128 anos de Luiz Carlos Prestes!

Prestes sendo recebido em Pernambuco por Gregório Bezerra, para discutir a “Carta aos Comunistas”. Março de 1980. Foto: Roberto Arrais

Camarada Prestes, presente, hoje e sempre!

Autor: Roberto Arrais – membro do Comitê Central do PCB e Secretário Político do PCB-PE

Dito no Pacaembu (Pablo Neruda)

Em julho de 1945, Neruda lê, diante de milhares de pessoas, o poema que segue à multidão que aguardava ansiosa para ouvir o “Cavaleiro da Esperança” Luiz Carlos Prestes, libertado e anistiado após cumprir nove anos de prisão. Trecho do poema lido pelo grande poeta e comunista chileno:

“(…) Me lembro em Paris, há alguns anos, uma noite
falei à multidão, fui pedir auxílio
para a Espanha Republicana, para o povo em sua
luta.
A Espanha estava cheia de ruínas e de glória.
Os franceses ouviam o meu apelo em silêncio.
Pedi-lhes ajuda em nome de tudo o que existe
e lhes disse: Os novos heróis, os que na Espanha
lutam, morrem,
Modesto, Líster, Pasionaria, Lorca,
são filhos dos heróis da América, são irmãos
de Bolívar, de O’Higgins, de San Martín, de Prestes.
E quando disse o nome de Prestes foi como um
rumor imenso no ar da França: Paris o saudava.
Velhos operários de olhos úmidos
olhavam para o fundo do Brasil e para a Espanha.(…)”

Luiz Carlos Prestes nasceu em 03 de janeiro de 1898, em Porto Alegre e se encantou em 07 de março de 1990. Se encantou, como diz o escritor Guimarães Rosa, que dizia que as pessoas especiais não morrem, se encantam. Prestes teve uma vida atribulada, intensa em alguns momentos. Viveu encarcerado, na clandestinidade e no exílio por boa parte de sua vida. Mesmo assim, nunca falava com amargura ou desânimo diante dos problemas e desafios que a vida política revolucionária lhe impunha.

Prestes obteve o 1º lugar no curso de engenharia militar do Exército e por isso escolheu servir no Rio de Janeiro, como tenente. Mas ele sempre teve um forte sentimento de solidariedade com o outro e por isso dava aulas de alfabetização e de preparação de soldados no quartel em que atuava. Participou do Movimento Tenentista que se levantou em 1922 no Forte de Copacabana. No dia do combate, estava doente, acamado, mas mesmo assim foi transferido para o Rio Grande do Sul, quando atingiu a patente de capitão.

Ficou na cidade de Santo Ângelo-RS, onde atualmente existe um Memorial da Coluna Prestes e um Monumento à Coluna, concebido por Oscar Niemeyer. Foi em Santo Ângelo-RS que Prestes levantou o Batalhão Ferroviário e aglutinou militares de outras unidades e civis para se juntarem ao Batalhão de São Paulo, comandado pelo Major Miguel Costa. A Coluna Prestes se notabilizou como a maior marcha da humanidade, circulando por mais de vinte e cinco mil quilômetros e passando por 13 estados da federação. Na época, o Brasil era composto por vinte estados e 01 distrito federal. Essa marcha heróica marcou a história do Brasil e da Humanidade, e dela ficou a liderança marcante do grande estrategista militar, que enfrentou o exército regular, as polícias e também jagunços e cangaceiros, especialmente na região do Nordeste, a serviço dos coronéis políticos e do governo federal. Mesmo assim, a jornada da Coluna Prestes foi invicta, pois não sofreu nenhuma derrota dos generais e do governo.

Prestes, sempre solidário, vendo que não tinha mais como continuar a jornada da Coluna, levou seus companheiros para a Bolívia e lá conseguiu emprego, na construção de estradas, para toda a tropa que o seguiu. Foi então que entrou em contato com ele o PCB, através de Astrojildo Pereira, um dos nove fundadores do Partido, em março de 1922. A partir dessas conversas e dos livros levados por Astrojildo, Prestes se entusiasma a estudar o marxismo.

Prestes ainda foi para a Argentina e o Uruguai, estabelece contato com o Partido Comunista da Argentina, consegue alguns trabalhos e depois segue para a União Soviética. Lá trabalhou como engenheiro, depois levou a família e suas irmãs. Na época, por conta da epopeia da Coluna, Prestes se transforma numa grande liderança política, uma referência de bravura e o escritor Jorge Amado, quando escreve sua primeira biografia sobre Prestes, o denomina de “Cavaleiro da Esperança”.

Getúlio Vargas pede o apoio de Prestes à chamada Revolução de 1930. Prestes encaminha para ele uma proposta de programa político mais avançado, que Vargas não aceita e por isso decide persegui-lo. Em 1935, quando ocorre o levante antifascista promovido pela Aliança Nacional Libertadora, Prestes vem clandestinamente para o Brasil. Foi eleito, na assembleia da ALN, seu presidente de honra. Isso enfurece Getúlio e os fascistas que cresciam no país e no mundo. O movimento popular avança apoiando as lutas da ALN, na defesa nacionalista, no combate ao fascismo, por reforma agrária, nacionalização dos bancos e outras medidas que ganham o apoio das ruas. Getúlio decreta a ilegalidade da ALN. O PCB superestima sua força e diz que tem quadros militares e civis para apoiar o levante. Em Natal, Rio Grande do Norte, o povo se levanta e fica no poder por quatro dias. Em Pernambuco e no Rio de Janeiro, os rebeldes seguem a mesma decisão, mas os levantes são derrotados.

Prestes fica na clandestinidade, sendo caçado até ser preso junto com sua companheira, Olga Benário Prestes, que o salva de ser morto, ficando na sua frente na hora que o policial tentava o alvejar. Prestes e grande parte dos comunistas e aliancistas de outras correntes políticas são violentamente torturados, muitos mortos. Prestes sofre a sua maior tortura: a entrega de Olga, então com sete meses de gravidez, para os nazistas, conforme decisão tomada pelo presidente Getúlio Vargas e a maioria do STF, que não concedeu a ela o habeas corpus, passando por cima da Constituição. Sua filha, Anita Leocádia Prestes, nasce numa prisão alemã, e Olga é executada em um campo de extermínio em Bernburg, em fevereiro de 1942, pouco antes de completar 34 anos.

Prestes passou nove anos na prisão, saiu com a anistia em 1945 e foi ovacionado pelas multidões que o queriam conhecer. Com a conquista da legalidade pelo PCB, Prestes se elege o senador mais votado do Brasil, junto com mais quatorze camaradas, eleitos deputados constituintes. O PCB obtém 10% dos votos para o seu candidato a presidente da República, o até então desconhecido engenheiro Yedo Fiúza. A bancada comunista no Congresso Constituinte defende as pautas da classe trabalhadora e do movimento popular, o PCB cresce em todas as áreas, chegando a duzentos mil filiados e constrói a segunda maior rede de comunicação do Brasil na época. Prestes tinha sido eleito Secretário-Geral do PCB, ainda na cadeia.

Com a Guerra Fria, as burguesias no Brasil e no mundo voltam a promover políticas anticomunistas, o PCB tem seu registro cassado e todos os mandatos parlamentares dos comunistas, em nível federal, estadual e municipal, são revogados. O Partido entra na clandestinidade e suas principais lideranças são presas em processos criados pelas forças de segurança e do Estado brasileiro, com o apoio do imperialismo dos EUA.
Prestes vai para a clandestinidade, na qual fica de 1948 a 1957, comandando o Partido na sua resistência e nos chamados “subterrâneos da liberdade”. Muitos e muitas camaradas são presos/as, perseguidos/as, torturados/as e mortos/as durante esse período, que se ameniza um pouco a partir da eleição de Juscelino Kubitschek, em 1955.

Prestes volta à semilegalidade política e anda pelo país em 1958, apoiando candidaturas mais próximas do campo popular e democrático.
Com o golpe de 1964, Prestes ocupa o topo da lista das pessoas a serem presas por “subversão”. Tem início a ditadura empresarial-militar mais cruel da história do Brasil e uma das mais longas da América Latina, com o apoio explícito dos imperialistas dos Estados Unidos, que financiaram atividades, bancaram militares, parlamentares, religiosos e associações civis para derrubar o governo Jango e apoiar as ações repressivas. Nessa caça aos comunistas, socialistas, líderes populares, religiosos e democratas de diversas posições, a ditadura agiu por meio de processos discricionários, cassações, prisões, sequestros, censura, sequestros e desaparecimentos. O Comitê Central do PCB foi obrigado a agir em total clandestinidade, mas mantinha parte de sua militância nas atividades dos movimentos sociais e populares e nos espaços possíveis da atuação política e do movimento cultural.

Prestes ficou no Brasil até 1971, quando foi alertado pelo risco de queda de membros do CC e da possibilidade de a repressão chegar até ele. Foi para o exílio na URSS. Depois, Anita, que ainda ficou no Brasil atuando na clandestinidade, teve que sair por conta de quedas de membros do comitê estadual e de células que ela assistia. Em 1975, o PCB sofreu grande ataque, sendo assassinados 13 dirigentes que realizavam tarefas nacionais (1/3 do Comitê Central) e diversos/as militantes das instâncias estaduais e de base. Foram destruídas também as duas gráficas do Partido que se mantinham desde os anos 40. O CC passa a ser reorganizado fora do país, e o jornal Voz Operária chega a ser produzido no exterior e distribuído no Brasil, de forma clandestina.

Em 1979, com a Anistia, Prestes e os membros do CC que estavam no exterior retornam ao Brasil, o Partido se reorganiza de forma semilegal. Neste momento, as discussões e divergências existentes entre os dirigentes nacionais do Partido vêm à tona. Em março de 1980, Prestes escreve a “Carta aos Comunistas”, apresentando uma série de críticas e autocríticas, destacando o processo repressivo, a fragilidade da organização, o reformismo da maioria do CC com relação à leitura da realidade nacional e as necessidades da luta popular. No final, ele conclama “as bases a assumirem o comando do Partido”. Foi então substituído por Giocondo Dias na Secretaria-Geral. Gregório Bezerra e Agliberto Azevedo também saem do CC em apoio à Carta aos Comunistas e em solidariedade a Prestes.

Mesmo fora do CC, cuja Secretaria-Geral ele ocupou por quase quarenta anos de sua vida (como militante do Partido, atuou por quase cinquenta anos), Prestes continuou lutando, estudando e participando ativamente da luta revolucionária, se reunindo com comunistas do PCB e independentes, com trabalhadores, trabalhadoras e estudantes pelo país afora, defendendo suas ideias e seu legado.

Grande parte do acervo de Luiz Carlos Prestes se encontra hoje na Biblioteca da Universidade Federal de São Carlos, doado pela sua filha e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes, Anita Prestes, que guardou com muito cuidado histórico e apoio de suas tias, uma documentação extraordinária acerca da trajetória de seu pai. Ele está junto do acervo de outro brasileiro e marxista de destaque na esquerda brasileira, Florestan Fernandes, o qual, num artigo escrito um dia após o falecimento de Prestes, em 8 de março, e publicado na Folha de São Paulo, disse, entre outras coisas, o seguinte: “(…) Homem simples e franco no trato cotidiano, era um líder político e militar nato. Depois da célebre Marcha, na qual sobrepujou em argúcia e espírito inventivo as forças armadas oficiais, poderia ter se tornado um dos “grandes da República”. Getúlio Vargas tentou seduzi-lo, mas encontrou repúdio a qualquer composição política pessoal. O rebelde não se despiu de suas convicções antioligárquicas e democráticas, buscando servir à nação – e à sua independência – e submeter-se a uma vida de sacrifícios exemplares, que o enobrecem como figura humana e como agente histórico (…)”.

Luiz Carlos Prestes foi o principal dirigente do PCB em toda sua história, tendo deixado um legado de honradez, ética e compromisso com a classe trabalhadora e a revolução brasileira e no mundo. Ele se transformou numa das maiores lideranças do campo revolucionário e popular do século XX. Por isso mesmo foi tão perseguido e caçado pelos defensores do capitalismo e do seu aparelho ideológico e repressivo.

Prestes continua vivo na memória e na história da classe trabalhadora do Brasil e do mundo.

Viva Prestes!
Ontem, hoje e sempre, Presente!