O crescimento da cultura da violência e o necessário combate ao fascismo

imagemPor Antonio Alves*

“No ar que se respira, nos gestos mais banais
Em regras, mandamentos, julgamentos, tribunais
Na vitória do mais forte, na derrota dos iguais
A violência travestida faz seu trottoir”

(A Violência Travestida Faz Seu Trottoir – Engenheiros do Hawaii)

A crise econômica crescente no Brasil e no mundo, o descontentamento político e a desorientação das massas insatisfeitas e frustradas pelo declínio político da socialdemocracia é terreno fértil para o ressurgimento de um fenômeno político catastrófico para a humanidade, o culto a violência, o ressurgimento do fascismo.

Exatamente nesse cenário, surgem figuras caricatas que vendem a ilusão de uma solução imediata, aproveitando a fragilidade das massas atingidas pelos ataques da burguesia e o fracasso da política de conciliação de classes. Esses agentes do caos apontam como culpados os conciliadores. Mas o objetivo central é neutralizar o campo classista e combativo, para fazer avançar a sua estratégia de dominação.

Na última década, com a ascensão do PT e do que algumas figuras acadêmicas classificaram como Lulismo (uma reforma gradual com um pacto conservador), deslocou a ideia de luta de classes para o campo da conciliação, gerando um entendimento de que se poderia reformar o capitalismo e neutralizar a contradição capital X trabalho.
O ciclo de crescimento do capitalismo, a expansão econômica daquele período, a possibilidade de aumento do nível de consumo de bens para trabalhadores formais e informais, foi suficiente para que a sociedade brasileira fosse levada há um retrocesso na consciência de classe. Substituindo a ideia de organização dos trabalhadores para a luta, por uma saída pela tangente da cidadania burguesa através do consumo, retirando a identidade de classe e conformando todos em grandes consumidores.

A disputa pela máquina do Estado brasileiro, sem a preocupação de romper com seu caráter conservador, levou a uma disputa política sem princípios entre as duas forças da socialdemocracia brasileira, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) que se digladiaram em todos os espaços. Realizando um verdadeiro sangramento na política institucional burguesa para provar quem seria o melhor gestor do capitalismo e barrar o agravamento da contradição dos interesses divergentes entre as classes.

O esgotamento do ciclo petista, a perseguição policial/jurídica e os sucessivos escândalos revelou como acontecia a operação política entre empresários e políticos que fortaleciam um ciclo de interesses sustentados através da corrupção. Resultando em uma crise generalizada no campo político burguês e uma sucessão de golpes políticos contra a classe trabalhadora.

A base material para o surgimento de uma cultura fascista

Com a crise política e econômica, o desemprego, aumento da violência, retirada de direitos e o apassivamento da classe trabalhadora por mais de uma década foram suficientes para o desapontamento de uma sociedade que via no consumo a sua realização, o que descambou em uma desilusão política generalizada. Os ideólogos do fascismo foram criando e fomentando a sua base material para o ressurgimento e fortalecimento das ideias retrógradas e conservadoras em toda a sociedade com a utilização das novas tecnologias da comunicação de massa.

O combate incessante contra a esquerda por ideólogos reacionários nos meios de comunicação de massa (Revista Veja, Grupo de Comunicação Globo entre outros), e nas redes sociais (Youtube, páginas no Facebook, Twitter, Whatsapp entre outras), possibilitou a organização da uniformidade do discurso reacionário. Em mais de uma década de ataques sucessivos contra toda a esquerda semanalmente. Dando um sentido de unidade ao discurso conservador e reacionário, criando uma identidade política entre esses grupos que se anima e se retroalimenta com o ódio disseminado.

A cultura da violência começa a ganhar força entre a classe trabalhadora e as camadas populares, devido ao processo de embrutecimento das relações sociais, o desgaste e a propaganda sutil nos diversos meios de comunicação que exaltam o combate violento aos problemas sociais e a tudo aquilo que possa parecer diferente do que acreditam ser o melhor, baseado em um passado distante e idealizado, longe da realidade concreta e material que rege as relações sociais.

Esse processo de construção de uma narrativa reacionária foi se consolidando gradativamente, cavando espaços na desilusão da massa que se sente desorientada e que procura uma solução imediata, fomentando a armadilha de um salvador messiânico que promete resolver tudo em um passe de mágica. Essa falsa liderança carismática é impulsionada pela paixão dos desalentados que desejam um país melhor, tentando resgatar todos os símbolos idealizados de seu passado, na reconstrução desse ideário superestimado.

Identificar o comportamento fascista e desmascará-lo

A cultura da violência fascista é sedutora e sutil. Age discretamente e vai construindo um consenso com pequenas insatisfações que vão sendo marteladas insistentemente no cotidiano, expressando uma radicalidade oca de sentido, mas que vai crescendo gradativamente a cada absurdo apresentado na forma de um terror coletivo, onde a única saída é o seu herói messiânico. É preciso aprender a identificar o comportamento dos propagadores do caos e desarticular a sua ação de propaganda.

Vários estudiosos, militantes e pessoas comprometidas com as lutas sociais já se debruçaram sobre esse tema para caracterizar o comportamento fascista. Vamos destacar algumas formas de identificar a construção desse discurso que fomenta o ódio e essa cultura de violência.

Culto ao passado idealizado: apresenta sempre um discurso de resgate de antigos valores, onde tudo era melhor, não existia essa violência e tudo era respeitado, diferente de hoje. Colocando o período histórico atual em cheque, pois tudo que é moderno é desorganizado e que não existe comando. Pois é preciso alguém de punho forte para colocar tudo em ordem.

Ação anti-intelectual e anti-cultural: Existe uma tara dos elementos fascistas contra as expressões artísticas e movimentos intelectuais, pois é necessário afastar o povo do pensamento crítico ou da arte que o leve a reflexão e questionamentos. Observe que a ação nos grupos ou redes sociais tem uma apelação imediatista que incita a distribuição daquela informação: – Não podemos deixar essa mensagem morrer! – compartilhe com o maior número de pessoas! – Compartilhe para mudar o Brasil! – São apelações comuns nas mensagens fascistas.

Perseguição aos diferentes nos diversos campos: Para os fascistas, há uma cultura de guerra e perseguição aos que pensam e agem diferente dos parâmetros morais de seus delírios. A comunidade LGBT, as feministas, os negros, os indígenas, os intelectuais, os sindicalistas e os comunistas são alvos preferenciais de seus delírios belicistas. Alimentam sempre com ódio os seus seguidores e tentam colocar nesses grupos sociais a culpa do declínio da sociedade. Mas negam uma explicação histórica ou mais complexa sobre como chegamos àquela situação e não revelam o seu apoio a tais medidas que geraram a crise.

Apelo à xenofobia e a um falso nacionalismo: A busca pela pequena burguesia que tem medo de ser proletarizada pela crise econômica, alimentando uma ilusão de saída nacionalista, joga peso nesse sentimento elitista e medo de perder seus pequenos privilégios. Acreditando que os estrangeiros considerados inferiores em aspectos econômicos e sociais são perigosos para o país. Embora balancem a calda aos estrangeiros de alguma potencia imperialista. Eis a mais ridícula expressão do fascismo e seu falso nacionalismo.

Vontade de poder apresentada com um populismo vulgar: O desejo de chegar ao poder por qualquer meio, fica evidente na construção do discurso fascista. Apontando sempre a questão da corrupção como elemento moral, mas negando que faz parte da própria lógica do sistema capitalista. Apresentando a sua solução como incorruptível e negando as contradições.

Culto às armas e à violência: O fascista tem um desejo sexual reprimido e tenta expor a sua virilidade pela força, buscando afirmar a sua masculinidade através das armas, do culto ao heroísmo e tentando apresentar que a única solução é eliminar o inimigo. Acreditando que o problema da insegurança está na eliminação física do sujeito e não das relações sociais, políticas e econômicas que criam aquela situação.

É necessário combater esse comportamento e a propaganda fascista para evitar que se enraíze em nossa sociedade. Sempre que estiver presente diante de uma propaganda de caráter fascista, questione, provoque e pergunte o porquê daquele texto ou questão, senão teria outra saída? Quem é o responsável por aquilo e se realmente a pessoa sabe do que está falando? Com essa simples atitude o fascista desistira do debate ou irá expor-se enquanto suas intenções e demonstrará a todos que não tem nada mais além do ódio a oferecer.

*Jornalista proletário
Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Categoria
Tag