126 anos do homem feito de ferro e de flor!

Foto: Acervo de Roberto Arrais

 

Autor: Roberto Arrais – membro do Comitê Central do PCB

Gregório nasceu em Panelas-PE, no dia 13 de março de 1900. Filho de camponeses pobres, nasceu na área rural do município, localizado na Região do Agreste pernambucano, no limite de transição com a Zona da Mata Sul. Viveu ele as duas situações climáticas e de trabalho nessa região, pois no verão trabalhava na zona da mata sul, cortando cana e, nos tempos de chuva, preparava a terra e colhia milho e feijão no agreste, que em geral tinha um largo tempo de estiagem, quando não ocorriam as secas.

Começou trabalhando aos quatro anos de idade, ajudando na limpeza do terreno de sua família. Aos sete anos, ficou órfão de seus pais, morando com a avó. Aos 10 anos seguiu para o Recife com uma família de senhor de engenho da região da mata sul. Ficou trabalhando como empregado doméstico informal, dia e noite, recebendo migalhas para sobreviver. Fugiu da casa e foi morar nas ruas do Recife, dormindo embaixo das marquises e das pontes, onde o sono tomava conta do seu corpo. Nesse período trabalhou como carregador de fretes na estação de trem, vendedor de jornais, entregador de recados e mercadorias. Aos 17 anos, estava como ajudante de pedreiro e, por participar da greve geral promovida pelo movimento sindical brasileiro em defesa da jornada de 8 horas de trabalho e melhores condições de vida e salário, foi preso e cumpriu pena de mais de cinco anos.

Saindo da prisão na Casa de Detenção do Recife, seguiu para o Rio de Janeiro, se integrando ao exército, onde aprendeu a ler e escrever com 26 anos de idade. Passou no concurso para sargento, vindo a servir como instrutor de tiro ao alvo e educação física. Voltou para o Recife, depois seguiu para Fortaleza e participou da luta contra os constitucionalistas de São Paulo, em 1932. Entrou no PCB em 1930, mantendo-se em atividades do Partido junto aos militares, sem contato com militantes civis. Porém, nas atividades da ANL (Aliança Nacional Libertadora), se integrou às ações coletivas que envolviam militantes de todas as células e companheiros e companheiras de outras organizações políticas e independentes, denominados de aliancistas.

No Levante antifascista de novembro de 1935, tomou o quartel e foi lutar nas ruas, tendo sob seu controle um arsenal de armas para entregar aos camaradas e aliancistas, que não ocorreu como havia sido planejado pelo Partido. Foi preso e condenado a mais de 20 anos de prisão, cumprindo 10 anos, de 1935 a 1945, e saindo com a Anistia e redemocratização do país, após o final da 2ª Guerra Mundial. Daí se elegeu Deputado Federal Constituinte em 1945, sendo o segundo mais votado do Estado de Pernambuco e o primeiro na região metropolitana do Recife.

No seu livro de Memórias, escrito no exílio de 1969 a 1979, destaca sua participação na campanha, discorre sobre as atividades e os problemas enfrentados nos municípios, entre eles, o de Paulista. Diz ele:

“(…) O comício de encerramento da campanha eleitoral foi no município de Paulista, feudo dos Lundgren. Foi aquele um dos últimos Comitês Municipais a se organizar na grande Recife. Isso porque os Lundgren não permitiam um só comunista em sua fábrica, que possuía mais de 12 mil operários, sem contar os homens que trabalhavam em seu latifúndio. Nós comunistas, não podíamos ficar esperando que desaparecesse o ódio hidrofóbico dos Lundgren contra os comunistas para organizar o partido dentro de sua fábrica; então o fizemos discretamente, pois não queríamos que os operários mais esclarecidos e conscientes fossem demitidos. Organizamos o trabalho clandestino. Organizamos uma base num dia, outra duas semanas depois; assim, criamos um comitê de fábrica com bases do partido em todas as seções, com mais de cinquenta elementos. E resolvemos fazer o comício de encerramento da campanha na bastilha dos Lundgren. Antes fizemos uma série de comícios preparatórios nos distritos e, por fim, um diante da fábrica, à hora da saída dos operários, convidando-os ao comício de encerramento da campanha”. (Memórias Gregório Bezerra – p. 332).

Foi uma grande surpresa para os Lundgren e também, para grande parte da população, que até então desconhecia o processo de organização do PCB, que tinha conquistado a legalidade naquele ano e contava com grandes líderes nacionais como Luiz Carlos Prestes, Jorge Amado, Agildo Barata e o pernambucano, Gregório Bezerra, dentre outros. Mesmo sendo legalizado, sofria muitas restrições por parte da direita e da extrema-direita, na qual se localizava a família Lundgren, que segundo se afirmava, tinha afinidades com os nazistas e, aqui no Brasil, com seus representantes, os integralistas.

Mesmo com a redemocratização do país, a legalização do PCB e todo clima de liberdade que tomava conta do Brasil, os sentimentos nazifascistas ainda eram fortes, até por conta da aliança destes com a maioria da Igreja católica, que tinha muita influência na sociedade e na classe operária de então. E os Lundgren tinham agentes de segurança e de controle sobre os operários, que fiscalizavam na hora de contratar, para que não tivessem envolvimento com os sindicatos e muito menos com os comunistas. Por isso, o trabalho clandestino e cuidadoso do Partido foi fundamental para a construção e criação do Comitê Municipal do PCB de Paulista, que foi um dos últimos a se organizar na região metropolitana do Recife.

Gregório fala sobre o comício: “(…) Iniciamos o comício precedido de imensa foguetaria. Praça superlotada, enorme entusiasmo do povo. Ao se anunciar o nome do velho operário José da Silva, que trabalhava na fábrica havia mais de vinte anos e era secretário político do comitê de empresa, a massa operária vibrou durante vários minutos. Esse operário, filho de operários, abriu o comício apresentando-nos ao povo de Paulista; a massa delirava. (…)”. (Memórias Gregório Bezerra, p. 326 e 327).

No seu discurso, Gregório fez um paralelo entre os interesses do patrão e dos explorados, a classe operária, trazendo a visão marxista para a realidade vivida pelos operários e operárias que trabalhavam nessas fábricas:

“(…) E agora, permitam-me que aborde um problema local, que diz respeito ao operariado desta fábrica, aos camponeses deste município e ao povo em geral. Trata-se do homem mais poderoso deste município, que se diz humanista. Até mesmo alguns operários inexperientes, explorados, menos esclarecidos, caem no seu engodo. Troquemos em miúdos o humanismo do senhor Lundgren, citemos apenas alguns exemplos de seu ‘humanismo’. O senhor Lundgren, como todo capitalista e industrial, compra suas gigantescas máquinas e paga ao operário para limpá-las e lubrificá-las. O senhor Lundgren tem esse zelo por sua maquinaria porque lhe custou muito capital e, se não for cuidadosamente tratada, ela enferruja e morre, isto é, não produzirá mais nada. Tudo isso é correto, estamos de pleno acordo com esse senhor. O que censuramos no senhor Lundgren é não ter ele o mesmo zelo com a máquina humana, que é o operário, mais sensível do que a máquina metálica, sujeito a um constante desgaste físico devido às impurezas que absorve e à falta de alimentação adequada, capaz de restituir-lhe as energias que consome durante as horas de trabalho. E porque o operário não recupera as energias gastas no trabalho? Porque o salário que recebe pela venda de sua força de trabalho é pouquíssimo, não dá para alimentar-se como deveria, levando-o à debilidade física, à morte prematura. O senhor Lundgren sabe disso, mas sabe que a máquina humana não lhe custou dinheiro e quando enferruja ou morre, há centenas de outras para substituí-la e estas não lhe custam nada. Podem enferrujar ou morrer aos milhares, que ele terá outras tantas para substituí-las. Daí o carinho que tem o capitalista pela máquina mecânica, que lhe custou capital, e o total desprezo pela máquina humana, que fabrica, monta e que movimenta a máquina metálica. E onde está então o humanismo do senhor Lundgren? Respondeu a massa – Nos infernos! – Nos cofres! – responderam outras vozes (…)”. (Memórias Gregório Bezerra, p. 333 e 334).

“(…) Ao falar em Prestes, a massa irrompeu em aplausos. Foi um comício dos mais entusiásticos que realizamos; nos rendeu mais de 3 mil votos para a legenda do PCB, ou seja, mais votos do que os votos de todos os candidatos reunidos. Um fato que devemos ressaltar foi a venda de 3 mil exemplares da Folha do Povo no comício. Muita gente a comprava pagando o dobro do preço. Era a colaboração de todos para nos ajudar a eleger os nossos candidatos e a construir um poderoso partido. Inegavelmente, éramos o partido mais querido das massas populares e que lhes inspirava mais confiança, apesar dos ataques da reação, das suas calúnias e insultos (…)”. (Memórias Gregório Bezerra, p. 334).

Gregório, junto com seus 13 camaradas deputados e o senador mais bem votado do Brasil, Luiz Carlos Prestes, foram cassados, junto com dezenas de outras e outros parlamentares estaduais e vereadores e vereadoras, por conta da cassação do registro do PCB pelo Superior Tribunal Eleitoral, numa manobra golpista das elites brasileiras e dos militares, subjugados pela vontade dos imperialistas estadunidenses, que por conta da Guerra Fria pós-Segunda Guerra, começaram a perseguir os comunistas pelo mundo. Os capitalistas começaram a dar guarida aos nazifascistas que sobreviveram após esse embate entre as nações, ampliando as ações anticomunistas.

Gregório foi acusado de ter incendiado um quartel em João Pessoa, mesmo estando no Rio de Janeiro. Era mais um processo falsificado para prendê-lo, depois da sua cassação. Após a desmoralização do processo, Gregório que fez uma forte defesa de seus princípios e acusou os verdadeiros incendiários do quartel, sendo libertado, mas ficando sob a jura de vingança dos militares acusados por ele. Tentam criar motivos para assassiná-lo, mas Gregório consegue se safar. Quando saiu do presídio, foi direto para a clandestinidade e para fora do estado, indo para Goiás, Paraná, Santa Catarina e região, com outra identidade, para continuar a luta do povo e do Partido.

No Paraná, na cidade de Cascavel, ele foi chamado por um camponês, que lhe disse:

“(…) Eu conheço você, Gregório. Fui operário da fábrica de fiação e tecelagem de Paulista. Em 1945, votei em Prestes para o senado e em você para deputado federal. Depois fui expulso da fábrica e acabei vindo bater com os costados aqui por estas bandas. Aqui tenho prosperado: colhi boas safras, possuo algumas vaquinhas e um mangueiro de porcos. Conte comigo, farei tudo para ajudar meus irmãos posseiros e o partido. Esse companheiro de fato, nos prestou depois boa ajuda (…)”. (Memórias Gregório Bezerra, p. 466).

Pelo Planalto central e pelo interior dos estados do Sudeste, Gregório ajudou a fazer campanhas das Ligas Camponesas e Ligas pela Paz e contra a Guerra na Coréia. Foi detido algumas vezes, foi ferido, conseguiu sobreviver. Voltou à legalidade após ser preso no interior de Pernambuco, em 1957, ser conduzido à prisão e logo depois de ouvi-lo foi liberado, pois não havia processos, nem acusações sobre suas atividades nos últimos anos. Participou ativamente na coordenação da campanha de Cid Sampaio para governador de Pernambuco, em 1958, e de Miguel Arraes para prefeito do Recife, em 1959.

Nos anos 60, Gregório estava na organização dos sindicatos de trabalhadores rurais de Pernambuco, especialmente na Zona da Mata e algumas cidades do agreste. Jogou-se no campo para organizar os sindicatos e o Partido. Na campanha de Miguel Arraes para governador em 1962, ele teve papel fundamental na coordenação, viajando pelos canaviais fazendo campanha, organizando os sindicatos e o PCB. Tinha como seu companheiro um velho jipe que não parava um instante, era no mundo.

Veio o golpe de 1964 para barrar as forças democráticas e populares que, junto com o governo federal e de boa parte dos estados, estavam alinhados com a maioria da população defendendo as reformas de base. Logo que soube do golpe, Gregório pegou seu jipe e foi para os sindicatos de trabalhadores rurais, para desmobilizá-los, porque ele tinha pedido armas ao governador, para enfrentar o possível golpe que se avizinhava, mas Dr. Arraes dizia não acreditar nessa possibilidade e não encaminhou nada nesse sentido. Gregório, vendo Arraes sendo preso, correu pelos sindicatos e convenceu os trabalhadores a não virem ao Recife para enfrentar os militares, pois eles queriam vir com enxadas e estrovengas se solidarizar e defender o governo que eles tinham escolhido. Nesse processo ele foi detido pelo exército e encaminhado para o Recife.

Lá no Quartel de Motomecanização localizado na Avenida 17 de Agosto, em Casa Forte, ele foi espancado barbaramente sob o comando do coronel Viloq. Foram atos de violência de todo tipo: queimaram seus pés com solução de bateria, fizeram-no andar por britas, que iam entrando nos seus pés, espancaram com cano de ferro sua cabeça e seu corpo inteiro. Gregório tinha, naquele momento, 64 anos de idade. Não satisfeitos com aquela violência bestial, colocaram 3 cordas no pescoço dele e saíram puxando-o pelas ruas de Casa Forte, levando-o para a Praça da Casa Forte, onde pretendiam enforcá-lo. Assim relata Gregório em suas memórias:

“(…) Linchem esse bandido! É um monstro! É um incendiário! Queria fazer a revolução comunista a serviço de Moscou! Queria entregar o Brasil à Rússia Soviética! Tinha um plano para incendiar o bairro da Casa Forte e matar todas as crianças queimadas! Venham, batam até ele morrer! (…) Ninguém o aplaudiu. Ninguém o atendeu. Enfurecido, o coronel espumava pelos cantos da boca. Concentrava a raiva contra mim. (…) Eu tinha muito sangue coagulado no pescoço, dando a impressão de que tinha sido semidegolado. (…) nessas alturas, eu já não sentia mais dor. Tinha vontade de beber água, vontade de vomitar. Não enxergava mais nada, pois a vista tinha escurecido. (…) Fui salvo pelo clamor público (…)” (Memórias de Gregório Bezerra, p.534 e 535).

Graças aos apelos populares, das freiras e da opinião pública que reprovava aquela insanidade e brutalidade, o comandante do IV Exército mandou suspender a sessão de tortura pública, e mandou recolher Gregório para o Forte das Cinco Pontas. Depois foi transferido para a Casa de Detenção do Recife, hoje Casa da Cultura de Pernambuco. Gregório foi condenado a 19 anos de prisão, num julgamento de cartas marcadas, por acusações montadas e pré-determinadas. Mesmo assim, em 1969, ele foi trocado com outros presos políticos pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, numa ação realizada por forças de esquerda que lutavam contra a ditadura militar.

Daí ele foi para o México, Cuba e decidiu cumprir o seu asilo político na União Soviética. Voltou do exílio após a anistia em 1979. Estava como membro do Comitê Central do PCB, já que nos anos de 1975 um terço do CC foi sequestrado e assassinado pela ditadura, sob a responsabilidade do general Ernesto Geisel. Por isso, os que escaparam foram para o exílio e outros que lá estavam foram cooptados para a direção central do Partido.

Gregório é um exemplo para as atuais e futuras gerações, pela sua seriedade, idealismo, ética, compromisso com a classe trabalhadora do campo e da cidade, pela sua coragem e entrega humanista de sua vida à luta coletiva contra a fome, a pobreza, a exploração, as desigualdades e, mais do que isso, lutava com seu coração carregado de ternura pela igualdade, pela liberdade e pelo socialismo, como sistema capaz de tornar todas as pessoas iguais em seu direito ao usufruto das riquezas produzidas, no respeito e na convivência harmoniosa com a natureza e todos os seres de vida, para que a vida seja partilha de paz e felicidade para todos.

Gregório Bezerra, hoje e sempre, Presente!

“(…) Mas existe nesta terra / muito homem de valor / que é bravo, sem matar gente / mas não teme matador,/ que gosta de sua gente/ e luta a seu favor,/ como Gregório Bezerra,/ Feito de Ferro e de Flor (…)”. (Memórias Gregório Bezerra, p. 628).