A crise na Ucrânia e o declínio do imperialismo estadunidense

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Por Edmilson Costa

Os marxistas costumam avaliar a realidade pelos seus veios mais profundos porque compreendem que a aparência dos fenômenos nem sempre corresponde à essência dos acontecimentos. Buscar compreender a realidade a partir da superfície dos eventos geralmente leva a erros crassos de avaliação. Por isso, é fundamental sempre observar o que se esconde por trás dos fatos, mesmo aqueles mais complexos. Esse método de compreensão da conjuntura é um instrumento fértil para clarear a percepção do teatro de operações, dos atores em ação, dos rumos da conjuntura, bem como para identificar os inimigos e as principais contradições em qualquer situação nacional e internacional, além de evitar as análises superficiais que possam levar a resultados desastrosos. Essas considerações são importantes porque se encaixam como uma luva à atual crise na Ucrânia e suas repercussões na geopolítica mundial, pois a guerra naquela região pode ser considerada a expressão concentrada de um conjunto de fenômenos que estão ocorrendo nos subterrâneos da ordem politica e econômica internacional e cujos desdobramentos terão repercussão por largo período na conjuntura internacional.

Quais são os fenômenos que efetivamente estão por trás dessa crise? Primeiro, a crise é a expressão do desespero do imperialismo estadunidense diante da crise sistêmica global, cujos fundamentos demonstraram as fissuras sociais e econômicas dos Estados Unidos e o declínio de sua hegemonia; segundo, representa o assombro norte-americano diante da parceria entre a Rússia e a China, cuja expressão mais recente foi o comunicado conjunto dos dois países buscando articular uma nova ordem multipolar global; terceiro, significa também a tentativa dos Estados Unidos de inviabilizar o gasoduto NordStream2, que ampliaria expressivamente o fornecimento de gás da Rússia para a Alemanha e vários países da Europa, propiciando aumento das relações comerciais entre Rússia e Europa e reduzindo a influência dos EUA na região. Consequentemente, os Estados Unidos visam, com a crise, conquistar esse grande mercado energético; quarto, essa crise também expressa uma disputa pela partilha do mundo, em novos termos, das burguesias dos diversos países imperialistas com a burguesia da Rússia. Portanto, a operação militar especial desencadeada pelos russos na Ucrânia é a expressão dessas contradições na geopolítica internacional.

Uma boa pista para entender os meandros da crise na Ucrânia pode também ser expressa em três movimentos que se articulam e que podem resultar em desdobramentos até agora não perceptíveis na conjuntura: a) a guerra na Ucrânia marca o começo do fim da ordem estruturada em Bretton Woods e aprofundada a partir da queda do Muro de Berlim e da desintegração da URSS e cujo resultado foi a hegemonia mundial solitária dos Estados Unidos; b) haverá um descolamento cada vez mais progressivo da hegemonia mundial do Atlântico para a Ásia-Pacífico, tendo a China e a Rússia como eixos estratégicos da nova ordem, por unirem o poder militar e energético russo e o poder econômico chinês; c) o declínio da hegemonia dos Estados Unidos vai torná-lo mais agressivo, o que pode levar ao acirramento das tensões internacionais e possivelmente a guerras em várias partes do mundo, fenômenos próprios dos processos de mudança de hegemonia na ordem econômica internacional, conforme nos ensina a história; d) há a possibilidade de que nessa crise possa emergir janelas de oportunidades para os trabalhadores colocarem em questão o sistema capitalista e, caso sejam orientados de maneira correta, se apresentarem como alternativa à velha ordem mundial.

Portanto, a guerra na Ucrânia é resultado desse conjunto de fenômenos e seu resultado pode determinar os rumos de uma nova ordem internacional porque, de um lado, a derrota das pretensões dos Estados Unidos de transformar a Ucrânia numa plataforma para completar o cerco e colocar a Rússia de joelhos fracassou completamente e demonstrou que a retórica e a ação guerreira do imperialismo é brutal quando enfrenta nações militarmente frágeis, mas se torna pouco eficaz quando encontra adversário à altura em termos de poder militar. A fragilidade da velha ordem hegemônica se expressa no fato de que a operação militar da Rússia na Ucrânia encontrou pouca resistência militar interna (1) e, externamente, apenas lamentos agressivos e sanções econômicas por parte do Ocidente. Como disse o próprio presidente da Ucrânia, o País foi abandonado pelos Estados Unidos, pela OTAN e pelas outras potências imperialistas da Europa. Zelensky fez o papel de bobo da corte: acreditou inicialmente nas promessas de Biden e da direita europeia e se transformou num provocador subserviente, ao enfatizar que a Ucrânia iria se incorporar à OTAN e que o País também viria a construir armas nucleares, o que para os russos significara uma provocação inaceitável. Terminou falando sozinho e aceitando as condições impostas pela realidade da guerra.

A crise dentro da crise

Como enfatizamos anteriormente, os elementos mais de fundo da crise precisam ser observados atentamente para compreendermos melhor essa conjuntura. Primeiro, o sistema capitalista e, especialmente, a economia líder, sofreram uma das maiores crises econômicas e sociais em 2008 e esse problema continua até hoje sem que nenhum País ligado aos Estados Unidos tenha conseguido se recuperar plenamente e retomar o crescimento, tanto que até agora nenhuma dessas nações conseguiu sequer voltar ao patamar anterior a 2008. Mesmo que os Bancos Centrais tenham injetado trilhões de dólares nas economias para salvar bancos e empresas em crise, essas medidas apenas evitaram temporariamente o colapso do sistema, mas não resolveram os problemas colocados pela crise. No entanto, quando esses países começavam a comemorar algum tipo de recuperação econômica veio a pandemia, levando a recessão ao mundo inteiro e agravando os problemas gerados pela crise anterior, especialmente nos Estados Unidos, cujos efeitos tornaram públicos todas as mazelas do sistema capitalista, escondidas por décadas pelos meios de comunicação corporativos. Agora, a economia norte-americana volta a enfrentar novos problemas como a maior inflação dos últimos 40 anos, a profunda desigualdade social, a quebra de empresas, a possibilidade da emergência de um novo crash e o enfraquecimento do dólar como moeda internacional.

O segundo elemento que explica a movimentação dos Estados Unidos e da OTAN na Ucrânia, é a crescente aproximação entre a Rússia com a China. Esse processo já vinha sendo verificado em período anterior à crise, mas se tornou mais efetivo com a recente reunião de cúpula em fevereiro deste ano entre Putin e Xi Jiping, que resultou numa declaração conjunta onde os dois líderes se comprometeram com a construção de uma nova ordem econômica internacional. Trata-se de um documento histórico que pode ser considerado uma nova carta de princípios para um mundo multipolar. Endereçada a todos os países, os dois dirigentes defendem um projeto de desenvolvimento global, sustentável, baseado na cooperação entre todos os povos, o direito das nações decidirem sobre seus próprios destinos, além da firme proposta de que a ordem internacional seja baseada em leis e não na força. O documento assume também que as nações tenham o direito à liberdade, a justiça, a igualdade, aos direitos humanos e aos valores democráticos, enfatizando que não existe nenhum povo escolhido que possa impor seus modelos de organização política aos outros (numa referência explícita aos EUA) e que o sistema internacional não é monopólio de nenhum país, especialmente após as mudanças econômicas que estão ocorrendo na conjuntura internacional (2).

A terceira questão que apavora os EUA se refere à construção do gasoduto NordStrean2, que foi realizado numa parceria entre empresas russas e alemãs. Esse gasoduto viria proporcionar autonomia energética à Alemanha e aumentaria de maneira expressiva as relações comerciais entre os dois países e o restante da Europa. Não se pode esquecer que a União Europeia obtém mais de 30% do gás utilizado na região através da Rússia, um mercado cobiçado pelas empresas norte-americanas. Para os Estados Unidos, que concebem o continente europeu como uma espécie de colônia política dos seus interesses, o NordStrean2 reduziria expressivamente a influência norte-americana na Alemanha e na região e impediria as empresas de energia dos Estados Unidos de fornecerem gás para esse grande mercado. Isso é tão verdade que, num de seus pronunciamentos desesperados, Biden chegou a aventar a possibilidade de destruir o gasoduto. Outro elemento a ser observado é o fato de que o NordStrean2 faria com que a entrega de gás para Europa não passasse mais pelo território da Ucrânia, como ocorre atualmente, o que também daria à Rússia mais autonomia no que se refere às exportações para a Europa. Num momento de crise econômica, observar a Europa estreitar os laços econômicos com a Rússia é inaceitável para os EUA, o que explica as tramas norte-americanas para fomentar a guerra na Ucrânia, porque os jogos de guerra podem coesionar novamente o velho bloco europeu com os Estados Unidos e colocar as multinacionais do petróleo ianques (Exxon, Mobil) na disputa do mercado europeu, muito embora com o gás a um preço cerca de 40% mais caro que o russo (3).

O quarto elemento desse processo se refere ao declínio da hegemonia dos Estados Unidos, tanto do ponto de vista econômico quanto político e monetário, e à tentativa de recuperar o seu domínio tanto pelas sanções contra concorrentes quanto pela fabricação de guerras. Se observarmos hoje o poder dos Estados Unidos poderemos ver que, à exceção da questão militar, há um declínio em todas as áreas. Hoje, a dinâmica industrial do planeta não é mais da economia líder do Ocidente: a China se transformou pelo menos nas últimas décadas na oficina do mundo, sendo líder inconteste do comércio mundial e em breve deve superar, em termos de PIB, a economia dos Estados Unidos. Já é maior no que se refere à paridade do poder de compra, uma medida alternativa à taxa de câmbio para aferir o poder de compra real de uma economia. Do ponto de vista político, mesmo que a influência dos Estados Unidos ainda seja muito grande, especialmente junto aos europeus, os EUA já não mandam no mundo como mandavam no período imediatamente posterior à queda da URSS. Do ponto de vista monetário, o dólar também já não tem mais o domínio que tinha no passado, não só pela emergência do euro, mas também pelo poder de outras moedas, como o yuan chinês. Essa crise atual pode levar a um declínio ainda maior da moeda dos Estados Unidos, principalmente se as sanções tiverem o efeito bumerangue, o que é muito provável.

Por último, esse conjunto de fenômenos tem impactado fortemente os líderes dos Estados Unidos e explica o desespero do imperialismo para retomar a hegemonia que lhe está fugindo entre os dedos, principalmente porque suas intervenções militares e provocações em vários países têm sido um rotundo fracasso, como no Afeganistão e na Síria e agora na Ucrânia. Mesmo levando em conta essas derrotas parciais, não se pode ter ilusões: os Estados Unidos tendem a se tornar mais agressivos à medida que vai perdendo a hegemonia e suas iniciativas não conseguem obter os resultados esperados. Nenhum império assistiu pacificamente seu declínio. Portanto, teremos um período de grave tensão internacional, com a possibilidade de novas guerras e invasões de países que não se dobram às exigências imperialistas, provocações com a China a partir de Taiwan e outras regiões. No entanto, ha também a possibilidade de levantes sociais, especialmente nos países centrais e nos Estados Unidos, uma vez que a crise mundial do capitalismo agrava a situação dos trabalhadores e abre janelas de oportunidade para que possam intervir de maneira independente na conjuntura social e política, tanto em função do enfraquecimento do império quanto pelas dramáticas condições de vida que veem enfrentando nas últimas quatro décadas de destruição neoliberal dos direitos, salários e garantias, do saque ao fundo público e do assalto às empresas estatais.

A dupla moral do imperialismo

Antes de entrarmos na análise factual da guerra na Ucrânia, é importante abordamos outro aspecto importante dessa crise, que é a dupla moral do imperialismo. Estados Unidos e União Europeia nesse momento fazem enorme propaganda em relação à soberania nacional, aos direitos humanos, ao direito das nações se associarem a quem bem entendam e protestam contra a invasão do território ucraniano. Falam em paz mas têm as mãos sujas de sangue. Esquecem esses agora paladinos da liberdade e dos direitos humanos que na década de 90 a OTAN bombardeou por 78 dias, (sem permissão do Conselho de Segurança da ONU, a quem hoje eles recorrem hipocritamente), a Iugoslávia, um país da Europa, destruindo sua infraestrutura civil, bombardeando prédios civis e matando centenas de pessoas, inclusive dezenas de crianças, até mesmo a embaixada da China foi bombardeada, onde morreram três pessoas. Nesses mais de dois meses de ataque brutal a OTAN lançou 2.300 mísseis e 14 mil bombas sobre o território iugoslavo, inclusive na capital Belgrado. Além disso, foram lançadas ainda entre 10 e 15 toneladas de urânio empobrecido que envenenou a água e provocou um desastre ambiental e a multiplicação de casos de doenças oncológicas (4). Depois, desmembraram a Iugoslávia em vários Estados fantoches, muitos incorporados à OTAN e ponta de lança dos imperialistas na região. Posteriormente, prenderam o presidente da Sérvia, Slobodan Milosevich, e o mataram envenenado numa cela da prisão do Tribunal Penal Internacional.

Essas almas bondosas da civilização ocidental e cristã, que agora derramam lágrimas de crocodilo em relação à Ucrânia, não hesitaram em destruir o Iraque porque esse País tinha petróleo e não se dobrava aos interesses dos Estados Unidos. Organizaram uma invasão ao País sob o pretexto de que Saddam Hussein estava estocando armas de destruição em massa, o que depois se comprovou que era uma grande mentira e pura propaganda da CIA para justificar a invasão. Num brutal ataque que eles mesmos denominaram de “choque e pavor” destruíram toda a infraestrutura militar e civil do País, arrasaram a maioria das cidades e deixaram a população sem água e eletricidade. As forças de ocupação impuseram um governo dirigido pessoalmente pelos próprios norte-americanos, que reprimiu violentamente a população. Nessa guerra, mais de um milhão de iraquianos foram mortos, seu exército foi dissolvido e o próprio presidente, Saddam Hussein, foi capturado e depois enforcado. Como em todas as guerras imperialistas, as empresas petroleiras norte-americanas passaram a controlar a prospecção e venda do petróleo iraquiano, uma vez que esse País era um dos maiores produtores do mundo.

Os paladinos dos direitos humanos também se esquecem que os Estados Unidos e a OTAN, sob o pretexto de defender os direitos humanos e proteger populações perseguidas pelo governo, invadiram a Líbia, um País que na época tinha o maior Índice de Desenvolvimento Humano da África. Também destruíram as principais cidades do País, mataram dezenas de milhares de pessoas e as milícias armadas e treinadas pela CIA assassinaram com empalação o líder líbio, Muhamar Kadafi. Essa invasão provocou uma catástrofe humanitária, com o êxodo milhares de refugiados buscando refúgio nos países da região e da Europa. A destruição e a desorganização da sociedade foram tamanhas que a Líbia se tornou um mercado de escravos na região e até hoje o País vive uma guerra civil violenta. Como o Iraque, a Líbia também era um dos grandes produtores de petróleo da região, sob o controle do Estado. Agora, com a mesma prática de rapina anterior, as principais empresas petroleiras dos Estados Unidos e da Europa detém o controle do petróleo líbio.

Os indignados defensores da soberania nacional não hesitaram em treinar e armar os fundamentalistas medievais do Ísis (Estado Islâmico) e articular essas gangues para invadir a Síria e barbarizar a população civil, com cenas de assassinatos que ainda hoje chocam a opinião pública internacional, como queimar vivo um piloto sírio capturado por essa milícia islâmica. Com apoio da aviação dos Estados Unidos e armados pela CIA, esses milicianos ocuparam várias áreas do país e cometeram as maiores atrocidades contra a população civil, inclusive com a destruição de monumentos históricos milenares na cidade de Palmira. Essa invasão também resultou numa catástrofe migratória de milhões de sírios ainda hoje sem solução. A entrada em cena da aviação russa em apoio às tropas do exército sírio mudou o curso da guerra e os terroristas do Isis foram derrotados nas principais cidades, mas ainda têm controle de algumas áreas, especialmente naquelas ocupadas pelos Estados Unidos onde ainda têm bases militares. Mais uma vez os EUA se apossaram de poços de petróleo da Síria e financiam as agressões com o roubo e a venda dessa matéria-prima do País.

As almas piedosas norte-americanas e europeias fazem vista grossa quando rotineiramente Israel, que funciona como gendarme do imperialismo estadunidense na região, lança mísseis contra a Síria, muito deles matando civis e destruindo áreas residenciais. O pretexto é que o Estado judeu está atuando preventivamente contra milícias iranianas presentes em solo sírio em apoio ao governo. Esquecem que diariamente Israel massacra o povo palestino e recentemente, no último conflito, bombardeou várias áreas povoadas da região de Gaza matando centenas de civis. Nenhuma dessas almas piedosas diz algo sobre isso, afinal as vítimas não são brancos de olhos azuis. Essas pessoas também colocam uma venda nos olhos para não verem o bombardeio que a Arábia Saudita faz diariamente contra a população do Yêmen, destruindo bairros inteiros e matando a população civil. Também têm amnesia em relação aos 20 anos de ocupação do Afeganistão, onde foram assassinados 120 mil pessoas pelos por bombardeios dos Estados Unidos, e esquecem ainda os constantes bombardeios da população da Somália. Todas essas ações criminosas são realizadas como se fossem um problema rotineiro de segunda ordem e não produzem manchetes nos jornais e na televisão como a atual crise na Ucrânia.

A dupla moral do imperialismo se torna ainda mais clara se recuarmos um pouco mais no tempo e observarmos uma crise internacional semelhante a que está agora acontecendo na Ucrânia. A maior parte das gerações atuais não tem conhecimento, mas na década de 60 do século passado a União Soviética colocou uma série de mísseis em Cuba como forma de se contrapor aos mísseis colocados pelos Estados Unidos Turquia, próximo à sua fronteira. Quando os Estados Unidos descobriram a instalação dos mísseis em Cuba criaram a maior crise mundial do pós-guerra com ameaça de conflito nuclear. A crise só terminou quando a URSS decidiu retirar os mísseis de Cuba em troca da retirada dos mísseis da OTAN da Turquia e do compromisso de que os Estados Unidos não invadiriam Cuba como fizeram em Playa Girón. Deve-se relembrar que os Estados Unidos mantêm um bloqueio criminoso há mais de 60 anos contra Cuba, sem que a ilha tenha invadido qualquer País. Justificam esse crime porque Cuba é socialista e não se dobra aos Estados Unidos. Agora, com muita sem cerimônia, os Estados Unidos e a União Europeia defendem que a Ucrânia, que faz fronteira de 1.200 quilômetros com a Rússia, possa fazer parte da OTAN e ainda instalar mísseis e produzir armas atômicas nas portas de Moscou. Qual a moral que tem os dirigentes ocidentais para se fantasiar de defensores da soberania nacional e dos direitos humanos dos povos depois de tudo que descrevemos?

Outra variável importante desse conflito internacional e da dupla moral do imperialismo é o papel que a mídia corporativa cumpre em apoio aos interesses dos Estados Unidos. Quem lê os jornais ou assiste a televisão e tem um mínimo de informação em relação à crise na Ucrânia pode constatar que existem duas guerras: uma paralela, na mídia, e outra no campo de batalha. Da mesma forma que a OTAN é o braço armado do imperialismo, a mídia corporativa internacional é a central de propaganda dos interesses dos Estados Unidos e da União Europeia. O noticiário é todo manipulado e os comentaristas e entrevistados parecem uma confraria de miquinhos amestrados verbalizando fake news diariamente, como se as palavras e imagens forjadas na televisão pudessem mudar o curso da guerra no teatro de operações. Revelam um padrão de comunicação onde não existe espaço para o contraditório, ou melhor, só existe espaço para os press releases da CIA e do Departamento de Estado. No entanto, essa cobertura demonstra uma certa impotência e desespero diante da realidade da guerra. Essa mídia funciona mais como torcida organizada do que como órgãos de informação. É necessário a construção urgente de canais alternativos de caráter mundial para se contrapor a esses terroristas da informação.

Uma crise fabricada pelo imperialismo e a OTAN

A partir dessas considerações é que podemos afirmar que a crise da Ucrânia foi fabricada conscientemente pelos Estados Unidos para favorecer seus interesses estratégicos, com o objetivo de transformar, com sua política guerreira, o espaço ucraniano num instrumento para completar o cerco à Rússia, que já vinha sendo realizado desde a segunda metade da década de 90 com a incorporação de 14 Estados do antigo bloco socialista à OTAN. O objetivo dos Estados Unidos com esses movimentos é claro: recolocar a Europa na área de influência norte-americana, pois o início das operações do NordStrean2 poderia enfraquecer sua atuação no continente; enfraquecer as relações comerciais da Rússia com a Europa; sabotar a parceria estratégica Rússia-China e Eurásia; e alimentar o complexo industrial militar norte-americano que precisa permanentemente de guerras para produzir e vender armas para o resto do mundo. Em outras palavras, os Estados Unidos utilizam a OTAN como braço armado para garantir pela força os interesses do imperialismo no mundo, como controlar as rotas de navegação, o comércio de petróleo e gás e os interesses financeiros de seus monopólios; e subjugar pela força os países que busquem exercer a soberania nacional. Trata-se de uma organização anacrônica que não tem mais sentido existir desde a desintegração da URSS.

Vale lembrar que no período da União Soviética havia uma paridade militar entre EUA e URSS, cada bloco com seu braço armado – a URSS com o Pacto de Varsóvia e os EUA com a OTAN. No entanto, com a queda da União Soviética, o imperialismo se aproveitou desse fracasso para agir mais abertamente no sentido de construir uma ordem internacional com sua hegemonia absoluta, na qual nenhum País deveria ter espaço para aspirar uma política que contrariasse seus interesses. Quem ousasse manter qualquer tipo de independência deveria pagar um alto preço, mesmo aqueles que tenham restaurado recentemente o capitalismo, como a Rússia e outros. Isso explica as provocações, revoluções coloridas e várias tentativas de criar movimentos separatistas na Rússia, como ocorreu na Chechênia. O objetivo é fazer na Rússia o que conseguiram na Iugoslávia. Recentemente também patrocinaram levantes no Azerbaijão, Bielorússia e articulam permanentemente setores independentistas em Taiwan e revoltas separatistas em várias regiões da China. Em outras palavras querem transformar esses grandes Estados, que mantém uma política independente em relação a Washington, num conjunto de republiquetas fantoches, integradas à OTAN e subordinadas aos interesses imperialistas estadunidenses. Mesmo que os planos para a Rússia e para a China até agora tenham fracassado, os imperialistas estão aumentando suas apostas, com a intensificação das provocações e sabotagens, porque sabem que o êxito da China e da Rússia é perigoso para seu domínio.

Com relação mais específica à questão da Ucrânia é importante enfatizar que, por ocasião da desintegração da URSS, os Estados Unidos assumiram o compromisso de que a OTAN não seria expandida para os antigos países que formaram o campo socialista, compromisso que também assumido pela Alemanha, França e outros países. “Nem uma polegada para o Leste”, prometeram. A Rússia retirou suas tropas da Alemanha e dos países do Leste europeu, mas os norte-americanos não cumpriram nenhum dos acordos e, pelo contrário, estenderam a OTAN para o antigo campo socialista. Até então não existiam condições políticas para a incorporação da Ucrânia à OTAN, porque o governo de Victor Yanukovitch buscava implementar um equilíbrio entre o Ocidente e Moscou. Mas em 2013, na esteira das revoluções coloridas, uma decisão do governo de desistir de se unir à União Europeia levou à realização de movimentos de protestos pela derrubada de Yanukovitch. Esses movimentos, estimulados e financiados pelas ONGs ocidentais e orientados por assessores da inteligência dos Estados Unidos, rapidamente foram hegemonizados pelos grupos mais organizados da extrema-direita e por paramilitares nazistas, treinados e armados pelos Estados Unidos. Após violentos conflitos a partir da praça Maidan, onde esses esquadrões fascistas tiveram um papel determinante, o governo Yanukovith, legitimamente eleito, foi derrubado e em seu lugar assumiu um governo abertamente neofascista.

Parta entendermos o golpe que derrubou Yanukovith, é importante avaliarmos o papel dos Estados Unidos. Uma conversa entre a subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, e o embaixador norte-americano na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, que vazou para a imprensa, reflete bem a trama para derrubar o governo de Yanokovith e as articulações para colocar os fantoches de Washington no governo após o golpe. A secretária Nuland diz claramente ao embaixador que Arseniy Yatsenyuk (um banqueiro de direita) era a pessoa que deveria assumir o governo “porque é o cara que tem mais experiência econômica”. Adivinhem quem assumiu como primeiro-ministro após o golpe: o próprio Yatsenyuk. A ministra das finanças após o golpe era uma diplomata dos Estados Unidos, que foi obrigada a se naturalizar ucraniana para assumir o cargo. Quando o embaixador informou a Nuland que os europeus tinham preocupação em relação ao que está acontecendo na Ucrânia, principalmente a derrubada de um governo legitimamente eleito, a secretária não se faz de rogada: “Nós gastamos U$ 5 bilhões na Ucrânia nesses 20 anos. Foda-se a Europa”. Os gastos a que se refere a secretária Nuland foi o treinamento dos grupos nazistas pelos instrutores dos Estados Unidos e da CIA e que depois seriam as gangues que na prática assumiram o controle das manifestações, espancaram e mataram vários manifestantes da oposição, se tornaram a ponta de lança nos ataques selvagens às repúblicas de Lugansk e Donesk, nos quais morreram cerca de 14 mil pessoas. Como recompensa, esses esquadrões fascistas foram incorporados às forças militares ucranianas e, agora, cercados pelo exército russo, barbarizaram a população do Leste e a utilizaram como escudo para tentar em vão escapar ao cerco militar russo.

As primeiras medidas desse novo governo foram colocar na ilegalidade o Partido Comunista da Ucrânia, um dos mais influentes do País (5), e prender centenas de militantes, tanto comunistas como de todas as outras organizações de esquerda, perseguir sindicalistas e opositores em geral. A partir daí, os paramilitares nazistas passaram a se comportar como verdadeiros esquadrões da morte, matando comunistas, judeus, ciganos e barbarizando a população que tinha origem e falava russo. Vários vídeos na internet, postado pelos próprios nazistas, mostram a ação dessas gangues amarrando as pessoas nos postes e surrando; outros vídeos mostram seus líderes ameaçando parlamentares e juízes que se contrapunham a suas ações. Que fez o governo ucraniano diante dessas atrocidades? Incorporou esses nazistas à estrutura militar do País. Diante dessa conjuntura, povos ligados por laços culturais à Rússia se rebelaram: na Criméia a população tomou a região e fez um plebiscito para apoiar sua incorporação à Rússia. Só para esclarecimento, a Criméia era da União Soviética até 1956, mas na época, Kruschov, que era ucraniano, resolveu dar de presente a Criméia para a Ucrânia. Como todos viviam na casa comum da URSS esse não foi um problema, mas isso não apagou os laços sanguíneos e culturais do povo da Criméia com o povo da Rússia, o que se revelou após o golpe de 2014. Após o referendo, a Rússia anexou a Criméia, trazendo-a de volta à antiga região.

Nas áreas do Leste, os povos de origem russa também se levantavam contra o governo neofascista numa luta armada a partir da qual, após as vitórias no campo de batalha, declararam a independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk, na região do Dombas. A guerra civil só terminou com os Acordos de Minsk, onde a Ucrânia prometia autonomia às duas regiões. Mas o governo, orientado pelos assessores da CIA, que tinham inclusive assento no palácio governamental, nunca respeitou os acordos. Pelo contrário, transformou os batalhões nazistas como vanguarda dos ataques contra as duas regiões. Nesse processo, os Estados Unidos, para continuar fomentando a guerra, enviou para a Ucrânia e, especialmente, para as regiões em conflito, os armamentos mais modernos com os quais esses batalhões atacavam permanentemente as duas repúblicas. Para se ter uma ideia, enquanto o Ocidente silenciava diante da violação dos Acordos de Minsk, as forças militares ucranianas e os batalhões nazistas mataram, ao longo dos últimos oito anos, 14 mil habitantes das duas regiões, inclusive dezenas de crianças. A morte de crianças foi tão brutal que em Donetsk existe um monumento com os nomes de todas as crianças assassinadas numa rua chamada Alameda dos Anjos. Para essas milhares de mortes de homens, mulheres e crianças nunca se ouviu uma palavra de protesto desses líderes que hoje esbravejam hipocritamente em nome dos direitos humanos.
Mas as medidas do governo neofascista da Ucrânia não visavam apenas a população rebelada daquelas regiões. Sob a orientação dos Estados Unidos e tendo como operadores a extrema-direita e os nazistas, desenvolveu-se uma campanha anticomunista, xenófoba, de perseguição aos russos étnicos e de proibição do idioma russo. Os currículos escolares passaram a ensinar que o Exército Vermelho, que perdeu centenas de milhares de homens para libertar a Ucrânia, era na verdade um exército de ocupação. As autoridades passaram a glorificar as antigas brigadas de colaboracionistas das forças invasoras de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, que tinham Stepan Bandera como principal líder dessas gangues, responsável por centenas de milhares de assassinatos naquele período. Abertamente, fazia-se reenterros homenageando membros da SS local de Bandera e os ex-colaboracionistas do nazismo e seus parentes passaram a receber pensões e bônus do governo. Além disso, esses colaboracionistas de Hitler passaram também a ter o status de “combatentes pela independência da Ucrânia”. A ideologia nazista estava se tornando tão forte que a escada de um dos shoppings de Kiev era decorada com a bandeira nazista. Tudo isso acontecia diante do nariz de Pinóquio dos protetores dos direitos humanos da União Europeia e dos Estados Unidos. Aliás, passou despercebido que a Rússia apresentou na ONU uma proposta de repúdio à glorificação nazista. 130 países votaram a favor e dois contra. Adivinhem quem … Ucrânia e Estados Unidos!

Em termos concretos, o governo neofascista que emergiu do golpe editou um conjunto de leis e decretos para construir uma nova história da Ucrânia, criminalizar a antiga União Soviética e glorificar os que colaboraram com os nazistas. A legislação aprovada proibia o uso de símbolos e meios de propaganda comunista, remoção de monumentos e locais públicos com os nomes relacionados ao período da guerra contra o nazismo. Por exemplo, a Lei No. 2538-1, que dispunha “sobre a honra e a memória dos combatentes pela independência da Ucrânia no século XX”, elevava várias organizações e grupos pró-nazistas que atuaram na segunda guerra mundial ao status de heróis e assegurava benefícios a seus membros sobreviventes ou seus parentes. Nessa cruzada para apagar a libertação da Ucrânia pelo Exército Vermelho, as novas autoridades neofascistas realizaram as seguintes medidas: “renomearam a denominação de 987 cidades/aldeias e 51.493 nomes de ruas, bem como removeram 1.320 monumentos dedicados a Lênin e 1.069 monumentos em homenagem a comunistas proeminentes, muitos dos quais foram vandalizados por grupos fascistas e pró nazistas” (5). O objetivo dessas medidas é apagar a história do Exército Vermelho e da União Soviética, de forma a que as novas gerações obtenham um conhecimento distorcido daquele período.

Com relação ao nazismo e o atual presidente da Ucrânia existe ainda uma questão que precisa ser muito bem esclarecida. Meio cinicamente, os ocidentais argumentam que a Ucrânia não pode ser considerada sob a influência da ideologia nazista porque o seu presidente é judeu. Minha avó dizia que a galinha, mesmo não tendo autonomia de voo que os outros pássaros, continua sendo uma ave. Mesmo que isso pareça contraditório, Zelensky, mesmo sendo judeu, é um apoiador dessas forças nazistas. Em dezembro passado ele concedeu uma honraria governamental, como herói nacional da Ucrânia, ao neonazista Dmytro Kotsyubail, líder da organização Pravy Sektor (setor de direita), responsável pelo massacre na Casa dos Sindicatos. Para quem não lembra, a Casa dos Sindicatos, onde também funcionava a sede regional do Partido Comunista da Ucrânia, na região de Odessa, foi incendiada por membros desse esquadrão da morte nazista quando esta estava cheia de militantes. Nesse bárbaro massacre, 42 pessoas, entre sindicalistas, comunistas, mulheres e crianças foram queimados vivos e muitos que tentavam sair do prédio em chamas foram abatidos à bala por esses terroristas. Zelensky também nomeou um comandante de um batalhão nazista, Maksim Marchenko, para o cargo de governador de Odessa. É para esse tipo de gente que os paladinos da civilização ocidental e cristã agora estão derramando lágrimas de crocodilo.

O xeque mate de Putin e a guerra

Mesmo diante de tudo que estava acontecendo na Ucrânia, o presidente russo buscou até o último momento um acordo com os Estados Unidos e União Europeia, tendo como referência a segurança mútua entre Ocidente e a Rússia, os Acordos de Minsk e a neutralidade ucraniana, mas tanto os Estados Unidos quanto seu satélite político, a União Europeia, fizeram ouvidos de mercador, porque a arrogância de Washington, aliada à mentalidade colonial da União Europeia, os tornaram politicamente cegos. Na verdade, depois de 30 anos de humilhações, EUA e UE não poderiam imaginar que a Rússia fosse capaz de tomar nenhuma medida mais firme, a não ser as costumeiras reclamações que se perdiam com o tempo, como no passado. Por isso não levaram a sério o discurso de Putin. Fizeram avaliações equivocadas e cálculos políticos fora da realidade e foram surpreendidos com a ação militar da Rússia. Sem condições para uma resposta militar, restou observar os acontecimentos e fazer apenas a guerra de informação, enquadrando todo o aparato mundial de comunicações para demonizar a Rússia e aprovar um conjunto de sanções que na prática poderão se transformar num bumerangue para os Estados Unidos e, principalmente, para a União Europeia, região que pagará a maior parte da conta em razão das medidas tomadas por Biden.

Se os dirigentes ocidentais fossem menos arrogantes teriam entendido perfeitamente as demandas de Putin e evitado a guerra. Que disse o líder russo ao lançar a ofensiva militar: “É sabido que durante 30 anos tentamos persistente e pacientemente negociar um acordo igual e indivisível na Europa. Enfrentamos constantemente engamos e mentiras cínicas ou tentativas de pressão e chantagem em respostas às nossas propostas … Não se trata de nosso regime político … eles simplesmente não querem um País independente tão grande como a Rússia. Esta é a resposta para todas as perguntas … A Rússia não pode existir com uma ameaça constante emanando do território ucraniano … Os acontecimentos de hoje não estão relacionados ao desejo de minar os interesses da Ucrânia e do povo ucraniano, mas de proteger a própria Rússia daqueles que fizeram a Ucrânia de refém e estão tentando usá-la contra nosso País e seu povo … Por isso mesmo vamos nos esforçar para desmilitarizar e desnazificar a Ucrânia. Você não pode olhar o que está acontecendo em Donbass sem compaixão … é impossível tolerar esse pesadelo, esse genocídio contra milhões de pessoas … Esses foram os principais motivos para que tomássemos a decisão de reconhecer as repúblicas populares de Donbass” (7). E para quem ainda imaginasse que estava blefando ele alertou: “Quem tentar interferir conosco e, mais ainda, criar ameaças o nosso País deve saber que a resposta da Rússia será imediata e levará a consequências que nunca enfrentou em sua história … Estamos preparados para qualquer situação. Espero que eles escutem” (8). Quando os líderes da OTAN ampliaram as ameaças buscando verificar até que ponto Putin estava disposto nesse conflito, a resposta foi ainda mais incisiva: ele colocou em alerta as forças nucleares, para desespero dos ocidentais, que estavam sempre acostumados a provocar guerras, destruir países e sabotar suas economias sem nenhuma resposta à altura.

A ação militar russa na Ucrânia marca um momento de inflexão na geopolítica mundial, na qual o imperialismo estadunidense e seu braço armado, a OTAN, não têm mais o monopólio da força para fazer o que querem no mundo. Para os ucranianos, ´parece estar claro que foram usados como carne de canhão nessa crise, pois todas as promessas de que a OTAN protegeria o atual governo de qualquer ameaça russa eram apenas palavras vazias: o que se viu na prática foi a Ucrânia abandonada ferida no meio do caminho. Aliás, para sermos sinceros, os Estados Unidos estão pouco preocupados com o destino do povo ucraniano nessa guerra. As mentiras sobre a resistência, as encenações de civis preparando coquetéis Molotov contra carros de combate blindados, envio der armas e aviões que nunca chegam para os ucranianos são apenas cortina de fumaça para esconder sua impotência. Qualquer pessoa minimamente inteligente que entenda razoavelmente de logística e estratégia militar sabe que isso é apenas propaganda para evitar a desmoralização completa dos fomentadores de guerra pelo mundo afora. O que eles querem mesmo – e para isso estimulam os esquadrões nazistas a fazer milhares de civis de reféns nas áreas de conflito – é provocar algum tipo de massacre para colocar na mídia como prova da maldade russa, construir encenação de morte de civis com falsa bandeira para justificar sua propaganda, que já está cansando os espectadores dada a imparcialidade com que a mídia vem noticiando a guerra. A CIA é mestra nessas ações: é só lembrarmos dos “ataques químicos” realizados pelo exército sírio ou das “armas de destruição em massa” no Iraque, tudo posteriormente comprovado como propaganda mentirosa.

Um fato muito grave emergiu dos escombros da guerra: no decorrer do conflito, veio à tona mais uma trama gravíssima da OTAN-EUA na Ucrânia. Os russos descobriram que as almas piedosas e defensoras dos direitos humanos construíram clandestinamente dezenas de laboratórios de guerra biológica na Ucrânia, financiados e controlados pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos. É bom lembrar que o pretexto para invadir o Iraque foi a acusação de que aquele País estava construindo armas de destruição em massa. Na verdade, agora todos ficaram sabendo que quem constrói armas de destruição em massa são os Estados Unidos e a OTAN, conforme os russos descobriram e os funcionários dos Estados Unidos foram obrigados a confirmar. A própria Victoria Nurland admitiu essa ação perante o Congresso dos Estados Unidos, mas disse que esses laboratórios tinha objetivo de realizar pesquisa científica, mas espertamente acrescentou que não poderiam cair na mão dos russos … Quais eram os planos dessa trama criminosa na Ucrânia? Segundo os documentos apreendidos, os 26 laboratórios ucranianos estavam realizando pesquisas avançadas com armas químicas e biológicas com patógenos como cólera, antraz e outras doenças fatais como armas de guerra. Os russos também descobriram outras experiências macabras como manipulação ectoparasitas de morcego, além de outros patógenos para contaminar aves migratórias da Ucrânia para a Rússia (9). Aliás, isso não é novidade, pois essas armas biológicas já foram usadas pela CIA contra as plantações de Cuba, além de patógenos que provocaram epidemia de diarreia naquele País. Não precisa de nenhuma teoria da conspiração para se imaginar o seguinte: se EUA-OTAN foram capazes de construir esses laboratórios clandestinos na Ucrânia, que não fazia parte da OTAN, imaginem as diabólicas experiências que estão sendo realizadas nas ex-repúblicas soviéticas. Essa descoberta pode ser apenas a ponta de um iceberg das atividades criminosas dos EUA-OTAN na região. Merece uma urgente investigação internacional. Uma ação criminosa dessa ordem deveria receber manchetes em toda a mídia internacional, mas parece que a amnésia tomou conta dos bravos meios de comunicação ocidentais.

As sanções e seus efeitos práticos

Sem condições objetivas para responder militarmente à Rússia, restou aos Estados Unidos e à União Europeia anunciar um conjunto de sanções que essas lideranças classificaram como uma verdadeira bomba atômica financeira, que deveria colocar a economia russa de joelhos. Vejamos quais foram as principais sanções até agora anunciadas. Desligamento das instituições financeiras russas do sistema SWIFT, um órgão formalmente independente mas que na prática é um instrumento do imperialismo destruir a economia dos países que não se dobram aos interesses dos Estados Unidos; a Alemanha suspendeu a certificação para o início das operações do NordStrean2, que levaria gás direto da Rússia para os alemães; proibição de investidores de adquirir títulos do tesouro da Rússia; bloqueio das reservas e ativos financeiros russos nas instituições financeiros ocidentais, bem como proibição de empresas e pessoas físicas russas de efetuar investimentos e pagamentos no exterior e negociar com produtos oriundos da Rússia.; estímulo a que empresas do Ocidente se retirem do território russo; fechamento do espaço aéreo dos Estados Unidos e da Europa para voos de empresas russas; proibição de compra de petróleo e gás russo pelos Estados Unidos, entre outras.

O grande objetivo dessas sanções é destruir a economia da Rússia e, possivelmente, criar uma crise econômico-social e política interna no território russo, que possa inclusive levar à queda do governo. Realmente, as sanções são muito duras e podem mesmo ocorrer, num primeiro momento, uma série de transtornos econômicos na economia russa. Em contrapartida, as sanções podem resultar em consequências inteiramente diferentes daquilo que está sendo sonhado pelos imperialistas dos Estados Unidos e da Europa. Da mesma forma como ocorreu no terreno militar, na área econômico-financeira os Estados Unidos e seus satélites políticos europeus já não têm também o monopólio das transações financeiras nem do comércio mundial. E essas sanções podem resultar numa espécie de efeito bumerangue, com o feitiço se voltando contra o feiticeiro, afinal num mundo globalizado, com as economias capitalistas interligadas, medidas com esse nível de radicalidade não atingem apenas a parte para quem foram direcionadas, mas toda a economia mundial e, inclusive a própria ordem econômica internacional tal como conhecemos. É bom lembrar ainda que a Rússia já vinha se adaptando às sanções do Ocidente e se preparando para novas sanções desde quando anexou a Criméia. O resultado prático da primeira onda de sanções foi um fortalecimento interno da indústria do País, mediante uma espécie de “substituição de importações”, processo que os brasileiros conhecem muito bem. Também se prepararam reorientando os fluxos comerciais, aumentando suas relações com a China e a Eurásia, bem como acumulando reservas cambiais, o que significa que não foram pegos de surpresa com essas medidas. Vejamos mais detalhadamente essas questões:

O desligamento da economia russa do sistema Swift (Sociedade Mundial de Telecomunicações e Transações Financeiras Interbancárias, em tradução livre) é realmente uma medida muito dura, pois praticamente afasta a Rússia do comércio internacional com os países que adotaram essa medida. No entanto, as vendas de gás para Europa estão fora dessa sanção, afinal os europeus sem o gás russo seria o caos. Já prevendo medidas desse tipo, em função do que foi feito com o Irã e Venezuela, vários países criaram sistemas alternativos ao Swift: a Rússia criou seu próprio sistema de transações financeiras, chamado SPFS, para liquidação com a moeda chinesa e de outros países que não se juntaram às sanções. Da mesma forma, a China também criou um sistema de pagamentos interbancários transfronteiriço denominado CIPS e, em 2017, um sistema específico de pagamentos para o comércio exterior entre o yuan e o rublo. O Irã, que também foi expulso do Swift, criou o seu próprio sistema de transações financeiras, conhecido como STFI, e passou a se integrar a um sistema regional chamado SUCRE, além do fato de que para suas transações com Alemanha, França em Reino Unido, em razão dos acordos sobre a questão nuclear, foi criado também um mecanismo para lidar com o comércio com o Irã, conhecido do INSTEX. Se levarmos em conta esses sistemas alternativos de pagamentos internacionais, o volume de comércio entre esses países, e a isso juntarmos os países que não aderiram a essas medidas, poderemos dizer que as sanções não terão plenamente os efeitos desejados e ainda podem estimular a criação de um sistema internacional alternativo ao do Ocidente, levando na prática a um processo de desdolarização da economia mundial, afinal todos agora estão cientes de que seus recursos podem ser confiscados se contrariarem as ordens de Washington. As reservas dos países em dólares e ouro nos bancos ocidentais já não são mais um porto seguro para os países superavitários.

A Rússia acumulou nos últimos anos U$ 640 bilhões de reservas. Menos da metade desses recursos podem ser alcançados pelas sanções. É ainda um volume grande, mas ainda resta à Rússia muita gordura para se proteger diante do confisco. Ao contrário de países com economias mais frágeis, a resposta da Rússia tem sido também bastante forte, podendo mesmo compensar as ações dos EUA-UE. Por exemplo, o governo russo definiu que seus compromissos externos (dívida externa, remessa de lucro ou desinvestimento) serão pagos em rublos ao câmbio do dia e depositados em um banco da Rússia. “O que isso significa na prática é que a maior parte dos U$ 478 bilhões da dívida externa russa pode ‘desaparecer’ dos balanços dos bancos ocidentais” (10). Mais recentemente, a Rússia também definiu que todos os pagamentos de suas exportações com as chamadas nações hostis deverão ser pagos em rublo. Outras respostas russas também são significativas: os cartões de crédito Visa e Credicard decidiram sair do País. O governo de Moscou criou seu próprio cartão o MIR e o ligou ao UnionPay, da China, que tem uma rede internacional semelhante ou maior que os cartões dos Estados Unidos. O temor central dos Estados Unidos, que é o estreitamento de relações entre a China e a Rússia, está se tornando realidade, estimulado pelas próprias sanções. “No período 2014-2020, em termos monetários, o volume de negócios da Rússia com a China aumentou 17,8%, passando de U$ 88,4 bilhões para 104,1 bilhões … O principal resultado das sanções (realizadas após a anexação da Criméia) EUA-Europa foi uma mudança na estrutura geográfica das relações econômicas externas russas em favor da China” (11).

A interrupção do NordStrean2 por parte da Alemanha causará problemas apenas para os alemães, que deixarão de ter o gás mais barato da Rússia. Em contrapartida, a Rússia vai aumentar as exportações de gás para o Oriente. A Gazprom fechou contrato com a China para a construção de um gasoduto que passará pela Mongólia e se conectará com a China e consequentemente com toda a Ásia, substituindo as remessas que iriam para a Alemanha. Além de petróleo e gás, a Rússia também é um dos maiores exportadores mundiais de outras matérias-primas como trigo e grãos em geral, além de metais como cobalto, alumínio e paládio, este último imprescindível para a indústria de tecnologia da informação. Portanto, como já podemos verificar, somente nos primeiros dias após as sanções os preços dessas matérias-primas aumentaram de maneira acentuada. Se a inflação já era uma realidade nas economias ocidentais, imaginem o que acontecerá com a escalada de preços que resultará das sanções. Poderemos ter um processo hiperinflacionário tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Aliás, a Europa vinha ensaiando construir alternativas autônomas em relação aos Estados Unidos. Primeiro, com a criação da zona do euro e também uma força militar europeia. Com essa capitulação, serão os principais prejudicados com as sanções. “O preço de sua obediência é impor inflação aos custos de sua indústria, enquanto subordinam sua política eleitoral democrática aos pró-cônsules estadunidenses da OTAN” (12).

Avaliando em termos de curto e médio prazo, podemos dizer que o imperialismo já não tem condições de se impor como no passado. A guerra na Ucrânia pode ser considerada apenas o gatilho que acelerou o processo de transição de hegemonia e colocou em marcha um conjunto de fenômenos que não estava nos cálculos dos autores das sanções e que podem se voltar contra suas próprias economias, tais como: a) uma recessão mundial em consequência da redução do fluxo de matérias primas e de suprimentos industriais, agravada pelos efeitos da recente crise sanitária; b) uma aceleração da inflação, estimulada pelos aumentos dos preços das matérias-primas, especialmente petróleo e gás, que é a matriz energética das principais economias do mundo; c) uma aproximação cada vez mais estratégica entre China e Rússia, para desespero dos velhos imperialistas em declínio; d) como consequência, a Europa pagará o maior preço em termos econômicos e sociais por sua vassalagem em relação aos Estados Unidos, o que se refletirá na queda do crescimento econômico e queda na produtividade da região; e) a crise mundial resultante desse processo agravará ainda mais todos os problemas colocados pela crise sistêmica global e intensificados pela pandemia, o que poderá abrir janelas de oportunidades para os trabalhadores emergiram da conjuntura contestando a velha ordem e disputando uma nova ordem internacional de acordo com seus interesses.

Alguns desdobramentos em curso na economia mundial podem acelerar mudanças qualitativas tanto na esfera monetária quanto na geopolítica internacional. “A China passou a investir pesadamente na internacionalização de sua moeda, graças ao aumento do comércio exterior – importações e exportações – investimentos na Rota da Seda, uma rede global permitindo swap do renminbi (o yuan é a unidade de conta enquanto o renminbi é o nome da moeda) com bancos oficiais de compensação e, finalmente, adição do renminbi à cesta de Direitos Especiais de Saque, a moeda do FMI. O próximo passo será a emissão de e-CNY, a moeda digital chinesa” (13). Essa transição poderá ser acelerada se grandes exportadores de petróleo, como a Arábia Saudita (que está negociando com a china essa questão) começarem a realizar suas transações em yuan. A Índia já fez acordo com a Rússia nesse sentido. Na verdade, se observarmos o conjunto da economia mundial poderemos dizer que “cerca de 70% da humanidade se encontra fora da centralidade anglo-saxã, sionista ou eurocêntrica” (14). Em outras palavras, existem condições objetivas para a construção de uma nova ordem econômica mundial, com o declínio do dólar e a emergência de novas estruturas que venham a substituir a velha ordem mundial construída em Bretton Woods.

Esse conjunto de problemas econômicos que emergirão em função das sanções se desdobrarão em problemas sociais e políticos, afinal o aprofundamento da crise sistêmica mundial que se avizinha encontrará as economias dos países centrais ainda curando as feridas da crise de 2008 (da qual até hoje ainda não se recuperaram) e da crise sanitária. Um sistema hegemônico em declínio, com estagnação econômica, desemprego e escalada inflacionária dificilmente terá o controle pleno do curso dos acontecimentos, especialmente porque estamos num processo de transição de hegemonia. Isso nos leva a crer que viveremos uma conjuntura internacional muito difícil porque o animal ferido é muito mais perigoso e agressivo. Não se pode descartar a intensificação das guerras, sabotagens, golpes de Estado entre outras manobras do imperialismo em processo de senilidade. Por outro lado, como o inimigo está cheio de problemas e como suas próprias decisões desencadearam forças que eles podem não ter condições de controlar, não está descartada a possibilidade de abertura de uma janela de oportunidades para o proletariado mundial entrar em cena e contestar a ordem estabelecida e se colocar como alternativa à crise mundial do capitalismo.

Além das aparências: as disputas interburguesas

Até aqui procuramos entender a dinâmica da conjuntura de maneira objetiva, sem aprofundarmos a análise do ponto de vista de classe, levando em conta que esse conflito, além dos elementos geopolíticos que levaram a Rússia a realizar essa operação militar na Ucrânia, das pretensões imperialistas dos Estados Unidos e União Europeia, existe também uma questão de fundo que explica a guerra: os interesses econômicos da burguesia russa e das burguesias do velho imperialismo. Os marxistas não devem ter nenhuma ilusão sobre essa questão: sabemos muito bem que a Rússia atual não é a União Soviética e que Putin não é revolucionário. Pelo contrário, é o representante da burguesia russa e do sistema capitalista no País, e temos claro que essa burguesia só se constituiu enquanto classe porque roubou o patrimônio construído pelos trabalhadores ao longo dos 74 anos do período soviético. Os marxistas compreendem também muito bem o desespero do imperialismo para resolver pela guerra a crise sistêmica que o castiga desde 2008 e sabem ainda que essas guerras, os golpes de Estado, sabotagens, sanções, revoluções coloridas são resultantes do desespero das classes dominantes globais diante de um mundo em constante mutação, às quais não conseguem mais hegemonizar como faziam há algumas décadas. Por isso, é importante avaliarmos todos os interesses econômicos em jogo.

Primeiro, o NordSstrean 2 consolidaria a hegemonia russa no mercado de gás da Europa e deixaria para trás as ambições das petroleiras dos Estados Unidos de ocupar esse mercado. “Atualmente, o gás natural russo responde por mais de 30% de todas as importações para a União Europeia. As principais potências da UE, Alemanha e França, obtém 40% de seu gás da Rússia, enquanto outros países como a República Checa e a Romênia, usam apenas (o gás) da nação euroasiática … Os produtores dos Estados Unidos querem participar e controlar essa bonança, especialmente na Europa, onde os preços do gás aumentaram cinco vezes em 2021 e agora, com as ações militares na Ucrânia, vão explodir … Cheias de gás, as corporações americanas olham cada vez mais para a Europa como cliente … Graças a um acordo entre o governo Trump e a UE as vendas de gás dos EUA para a Europa aumentaram de forma constante, de 16% em 2019 para 28% no final de 2021. No entanto, há um problema que pode limitar o crescimento: o gás natural dos EUA é caro, consideravelmente mais que o da Rússia. O (gás extraído através do) fracking hidráulico aumenta substancialmente os custos de produção. Além disso, para ser exportado para clientes internacionais, o gás dos EUA deve ser liquefeito e carregado/descarregado em navios-tanques e terminais especializados caros. A conversão do gás de xisto fraturado em gás natural liquefeito (GNL) pode mais que dobrar os custos para empresas americanas, colocando-as em desvantagem em relação ao gás barato que viaja por dutos (da Rússia)” (15).

A Rússia é uma superpotência em energia e detém as maiores reservas de gás natural do mundo. Porém passou despercebida a notícia de que a Ucrânia descobriu grandes reservas de gás natural capazes de torná-la também uma potência exportadora desse produto. Os governos que assumiram após o golpe de 2014 na Ucrânia buscaram cada vez mais afastar a Rússia dos negócios na Ucrânia e estreitar os laços com os Estados Unidos e a União Europeia. Após a descoberta, o governo ucraniano firmou um acordo com ExxonMobil e a Shell para exploração do gás, o que ameaçou os interesses da gigante estatal russa, a Gazpron, que viu nesses acordos uma manobra para afastar os russos do mercado europeu. Ou seja, uma Ucrânia em pleno processo de russofobia e com empresas ocidentais procurando retirar a Rússia desse mercado era também inaceitável. Não se pode esquecer ainda que o filho do presidente Biden, Hunter Biden, se tornou CEO da Burisma Holdings, em 2014, a maior exportadora de gás da Ucrânia, com um salário de US$ 50 mil por mês, com a tarefa de fazer lobby ucraniano junto ao governo norte-americano. Em seu livro de memórias, ele confirma as alegações de que estava na Ucrânia para facilitar as relações com o governo oriundo do golpe. “Eles queriam criar um baluarte contra a agressão russa … O nome de Biden é sinônimo de democracia e transparência, por isso disse que era ouro para eles” (16).

Mesmo levando em conta todos os problemas resultantes da geopolítica, não existem santos nessa crise. Nenhum País assiste sem reação à perda de um grande mercado de um dos seus principais produtos de exportação. Para a burguesia russa a perda de influência no maior País das ex-repúblicas soviéticas a deixaria muito frágil economicamente e os próximos passos dos Estados Unidos e da OTAN seria também dominar o mercado de petróleo e, politicamente, a transformar o Estado russo em dezenas de republiquetas a serviço de Washington, como já acontece naqueles países do Leste incorporados à OTAN. Portanto, até por instinto de sobrevivência, Putin e a burguesia russa, após tentarem, por várias décadas, resolver sem sucesso essas disputas interburguesas pela via diplomática, decidiram recorrer ao velho método das armas como forma de atingir os objetivos políticos e econômicos. Os líderes do velho imperialismo, com sua arrogância e ambição, não imaginavam uma resposta tão dura de Moscou, acostumavam que estavam com os recuos constantes dos dirigentes russos. Calcularam mal a resposta russa e agora estão diante de uma derrota militar, da perspectiva de uma crise econômica mundial, cujos resultados são ainda imponderáveis. Não se pode descartar, inclusive, convulsões sociais nos Estados Unidos e na Europa como consequência dos problemas oriundos da guerra e dos efeitos das sanções. As guerras todos sabem como começam, mas poucos podem prever como terminam, bem como suas consequências.

Em outras palavras, além dos problemas geopolíticos e das ambições dos EUA-OTAN-UE a burguesia russa, apesar de jovem em termos históricos, tinha claro que se cedesse na Ucrânia seria esmagada diante das ambições do velho imperialismo. Perderia não apenas uma das principais fontes de recursos (petróleo e gás) mas também veria seu Estado esquartejado como ocorreu com a antiga Iugoslávia e, em seguida, suas próprias propriedades seriam absorvidas pelas corporações transnacionais dos Estados Unidos e da Europa como no Iraque e na Líbia. Portanto, reagir militarmente era caso de vida ou morte, afinal esta não é a primeira vez que se iniciam guerras em função de disputas entre as várias frações da burguesia. Além disso, para quem tem ilusões sobre o presidente russo e sua opção pelo capitalismo, é importante ler com cuidado recente entrevista de Putin sobre como a Rússia vai enfrentar a crise. “Sem dúvida, na nova realidade, nossa economia precisará de profundas mudanças estruturais … Não serão fáceis e causarão aumento temporário da inflação e do desemprego … É preciso responder às pressões externas com a máxima liberdade empresarial … Sem dúvida, a economia russa vai se adaptar à nova realidade … O papel fundamental na superação dos problemas atuais deve ser desempenhado por empresas privadas que podem reconstruir a logística em pouco tempo, encontrar novos fornecedores e aumentar a produção de mercadorias demandadas” (17).

No mesmo pronunciamento Putin promete eliminar barreiras administrativas e regulatórias injustificadas, a fim de facilitar a resolução de problemas por parte dos empresários e dos governos regionais. Nada mais cristalino para um representante da burguesia de seu País. Vai ocorrer aumento da inflação e do desemprego, mas a solução é facilitar a vida das empresas e consolidar o poder da burguesia nas novas condições impostas pelo Ocidente. Em outras palavras, a crise resultante da guerra recairá sobre o proletariado, mas poderá também ter consequências internas para Putin e a burguesia da qual é representante. Terminada a guerra, é hoje de fazer o balanço. Ainda existe no imaginário popular russo os bons tempos do período soviético, onde não havia burguesia nem exploração. A guerra pode mudar o curso da luta de classes na Rússia. Em algum momento os trabalhadores vão perceber que todo o patrimônio dessa burguesia não foi por ela criado: foi roubado dos trabalhadores pelos traidores da União Soviética, Gorbachov, Yeltsin e vários membros da cúpula corrompida do ex-PCUS, e apropriado pelos oligarcas que esbanjam luxo e riqueza enquanto regride cada vez mais o nível de vida do povo. Portanto, a crise e os horrores da guerra poderão influir na psicologia das massas e levar a um ajuste de contas entre o proletariado russo e essa burguesia, afinal esses oligarcas não têm nenhuma justificativa para o patrimônio que possuem – não receberam de herança, não empreenderam para construir suas empresas, apenas roubaram dos trabalhadores na mão grande. Também com o fim da guerra e a desnazificação da Ucrânia os trabalhadores também poderão realizar o ajuste contas com o que sobrar do nazismo e da burguesia corrupta ucraniana. O pós-guerra abrirá também uma luta política intensa no interior tanto da Rússia quanto da Ucrânia e, quiçá, em todo o sistema capitalista.

Algumas conclusões provisórias

1) Estamos diante de uma transição de hegemonia em que o velho imperialismo está em declínio em função de um conjunto de mudanças qualitativas que ocorreram na divisão internacional da produção e do trabalho. Como a história tem provado, todo período de transição de hegemonia é marcado por perturbações de toda ordem na conjuntura internacional, porque o velho está morrendo e o novo ainda não se consolidou completamente. A guerra na Ucrânia foi apenas o gatilho que veio acelerar o processo de transição que já vinha sendo construído nos subterrâneos da geopolítica internacional. A vitória militar da Rússia quebrou o monopólio da força do velho imperialismo e, se as sanções não produzirem o efeito que a velha ordem imagina, também está quebrado o seu monopólio econômico-financeiro, o que terá profundas consequências no curto, médio e longo prazos naquilo que poderíamos nomear provisoriamente de uma nova ordem econômica e política internacional.

2) O declínio imperialista nessas duas áreas chaves do domínio econômico e político torna mais clara a transição da hegemonia do Ocidente para a Ásia–Pacífico, processo que será estimulado pelo estreitamento das relações entre a China e Rússia, que continua “firme como uma rocha” como dizem os chineses apesar das pressões do Ocidente. A integração geopolítica e econômica dessas duas potências representa uma espécie de xeque-mate para o velho imperialismo, uma vez que a Rússia possui as matérias-primas de que a China necessita para sua pujante indústria e tem ainda uma máquina militar, herdada da União Soviética, que garante a dissuasão contra qualquer aventura imperial dos EUA. Por seu turno, a China se transformou na oficina do mundo, tanto em termos de produção quanto nas áreas de tecnologia e no comércio mundial o que, numa linguagem militar, representa uma ofensiva em forma de pinça na conjuntura internacional.

3) A guerra na Ucrânia representa também o momento de virada na conjuntura internacional, cujo resultado será a emergência de uma série de fenômenos novos que estavam amadurecendo no interior da conjuntura e que agora explodiram com a guerra como sempre ocorre em todos os grandes momentos de declínio de hegemonia. Dito de outra forma: a guerra na Ucrânia é a expressão concentrada tanto das contradições não resolvidas da crise sistêmica global que emergiu em 2008 quanto da velha ordem econômica e política internacional construída em Bretton Woods e aprofundada com a desagregação da União Soviética. O mundo do pós-guerra da Ucrânia, passada a euforia da propaganda imperialista, será bastante diferente do que conhecemos atualmente e as estruturas dominantes sofrerão abalos consideráveis no próximo período.

4) Um dos principais fenômenos que podem emergir dessa crise é um processo de desdolarização da economia mundial e a constituição de novos blocos monetários em contraposição ao dólar. Vale lembrar que ao longo das últimas sete décadas os Estados Unidos tiveram o privilégio da senhoriagem da moeda mundial, baseada inicialmente em seu poder econômico e militar. Aos poucos foram aparecendo novos atores, entre os quais o surgimento da zona do euro e a emergência da China como potência econômica mundial. Pelo menos nas três últimas décadas os Estados Unidos driblaram as dificuldades de sua economia cobrindo seu déficit comercial com “apropriação” do valor produzido pela economia mundial, através do comércio mundial, em troca de papel pintado, ou seja, de um dólar sem lastro na produção do valor. Agora, com a crise e as sanções à Rússia, está se conformando de maneira acelerada um processo de desdolarização do comércio internacional, a partir dos acordos China-Rússia-Eurásia, e a introdução do yuan como moeda internacional.

5) Ao longo da história o poder militar tem sido o elemento determinante para a hegemonia dos impérios. Desde 1945 os Estados Unidos se transformaram na nação com o maior orçamento e o maior poder militar do planeta. Mesmo que tenha sido derrotado no Vietnã, na Síria e no Afeganistão, essas foram derrotas parciais que não alteraram a correlação de forças no cenário internacional, mas a guerra da Ucrânia marca uma mudança de qualidade, pois os EUA-OTAN perderam o monopólio da força e, mesmo sem lutar, sofreram uma derrota histórica, pois foram na prática impedidos de intervir na guerra que provocaram diante do poderio militar russo e da possibilidade de uma terceira guerra mundial. Acostumados que estavam a disciplinar pelas armas os países que não se dobravam aos seus interesses, como ocorreu na Iugoslavia e na Líbia, bombardeados sem que ocorresse a choradeira que se verifica agora, a crise na Ucrânia representou um basta à arrogância militar do EUA-OTAN, marcando assim uma nova correlação de forças na geopolítica internacional, onde os caprichos expansionistas de Washington já não têm mais a efetividade que tinha no passado.

6) O tsunami de sanções acionadas contra a Rússia tem dois objetivos: desestruturar a economia do País e sabotar a nova rota da seda, de forma a enfraquecer o emergente poderio econômico chinês. No entanto, as sanções podem não alcançar os resultados pretendidos. É só observarmos que, mesmo sendo economias mais frágeis, Venezuela e Irã continuam sobrevivendo apesar de sancionados. Além disso, a economia russa é muito maior tanto pelo fato de que a Rússia é uma das maiores potências energéticas do mundo (a Europa depende em mais de 30% do gás russo) e uma das maiores exportadoras de metais estratégicos para a economia mundial, quanto por ter um extraordinário poder militar. Vale lembrar que a Rússia já tinha experiência com sanções dos Estados Unidos desde que anexou a Criméia e que vinha preparando sua economia para a eventualidade de novas sanções em virtude do contencioso em relação à Ucrânia desde o golpe de 2014. Evidentemente que as sanções vão produzir inicialmente certo grau de inflação, de desemprego e possivelmente queda no crescimento econômico, mas a Rússia se adaptará em pouco tempo à nova conjuntura, especialmente em função do estreitamento das relações com a China e com a Eurásia.

7) Ao contrário dos desejos e da euforia inicial nos Estados Unidos e União Europeia, essas medidas podem ter um efeito bumerangue e resultar em problemas não imaginados pelo Ocidente, como a emergência de uma nova crise econômica e monetária mundial. Para os Estados Unidos, a crise da Ucrânia visava afastar a Europa da Rússia, enfraquecer as relações China-Rússia e ocupar o mercado de energia da Europa. No curto prazo esses objetivos estão sendo alcançados na Europa, especialmente com o aumento da presença das petroleiras dos EUA nesse mercado e a venda de equipamentos militares para a região, mas no médio e longo prazos esse pode ser o dobre de finados do velho imperialismo. Primeiro, porque as sanções levarão a um aumento dos preços das matérias-primas e dos suprimentos para as indústrias dos países centrais, sendo que a Europa pagará o maior preço por sua vassalagem. Esse processo resultará no aumento da inflação, do desemprego e numa crise econômica no coração do sistema imperialista, após uma conjuntura que já vinha debilitada em razão dos problemas causados pela pandemia.

8) Um dado pouco observado nas análises sobre a conjuntura internacional é o fato de que a produção mundial do valor não está mais centrada na economia líder. Pelo menos nas últimas quatro décadas, a economia dos Estados Unidos tem se especializado na construção de uma economia de serviços, na financeirização especulativa, na exportação de capitais e, principalmente, na cobertura de seus déficits comerciais mediante a “expropriação do valor” das nações superavitárias em troca de uma moeda que não tem mais lastro na produção do valor. Enquanto isso, as nações que lideram efetivamente a produção do valor estão localizadas fora do eixo Atlântico, mais precisamente na Eurásia, com destaque para China, Rússia e Índia. Com os solavancos da crise atual, não levará muito tempo para que a Lei do Valor realize um ajuste de contas com o império estadunidense e a velha ordem por ele construída.

9) O declínio econômico do velho imperialismo, como sempre ocorreu historicamente em vários momentos de transição de hegemonia, vai produzir uma conjuntura internacional bastante tensa, pois nenhum império entregou seu poder de maneira pacífica. Mesmo debilitado econômica e militarmente, ainda tem condições de realizar guerras, provocações e toda sorte de sabotagens contra as nações que não se dobrarem aos seus interesses. Como parte dessas provocações, não está descartado os estímulos à independência de Taiwan como forma de desestabilizar a China e levá-la a uma guerra na região e a interferência na América Latina contra qualquer possibilidade de alinhamento com a China. Também não está descartado os laços cada vez mais estreitos entre o imperialismo em declínio e as forças fascistas em todas as regiões do planeta, a luta aberta contra as liberdades democráticas em todos os países, revelando assim o caráter cada vez mais reacionário do grande capital nesse momento de crise. O imperialismo senil poderá morrer abraçado ao nazismo como último testemunho de sua decadência.

10) Essa conjuntura de transição de hegemonia poderá abrir janelas de oportunidades para os trabalhadores dos países centrais e periféricos emergirem na nova conjuntura como protagonistas em busca de uma nova ordem econômica que atenda aos seus interesses. Acossados pela crise econômica, pelo desemprego, os trabalhadores poderão retomar a iniciativa após um longo período em que foram enganados pelas promessas de paz e bem-estar social dos partidos sociais-democratas e esmagados pela brutalidade das classes dominantes periféricas. Esse processo poderá ser mais intenso nos Estados Unidos, tanto pelas contradições econômicas e sociais internas, quanto pela redução da “expropriação do valor” através do comércio mundial, além da crise do dólar como moeda mundial. Um império com a economia em crise, com as gritantes desigualdades sociais internas não poderá sustentar por muito tempo o dólar como moeda mundial, fato que terá consequências imponderáveis para a ordem imperial montada após a Segunda Guerra Mundial.

Edmilson Costa é secretário-geral do PCB

Notas:

1) O conto de fadas da resistência ucraniana só existe nos fake news que diariamente são veiculados na televisão, pois no primeiro dia da guerra a Rússia colocou fora de combate a aviação Ucrânia, seus aeroportos, os centros de comando e bases de lançamento de mísseis. Restou à Ucrânia apenas a infantaria e o estímulo suicida à população para a construção de prosaicos coquetéis Molotov para enfrentar os blindados russos, ou ao Ocidente o elogio dos os batalhões nazistas, que utilizam a população como escudo humano para retardar sua destruição, além da busca de imagens de prédios destruídoss para a propaganda contra a Rússia.
2) Fiori, J. L. Mudança à vista na geopolítica global. São Paulo: Outras palavras. www.outraspalavras.net. Acesso em 15/03/2022.
3) Esteller, R. O grande negócio dos EUA: vende gás 40% mais caro que a Rússia. www. tudoparaminhacuba.wordpress.com. Acesso em 18/03/2022.
4) Acervo do conhecimento histórico. Acesso em 18 de março de 2022.
5) Nas eleições de 2012 o Partido comunista da Ucrânia (PCU) obteve 1,2% dos votos e 32 cadeiras no Parlamento. Nas eleições de 2014, no bojo dos movimentos do Euromaidan, a votação do PCU regrediu para 3,88%, o que deixou a legenda fora do Parlamento. Em 2015 o Partido foi colocado na ilegalidade. https://omegawebhosting.net.
6) Mottas, N. A descomunização da Ucrânia e a ascensão do fascismo, In Defense of Communism. Acesso em 20/03/2022.
7) Discurso de Putin a anunciar a operação militar especial na Ucrânia. Acesso em 18/03/2022.
8) Idem, discurso de Putin.
9) Rússia exige explicações dos EUA sobre laboratórios biológicos na Ucrânia e Após acusações da Rússia, EUA se manifestam sobre laboratórios na Ucrânia. www.pt.fxempire.com. Acesso em 20/032022.
10) Escobar. P. As sanções de Washington destruirão a Europa, não a Rússia. www.resistir.info. Acesso em 21/03/2022.
11) Glaziev, S. Sanções e soberania. www.resistir.info. Acesso em 21/03/2022.
12) Hudson, M. Sanções à Russia, a brincadeira com fogo dos Estados Unidos. www.outraspalavras.net. Acesso em 23/03/2022.
13) Nassif. L. A lenta erosão do dólar como moeda global, a partir de informações de trabalho de Serkan Arslanalp, Barry Eichengreen e China Simpson-Beel, patrocinado pelo FMI. www.jornalggn.com.br. Acesso em 29/03/2022.
14) Beaklini, B. Crise e “desdolarização” da economia mundial superando a hegemonia dos petrodólares. www.jornalggn.com.br. Acesso em 29/03/2022.
15) Oro, J. R. Quem se beneficia da crise na Ucrânia. www.patrialatina.com.br. Acesso em 20/03/2022.
16) BBC. Hanter Biden admite que empresa ucraniana que o contratou via seu nome como ouro. www.sapobrasil.com.br. Acesso em 25/03/2022.
17) Klimentyev, M. Putin: Ocidente falhou em organizar a guerra econômica blitzkrieg contra a Rússia. www.atualidad.rt.com. Acesso em 28/03/2022.

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