidos-desaparecidos, nos comprometemos a continuar dizendo presentes! em cada luta até conseguir que seus sonhos se tornem realidade, em uma Argentina livre da opressão e da exploração.

Nesse caminho, estivemos, estamos e estaremos a cada 24 de Março nesta Praça. Pela Memória, pela Verdade e pela Justiça. 30.000 companheiros detidos-desaparecidos, presentes! Agora e sempre!

Buenos Aires, 24 de Março de 2017

Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/2017/03/24/argentinauna-muchedumbrede-recordo-a-los-30-mil-desaparecidos-y-enjuiciaron-al-gobierno-actual-lo-que-se-dijo-en-los-dos-actos/

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Categoria