Candidatura Bernie Sanders: um novo caminho ou a manipulação da luta de classes?

imagemPor Samara Marino

Em 17 de outubro de 2014, a presidente do Federal Reserve, Janet Yellen alertou para o crescimento da desigualdade econômica nos Estados Unidos. Em seu discurso de 30 minutos, ela pintou um quadro sombrio da distribuição cada vez mais desigual de riqueza e renda, advertindo que os norte-americanos já tinham chances relativamente pequenas de progredir economicamente. Para ela o que está em questão é a relação entre a vida real e os valores de igualdade de oportunidades que os estadunidenses tanto acreditam.

Yellen estava preocupada com o desenrolar da crise econômica americana que não conseguiu se resolver a contento, deixando no ano de 2014 cerca de 6% de desempregados, hoje sendo de 4,9%. Este índice é baixo se comparado aos países da América Latina, mas, mostra em que pé se está a crise norte-americana.

É estranho, é verdade, que iniciar um texto apontando a preocupação da presidente do FED no aumento da desigualdade no território americano e mostrar que um índice de 5% de taxa de desemprego seja uma amostra da crise econômica nos EUA.

Quando falamos em crise econômica, falamos em crise de superprodução, quer dizer, que, para ganhar da concorrência, todas as empresas produzem muitas mercadorias, com o intuito de diminuir seu valor unitário e poder chegar na frente das outras. Isso faz com que se acumulem muitas mercadorias de todas as espécies que não realizam a mais valia produzida, ou seja, não finaliza o movimento de valorização do valor. Podemos ver tal situação, percebendo a diminuição da compra de carros (pátios cheios), poucas transações de venda de casas, apartamentos e outros bens duráveis. Coisa que podemos identificar nos EUA nos anos de 2008, 2009 e 2014 e 2015.

Ainda com a preocupação de Yellen sobre o aumento da desigualdade, vemos uma reportagem, no jornal O Globo, de 22 de novembro de 2015, com o seguinte texto:

O Censo americano mostrou que, em 2014, uma em cada cinco crianças dos Estados Unidos era pobre. Quatro estados (Novo México, Mississipi, Louisiana e o Distrito de Columbia, onde está a capital, Washington) também têm ao menos 20% de sua população abaixo da linha da pobreza. A exclusão social e o aumento da desigualdade cria problemas como tensão racial —o percentual de negros pobres é muito maior que o de brancos — e violência, em um país que nunca teve tantos milionários e cuja economia cresce mais de 3% ao ano.

Sabemos que de 2008 para 2016, a relação entre a dívida pública americana e o PIB passou de 0,60% para 1,1%, o que aponta para uma deflação geral, além do aumento também da dívida das camadas mais pobres da população norte-americana. Em 2015, foram contabilizados 10 anos em que o índice da população norte-americana considerada pobre é de 15%. São 46,7 milhões de pessoas afetadas por algo que a maioria de nós acreditava não existir no país. Então temos 3 vezes mais pobres que o índice de desemprego americano.

Além disso, na mesma reportagem, Steven N. Durlauf, professor de economia da Universidade de Wisconsin informou que muitos pobres estão completamente dissociados da economia americana. Para ele a pobreza moderna americana é uma espécie de armadilha. As crianças pobres não conseguem desenvolver habilidades, não têm acesso à educação de qualidade, o que as impede de sair da pobreza, perpetuando o problema através das gerações.

Outros especialistas afirmaram também que a desigualdade está na pauta do dia nos EUA e com certeza é tema fundamental nas eleições presidenciais deste ano de 2016. Segundo um deles, a pobreza levantou uma “agenda latino-americana” para o país. Afinal, a forte desigualdade dos Estados Unidos hoje em dia auxilia no aumento da radicalização e da polarização eleitoral.

É neste cenário que a candidatura de Sanders aparece. Mas, ela não é a primeira candidatura “independente” ou dissidente no Partido Democrata, que já se mostrou bastante receptivo a vários “líderes” de movimentos de massa que não iniciam sua militância ligados ao monopartidarismo bicéfalo estadunidense. O Partido Democrata especializou-se em receber em suas fileiras tais independentes, principalmente quando, em momentos de crise, tanto os movimentos de massa quanto a opinião pública expressam hostilidade aos dois partidos e sua fachada de democracia.

James Petras, em janeiro deste ano, relembrou algumas das candidaturas dissidentes em seu artigo para o diário.info.

Jesse Jackson – 1984 e 1988

Líder ativista no movimento dos direitos civis, ajudou a organizar dezenas de milhares de afro- americanos. Lutou contra Ronald Reagan e sua política de desmonte aos sindicatos dos trabalhadores, principalmente de controladores aéreos. Além de ser opositor ao apartheid na África do Sul, e contra o aumento de despesas militares no governo Reagan.

Candidatou-se às primárias do Partido Democrata em 1984, fazendo discurso sobre a justiça social, aumento de salário mínimo, plano nacional único de saúde e transferência de fundos públicos do Pentágono para os programas sociais. Seu acordo com os líderes democratas consistiria em competir com os políticos tradicionais, mas submeter-se imediatamente à liderança caso perdesse a nomeação. Ganhou 18% de votos nas primárias e cumpriu o acordo. O vencedor, Walter Mondale, perdeu para a reeleição de Reagan.

Em 1988, com o mesmo discurso, Jesse Jackson conseguiu juntar para sua candidatura às prévias, sindicalistas, progressistas, movimentos negros e pacifistas. Recebeu então 29% dos votos e novamente cumpriu o acordo feito com os líderes do partido, fazendo campanha para Michael Dukakis, que perdeu para George Bush pai. Todos aqueles que participaram ativamente desta candidatura independente se desmobilizaram logo em seguida.

– Dennis Kucinich – 2004 – 2008

Dennis Kucinich apareceu exatamente no momento em que vários descontentes começaram a se manifestar depois das inconsequências políticas de Bill Clinton e da forma violenta de guerrear de George W. Bush. Kucinich foi uma versão moderna e branca de Jesse Jackson, reciclando inclusive suas plataformas de governo e slogans, além de apelar para a destituição de Bush por ter mentido sobre as armas de destruição em massa no Iraque. Ainda criticou os democratas que, no Congresso, apoiaram a invasão ao Iraque e discursou sobre a retirada das tropas americanas do Oriente Médio.

Mesmo conseguindo reunir eleitores independentes e contribuidores à campanha do Partido Democrata, perdeu as primárias para John Kerry, o militarista e defensor do ato patriótico que justificou os desmandos em Guantánamo, realizados por George W. Bush.

Tal como com Jesse Jackson, sua candidatura desmobilizou os movimentos de massa anti-Bush que aconteciam no período. Além de desmobilizar também aqueles que eram favoráveis ao programa do Serviço Nacional de Saúde de Ordenante Único.

Kucinich tentou novamente em 2008, mas não conseguiu reunir seu eleitorado, sendo somente a sombra de uma candidatura dissidente dentro do Partido Democrata, pois seria substituído por alguém muito mais simpático e envolvente.

Diferente de seus antecessores, agora veremos um exemplo de candidatura dissidente que deu certo.

– Barack Obama – 2008

Barack Obama também concorre as primárias do Partido Democrata em 2008. Com discurso progressista, prometeu acabar com a guerra no Iraque, fazer regressar as tropas do Afeganistão, fechar a prisão de na Baía de Guantánamo, desenvolver um plano nacional de saúde e regular a desenfreada especulação da Wall Street.

Diferente de seus antecessores, esta candidatura dissidente teve o apoio dos líderes do Partido Democrata, ou os figurões de Wall Street que bancam o grosso das campanhas. Eles rapidamente entenderam que o carisma de homem negro e progressista de Chicago seria muito mais bem aceito à Casa Branca, do que sua adversária Hillary Clinton, desgastada, não com a traição, mas sim com a gestão de seu marido, que foi desastrosa e levou um George Bush Junior muito forte ao cargo. A primeira campanha de Obama contra John McCain foi entoada sob o slogan, não só nos EUA, mas, em todo mundo, afinal “SIM, NÓS PODÍAMOS”!

Depois de eleito, com 53% do colégio eleitoral em 2008 e 51% em 2012, contra Mitt Romney, Obama destinou um bilhão de dólares para resgatar bancos e empresas de Wall Street, enquanto dois milhões de trabalhadores estadunidenses se afundavam com dívidas e execuções das hipotecas. Ao invés de acabar com as guerras no Afeganistão e no Iraque, aumentou-as e ainda abriu novos fronts na Líbia, na Síria e no Iémen.

Com Obama, houve o aumento de assassinados de negros pela polícia, clinicas de aborto foram bombardeadas e seus prestadores de serviço assassinados. E por fim, mais de 92% dos trabalhadores do setor privado americano encontravam-se desorganizados e passando dificuldades face ao declínio do seu nível de vida.

São então 8 anos de governo democrata de Barack Obama, e nos últimos tempos, relembremos o que vem acontecendo no país:

  • aumento da desigualdade social,
  • diminuição dos salários reais,
  • aprovação de legislação repressiva,
  • redução de dois terços na filiação sindical,
  • aumento da desigualdade entre raças,
  • resgate dos bancos e da Wall Street com um bilhão de dólares,
  • execução de hipotecas contra milhões de proprietários,
  • incontáveis abusos à “estado policial” pelas polícias locais e federais,
  • desregulação do sistema financeiro e
  • fechamento de postos de trabalho industriais e de serviços.

Nesse cenário vê-se o aumento das lutas fora da institucionalidade, principalmente com o crescimento do Black Lives Matter, movimento negro horizontalizado e radicalizado por conta do aumento da violência racial, principalmente vindo dos policiais. Estudantes endividados, lutando pela diminuição de tais dívidas para continuar os estudos. Trabalhadores lutando para aumentar o valor do salário mínimo.

E de repente aparece Bernie Sanders que apela diretamente aos interesses de classe dos trabalhadores assalariados. Mas, ao que parece, a “questão de classe”, ou o que podemos chamar de acirramento da luta de classes nos EUA, não se refletem na polarização eleitoral que vemos, principalmente se levarmos em consideração as duas candidaturas que estão arrancando os cabelos dos dirigentes do monopartidarismo bicéfalo, Trump nos Republicanos e Sanders nos Democratas.

Mas de onde surgiu Sanders? James Petras aponta que seu movimento eleitoral não é resultado de movimentos de massa existentes ou em curso, ao contrário. Em certa medida sua candidatura preenche um vácuo político resultante da desmobilização da população em geral, que já não mais acredita em seus representantes sindicais, não conseguem se ver representados nas táticas de “ação direta” dos movimentos negros e do famoso Occupy. Sanders agrega em sua candidatura centenas de milhares de micro lutas sociais, espalhadas por todo o território norte-americano e permite que estas lutas expressem a insatisfação com a política econômica, o sofrimento com o acirramento da desigualdade social, sem o risco da perda de emprego, ou da repressão policial. Outro setor que se mobiliza com a campanha eleitoral de Sanders são os estudantes, que estão entusiasmados com seu programa de educação superior gratuita e com o fim da dívida após a formatura.

Não podemos negar que o movimento eleitoral de Sanders levanta questões fundamentais de desigualdade de classe e de injustiça racial no sistema legal, policial e econômico. Ele destaca (ou denuncia) a natureza oligárquica do sistema político, mesmo se utilizando dele para fazer isso. Podemos chegar aqui a uma conclusão importante vendo este movimento histórico: a própria força do movimento eleitoral tem uma fraqueza estratégica, ela se aglutina para eleições e se dissolvem após a votação.

Prova disso é que Sanders e seus correligionários já acordaram com a direção do Partido Democrata que aceitarão o resultado das primarias e participarão como cabos eleitorais da candidata vencedora. E se estamos falando no dia de hoje, sabemos que os super delegados democratas irão indicar Hillary Clinton como candidata a presidente, contra o fascismo teatralizado de Donald Trump que vem ganhando cada vez mais nas primárias dos republicanos.

Referências:

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160121_sanders_rp

http://www.cartacapital.com.br/revista/858/bote-fe-novelhinho-5440.html

http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/bernie-sanders-e-o-caminho-para-uma-esquerda-autentica

http://oglobo.globo.com/economia/nos-estados-unidos-recuperacao-da-economia-nao-alivia-pobreza-18110311

http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/20141018-44195-nac-39-eng-b12-not

PETRAS, James. Eleições presidenciais de 2016 nos EUA: A revolta das massas. 2 de março de 2016.

Eleições presidenciais de 2016 nos EUA: A revolta das massas

PETRAS, James. Primárias do Partido Democrático: os “progressistas” como preservativos políticos. 11 de janeiro de 2016. http://pcb.org.br/portal2/10238

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