Quando os trabalhadores de Niterói perderam a paciência

A Revolta das Barcas de 22 de maio de 1959
Por Lucas Corrêa, secretário de movimentos populares do PCB-RJ
O dia 22 de maio de 1959 deve ser recuperado pela classe trabalhadora como uma data memorável: o dia em que as trabalhadoras e trabalhadores de Niterói perderam a paciência! Após esse dia, depois de anos do monopólio corrupto e ineficiente do transporte aquaviário pelo grupo privado Carreteiro, as barcas foram encampadas pelo Estado, voltando a ser um serviço público estatal. Para entender o que levou esses trabalhadores a perderem a paciência e a forma que eles agiram quando isso aconteceu, é necessário entender um pouco mais sobre Niterói e o partido da classe trabalhadora fundado nesta cidade, o PCB.
O Congresso de fundação do PCB foi iniciado no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 25 de março de 1922, no Sindicato dos Alfaiates e Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Por questões de segurança, entretanto, o Congresso seria finalizado, com a fundação do Partido em Niterói, no dia 27 de março, na rua Visconde do Rio Branco 651, onde se localizava, então, a casa de parentes do jornalista e dirigente comunista Astrojildo Pereira.
A escolha de Niterói para a continuidade do Congresso, entretanto, não se deveu a um acaso. Astrojildo cita a existência de um Grupo Comunista de Niterói, entre os 6 representados em sua fundação: Porto Alegre, Recife, São Paulo, Cruzeiro, Rio de Janeiro e Niterói – havia ainda os grupos comunistas de Santos e Juiz de Fora, que não conseguiram enviar delegados (Pereira, 2022, pp. 61 e 62).
Além disso, a cidade apresentava um movimento operário forte e dinâmico, com significativas demonstrações de força como a da Greve da Cantareira de 1918, mobilizando a importante categoria dos trabalhadores do transporte aquaviário. A greve dos marítimos da Companhia Cantareira, que atravessava diariamente a Baía de Guanabara, levando milhares de trabalhadores, começou no dia 2 de agosto, principalmente com a luta pela diminuição da jornada de trabalho e aumento salarial.
A tentativa de repressão fortaleceu a greve, que recebeu adesão dos trabalhadores da Fábrica de Tecidos do Barreto, dos trabalhadores dos bondes e da Estrada de Ferro da Leopoldina. Em 7 de agosto, a reação à violência do estado em defesa dos patrões, transformou um comício dos grevistas em uma batalha campal na Praça da Cantareira. Naquele momento, alguns soldados do exército do 58º Batalhão de Caçadores também se uniram aos trabalhadores. No dia 11 de agosto, após dias de lutas, com mortos e feridos de ambos os lados, os marítimos conseguiram uma importante vitória: 15% de aumento e revogação da punição aos grevistas (Machado, 2018).
Após a fundação do PCB, Niterói se consolidou como um território de lutas e organização da classe trabalhadora. Em seu breve período de legalidade, nas eleições de 1945, os comunistas demonstraram grande inserção entre os trabalhadores: se nacionalmente o candidato do Partidão à Presidência da República teria 10% dos votos, em Niterói, Yedo Fiuza chegaria aos 22%. Nestas mesmas eleições, o candidato à Deputado Federal mais votado de Niterói, assim como na cidade de São Gonçalo, seria o operário e dirigente do PCB, Claudino José da Silva (Amaral, 2023, pp.196,197).
Nos anos 1950, apesar do retorno forçado à clandestinidade e da cassação de seus parlamentares, o PCB manteve importantes trabalhos sindicais e populares. Na cidade de Niterói, os Centros Pró-Melhoramentos e os Comitês Populares Democráticos se espalhavam pela cidade, organizados e influenciados pelos militantes do PCB e trabalhadores do seu entorno. Bairros e regiões como o Barreto, Morro do Estado, Vila Ipiranga, Engenhoca, Morro do Cavalão, Fonseca, Sapê, entre outros, contavam com essas organizações, que ampliavam os trabalhos das células do partido. A Associação Feminina Fluminense (AFF), também organizada por militantes do PCB e com presença de comunistas como Maria Felizberta Trindade, organizou em 1949, a 1a Convenção Feminina Pró-Paz e Contra a Carestia do estado do Rio (Amaral, 2023).
Entre 27 e 29 de Maio de 1950 houve a I Conferência Sindical Fluminense, no Teatro Municipal de Niterói, reunindo cerca de 450 pessoas. A Conferência reconstituiu a União Geral dos Trabalhadores Fluminenses (UGTF), com direção de militantes do partido, como Claudino José da Silva e Jaime Augusto Teixeira (Amaral, 2023).
Dentro desse contexto, o principal acontecimento que precede a Revolta das Barcas de 1959 e demonstra a força e organização dos trabalhadores de Niterói, em especial dos marítimos, foi a Greve Geral dos Marítimos de 1953. Antes da greve, um ato marcou a força das bases e o avanço político dos trabalhadores: a substituição dos pelegos na direção do Sindicato dos Operários Navais do Rio de Janeiro (SONRJ) pelo comunistas, liderados pelo marítimo Irineu José de Souza, levado por uma multidão até o sindicato, para garantir sua posse.
A greve, deflagrada em 16 de junho de 1953, teve a adesão de dezenas de milhares de trabalhadores de todo país e de todas as categorias dos marítimos, dos oficiais náuticos aos operários navais (Amaral, 2023, p.241). Com duração de cerca de 10 dias, a greve arrancou vitórias importantes para os marítimos, e deu exemplos de organização. O Jornal Voz Operária, em duas edições acompanhou e saudou a greve. A edição 215 de 1953, relata um caso em que um fura-greve é expulso do navio pela multidão de apoiadores, com o título: “Ativa solidariedade: o povo arranca um fura-greve de dentro de um navio em Niterói” (Voz Operária, 1953).
Apenas compreendendo esse contexto de grande organização, de trabalho sindical e popular, de presença constante no dia a dia dos trabalhadores de Niterói, nas fábricas, nos estaleiros, nos bairros, durante décadas, é possível entender as movimentações espontâneas de revolta popular em 22 de maio de 1959. Em 1959, cerca de 100 mil pessoas realizavam diariamente a travessia entre Niterói, capital do estado, e o Rio de Janeiro, distrito federal. Aproximadamente “45% da população ocupada de Niterói fazia uso dos serviços de travessia” (Nunes, 2000, p.29). Esses serviços eram monopolizados pelo grupo Carreteiro.
Durante toda a década de 1950, em especial nos anos e meses que se precederam a Revolta, as reclamações dos trabalhadores usuários dos serviços, dos trabalhadores marítimos e até de parlamentares e do governo do estado se acumulavam. O serviço de travessia era extremamente perigoso, tendo muitos acidentes com vítimas fatais; o preço da passagem era caro e tinha aumentos regulares; as filas de passageiros eram quilométricas e os atrasos frequentes; a empresa não pagava todos os direitos aos trabalhadores, mesmo recebendo altas subvenções do estado para garantir estes pagamentos; por esses motivos, as greves eram frequentes e os trabalhadores estavam constantemente mobilizados.
Na noite de 21 de maio, os trabalhadores reunidos deflagraram a greve exigindo o pagamento dos salários atrasados. Na manhã de 22 de maio, a guarda e organização dos passageiros da Estação Cantareira era composta por 18 fuzileiros navais e a travessia estava sendo realizada por duas lanchas da Marinha, que não conseguiam dar escoamento àquela multidão de trabalhadores que precisavam chegar aos seus trabalhos.
Os atrasos foram aumentando, assim como a irritação dos trabalhadores nas longas filas e a violência dos militares que tentavam conter a população. Coronhadas, empurrões e, por fim, uma rajada de metralhadora foi disparada pelos fuzileiros navais. Os protestos se intensificaram, a população fez recuar os militares e incendiou a estação das barcas. Com a estação incendiada, milhares de pessoas foram em direção aos escritórios comerciais do grupo Carreteiro, destruindo e incendiando tudo. Após isso, a população se dirigiu para as mansões da família Carreteiro, que foram igualmente destruídas: “Pianos, quadros, caixas de uísque, colares e jóias, camas, colchões, roupas íntimas de mulheres, tudo foi atirado pelas janelas e sacadas das residências” (Nunes, 2000, pp. 83,84). Foram feitas grandes fogueiras para queimar os bens dos Carreteiros. Na parede de uma das mansões destruídas o povo escreveu: “Aqui jazem as fortunas do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo”.
A Revolta durou o dia inteiro e, no dia seguinte, o serviço de travessia das barcas foi estatizado, representando uma vitória popular, assim como dos trabalhadores marítimos que defendiam a bandeira da estatização havia anos. O jornal do PCB, Novos Rumos estampou na sua capa a manchete: A LIÇÃO DE NITERÓI. Segundo o jornal, os acontecimentos de Niterói:
“revelam, antes de tudo, que o povo já não aceita resignadamente os sacrifícios desumanos que lhe querem impor as classes dominantes e o governo que as representa. O povo brasileiro atingiu um grau de consciência política que não se coaduna com a condição de rebanho conformado e passivo […] o povo já não está disposto a esperar das autoridades solução para os problemas. Cansou-se de clamar sem resultado. Esgotou sua tolerância diante da alta insuportável do custo de vida, do descalabro dos serviços públicos. […] O povo já não aceita viver como antes. E se os que detêm o poder não cedem à vontade popular, a revolta surda que explode em protestos esporádicos pode converter-se em revolta aberta e organizada, esmagadora e irreprimível. (NOVOS RUMOS n.14, 1953).
A Revolta foi vitoriosa, assustando os empresários e seus representantes nos governos estadual e federal, assim como no parlamento e na imprensa. A Revolta foi espontânea, mas o espontâneo tem história, tem processo, é resultado de acúmulos produzidos antes da faísca se transformar em incêndio incontrolável. A população de Niterói sabia quem eram seus inimigos, não culparam os trabalhadores em greve, seus iguais. A solidariedade de classe estava treinada, a consciência de classe fortalecida. A derrota dos pelegos nos sindicatos, o crescimento das greves não apenas em número, mas em organização e capacidade de diálogo com a população, a presença dos Centros Pró-Melhoramentos e dos Comitês Populares Democráticos, a Associação Feminina Fluminense, o PCB com células em todos os bairros operários e populares, com os comunistas lutando todas as lutas imediatas ao lado da população. Assim, quando os trabalhadores perderam a paciência em Niterói, eles sabiam contra quem a sua ira deveria se abater.
Hoje, assim como em 1959, o custo de vida tem revoltado a população. Quase metade da população de Niterói está endividada, com um número de inadimplentes que chega a 236.990 pessoas! O desemprego, o subemprego e o emprego informal apresentam números alarmantes em nossa cidade, com 32,7% dos jovens de Niterói desempregados. A desindustrialização, especialmente no setor naval, e a falta de uma política de empregos, transforma cada vez mais Niterói em uma cidade dormitório, vítima da especulação imobiliária. Enquanto isso a população em situação de rua cresce, cada vez mais desassistida e vulnerável.
Cresce também a luta, com as pautas pela diminuição da escala de trabalho, contra a escala 6×1, mas também pelas 30 horas semanais sem redução de salário, assim como a luta por tarifa zero e pela criação de uma empresa pública de mobilidade urbana. Outras lutas antigas precisam ser fortalecidas, como o retorno das barcas da madrugada e a construção da estação de barcas de São Gonçalo. A luta de classes continua, é preciso ampliar e organizar os trabalho de base, o trabalho com a juventude, com os sindicatos e movimentos populares, para que quando novas revoltas vierem, os trabalhadores se lembrem de 22 de maio de 1959, saibam quem são seus inimigos e conquistem suas vitórias.
REFERÊNCIAS
A SEGUIR NITERÓI. Morador de Niterói tem mais dívidas que a média dos devedores do Rio e do Brasil https://aseguirniteroi.com.br/noticias/morador-de-niteroi-tem-mais-dividas-que-a-media-dos-devedores-do-rio-e-do-brasil/
AMARAL, Luciana Pucu Wollmann do. Niterói Operária: Trabalhadores (as), política e lutas sociais (1942-1964). Rio de Janeiro, APERJ, 2023.
MACHADO, A. F. da C. M. As batalhas da Cantareira:a luta dos marítimos em Niterói (1918-1928). Revista Espaço Acadêmico, 18(210), 50-62. https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/44720
NOVOS RUMOS. A LIÇÃO DE NITERÓI. JORNAL NOVOS RUMOS n.14, 1959. https://www.marxists.org/portugues/tematica/jornais/novos/pdf/per122831_1959_00014.pdf
NUNES, E. A Revolta das Barcas. Rio de Janeiro, Garamond, 2000.
PEREIRA, Astrojildo. Formação do PCB: 1922/1928: notas e documentos. São Paulo, Boitempo, 2022.
WOLLMANN, Luciana Pucu; CORRÊA, Lucas. LMT#106: Rua Visconde do Rio Branco 651, Niterói (RJ) https://lehmt.org/lmt106-rua-visconde-do-rio-branco-651-niteroi-rj-luciana-pucu-wollmann-e-lucas-correa/
VOZ OPERÁRIA. JORNAL VOZ OPERÁRIA n.215, 1953.
Clique para acessar o per154512_1953_00215.pdf
