Memória: Oscar Niemeyer – arquiteto comunista

imagem

Por Marcela Carvalho via Jornal O MOMENTO – PCB da Bahia

“[…]Onde a luz não inunda os quadros, onde o artifício das palavras não encontra lugar […]”

Sodré, Memórias de um escritor.

Se o campo da crítica historiográfica da arquitetura moderna brasileira vem, há muito, exercendo seu papel essencial na retomada e reconhecimento de alguns grandes nomes que apontam para o significado da arquitetura enquanto substância da história, é preciso antecipar que este significado encontra-se fundamentalmente debruçado sobre como a revelação da expressividade plástica e formal pode incidir sobre a sociedade e o seu futuro. Pensando nisso, é impossível não rememorar a dimensão simbólico-expressiva da arquitetura, assumida através de um vocabulário formal muito próprio do nosso camarada, arquiteto e comunista Oscar Niemeyer.

O marxista Nelson Werneck Sodré, em seu texto “Memórias de um escritor”, ressalta que as manifestações artísticas do Modernismo, mesmo que fincadas as raízes em seus motivos nacionais, prestam alguns serviços como “a busca pela simplicidade” na forma. Ainda que o texto do Sodré seja, em sua maioria, uma crítica ao que se conforma em torno da nossa literatura moderna no séc. XX, pensemos na simplicidade enquanto aspecto autêntico de significação bem como na disseminação de uma estrutura visual de sentido ideológico no campo da arquitetura. À medida que sua trajetória profissional amadurece sobre a prancheta, as relações projetuais estabelecidas pelo arquiteto demonstravam de forma cada vez mais contundente as formulações estéticas de um comunista: sua busca pela expressividade, a invenção plástica como determinante da criação de uma obra de arte na paisagem urbana que tratasse de um “presente generoso”, uma vontade do vir a ser frente aos escombros da democracia burguesa em seus horizontes estreitos.

À primeira linha, este primeiro traço genérico e necessário sobre o papel, é uma ação limitada na fixação de um sonho, desnudada na mediação do cumprimento da função social da arquitetura e da experiência de sua concepção controversa na realidade concreta. Encontramos nessa mesma linha não apenas a força dos croquis que eleva a expressividade plástica à mera relação formal canônica, mas a primazia de um reflexo estético que recupera através dessa forma uma autoconsciência acerca do gênero humano.

De sua retórica projetual se estabelece, portanto, uma provocação: mesmo não se tratando de uma “fotografia” da realidade, Oscar reconhece o caráter decisivo de sua intervenção. Conforme o arquiteto condensa toda carga expressiva da totalidade do projeto – o que envolve técnica construtiva, solução formal, estrutura do espaço que considera seu entorno – a configuração da linguagem de sua obra através da linha, ou seja, a pureza do traço enquanto síntese onde se reúnem essas dimensões, denuncia a arquitetura enquanto campo de possibilidade restrito obrigada a aceitar a decadência de sua missão social, sem perder de vista o fim particular imanente da arquitetura enquanto manifestação artística que funda determinada consciência estética e histórica.

Nesse sentido, Oscar apodera-se da essência do labor do arquiteto, sabendo ele mesmo que “a arquitetura não mudaria a vida, mas a vida mudaria a arquitetura”. Mesmo limitado, buscava sempre rememorar as palavras de Lênin no seu gesto criador ao compreender que “o reflexo do real na consciência não se trata de um ato simples e direto” no que diz respeito à representação sensível ou de uma certa conformação da imagem da realidade, como nos aponta Gyorgy Lukacs. Em Oscar, a arquitetura está a serviço da catarse que não dizia apenas da experiência de percorrer o espaço concebido e apreender a linguagem que estrutura o significado particular de cada obra, mas de como a operação de adentrar o cenário urbano, de conceber o espaço do lugar humano diante do elevado grau de generalidade da Modernidade, exigia associar objetivamente a qualidade estética à espantosa monumentalidade e clareza da forma. Cabe ressaltar que este caminho lhe permitiu extrapolar tanto a desordem do consumo de imagens bem como o funcionalismo exacerbado, duas condições que desmancham o sentido da arquitetura produzida no séc. XX em uma imagem da produtividade mecânica.

Para Roberto Segre¹, as acepções estéticas da arquitetura promovida por Oscar manifestada na mediação entre a expressividade da curva livre e certa imposição geométrica que se dá a partir do desenvolvimento tecnológico estrutural possibilitado na técnica do concreto armado, encontrava-se essencialmente vinculada a sua trajetória enquanto militante do Partido Comunista Brasileiro. Não podemos deixar de rememorar que a condição de sua obra no ambiente urbano, a qualidade estética que a arquitetura assume em caráter cenográfico – visto a escala de representação quase territorial das suas edificações – encontra-se fortemente marcada pela construção do espaço imagético moderno diretamente relacionado ao cinema e a literatura. Através do PCB, Oscar compartilhou junto a Rui Santos, Astrojildo Pereira, João Tinoco de Freitas e outros, experiências de produção cinematográfica, aparato pelo qual o Partido também desenvolvia crítica social e cinema engajado a partir dos anos 50/60, resultando na criação da produtora Liberdade Filmes, projeto norteado por Rui e Oscar.

Se nesse período o Partido Comunista Brasileiro ascende vertiginosamente no que diz respeito à intervenção dos comunistas frente à diversidade de manifestações abarcadas pelo campo da cultura e da arte, o arquiteto Oscar Niemeyer certamente será lembrado em sua atuação. Por fim, apontamos para a indispensável rememoração do mestre secular, seu pensamento estético na relação de homem com a operação “sensível-visual” que a arquitetura propõe com mais afinco

Notas:

¹ Roberto Segre (1934-2013) foi arquiteto, historiador e crítico marxista.