“Comunistas chegam aos 90 anos com propostas semelhantes e estilos diferentes”
A matéria abaixo foi publicada no jornal Correio do Brasil. Entendemos ser oportuno divulgá-la não pelos aspectos estritamente políticos que traz; nossa intenção, portanto, é compartilhar a diferença que demarca a trajetória recente e atual entre PCB e PCdoB pela sutileza da observação do redator quanto à forma e o ambiente que caracterizaram as comemorações de ambos os partidos – e como os valores burgueses podem ser expressos mesmo nas pequenas coisas.
“Ideologia não se compra. Ideologia não se vende”.
Eliseu Alves de Oliveira, comunista centenário, presente à festa do PCB, no Rio de Janeiro.
Há exatos 90 anos, um grupo de trabalhadores – eram 73 no país todo – fundava o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Era uma sexta-feira o dia 25 de março de 1922 quando, no início da tarde, encontraram-se o jornalista Astrojildo, o gráfico Pimenta, o contador Cordeiro, o sapateiro José Elias, os dois alfaiates, Cendon e Barbosa, o vassoureiro Luís Peres, o ferroviário Hermogênio “e ainda o barbeiro Nequete, que citava Lênin a três por dois”, como o descreveu o poeta Ferreira Goulart. Estavam em Niterói para o ato que, neste domingo, foi homenageado por outro grupo de comunistas. Desta vez, porém, só uma parte deles compareceu. A outra foi dormir tarde, na véspera, por conta da festa promovida para 2 mil pessoas, na maior casa de shows do Rio de Janeiro. Ambos os grupos sabem, com clareza, que os ideais de Karl Marx e Friedrich Engels estão mais atuais do que nunca e precisam ser implementados no país, de uma vez por todas. Divididos em um cisma, desde a década de 60, as duas metades da foice e do martelo até hoje não se entenderam e os estilos de fazer política, certamente, não combinam mais.
Crédito: indymedia.org |
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Na noite que antecedeu a chegada das nove décadas de existência do partido mais longevo na história republicana brasileira, o show de Martinho da Vila e um grupo de bambas no anfiteatro construído ao lado do Museu de Arte Moderna, no Parque do Flamengo, sucedeu o ato político ao qual compareceram as mais altas autoridades do país, com a presença virtual da presidenta Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em mensagens gravadas especialmente para o público que lotava as mesas e corredores em torno do palco, ao qual subiram os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência da República) e Aldo Rebelo (Esportes), o vice-governador do Estado, Luiz Fernando Pezão, o prefeito da cidade, Eduardo Paes, e demais convidados.
Dilma, em traje vermelho e sorriso pleno, derramou elogios sobre a atuação do partido que tem “sacudido velhas estruturas por um país soberano e com justiça social”. Em seguida, Lula estendeu seu abraço à militância e à direção partidária da legenda que o ajudou a superar os momentos mais difíceis de seus dois mandatos. Foram ovacionados. Intensidade semelhante de aplausos foi equivalente apenas ao discurso, de mais de mais de uma hora, do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo.
– Os comunistas atuam com o objetivo de, no governo que participamos, dar curso, com base na frente que o sustenta, de um Projeto Nacional com esse sentido. O PCdoB, mais ainda, está empenhado em dar a sua contribuição. Neste tempo presente é primordial distinguir nova oportunidade histórica e seguir caminho próprio, de mudança estrutural, não se limitando a remediar o impasse gerado pela grande crise do capitalismo – disse Rabelo.
Ainda segundo o líder comunista, “o desfecho dependerá da convicção e da vasta mobilização do povo de caminhar no rumo de um novo salto civilizatório na história da grande nação brasileira, que na concepção programática do PCdoB é a transição para uma sociedade superior – socialismo com a cara do Brasil”.
– O PCB fez parte de um momento de cisão do movimento comunista, que repercutiu no mundo e aqui no Brasil. Ele jogou seu papel naquele começo e o partido que era maior, que era o PCB, desapareceu. Transformou-se em PPS, um partido hoje atrelado aos tucanos. O que restou é um grupo pequeno, é mais uma seita política, não é um partido político. Não tem influência no curso político brasileiro. Na realidade, o PCB, esse que era maioria, definhou e desapareceu. Para o PCdoB, como nós dissemos aí, valeu a reorganização. (O PCdoB) foi o partido que enfrentou a ditadura, foi o partido que atraiu para as suas fileiras um conjunto de revolucionários sinceros – afirmou Rabelo.

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