O parvo, o pavão e o ocaso da teoria política

Charge de Mauro Iasi

Por Mauro Luis Iasi

Blog da Boitempo

“Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”
— Nelson Rodrigues

Dizem que na Suprema Corte norte-americana, na qual os juízes são vitalícios, existe uma regra pela qual se um membro muito idoso começa a dar sinais de que está perdendo sua capacidade de julgar, cabe ao segundo membro mais velho avisá-lo que é hora de se aposentar. Mesmo no âmbito do senso comum, se alguém comete algum desvario, alguém por perto pode alertá-lo, repreendê-lo ou, de alguma forma, avisá-lo de que sua atitude ou comportamento não é aceitável.

Entretanto, quando o alucinado inadequado é um Presidente da República parece que não existe esta prática saudável. Qualquer um em um posto de saúde, diante de alguém que entrasse tentando impedir a aplicação de uma vacina, ou pregando os poderes salvadores de um remédio inadequado, o desmentiria de pronto e, se fosse um ser agressivo e claramente parvo, poderia, inclusive chamar um segurança. No entanto, quando um certo presidente miliciano fez exatamente isso, insistentemente, no quadro de uma pandemia mortal, apesar das reações de gente da ciência, do jornalismo mais ou menos sério e do bom senso, parecia que, pelo cargo, devia-se à figura maligna uma espécie de respeito ao direito de dizer e fazer besteiras.

O atual presidente dos EUA especializou-se em dizer e fazer sandices. Vestiu-se com as vestes da rainha louca de Alice e começou a taxar a tudo e a todos, sem disfarçar a falta total de sentido das medidas, jogando taxas de 50%, 100%, baixando para 10% ao sabor do acaso. Indagado por uma repórter sobre qual a fórmula usada para chegar a esta ou aquela taxa, o presidente pavão começa por dizer que não há uma fórmula matemática, mas uma medida baseada no bom senso. O mesmo bom senso que taxou uma ilha onde só tem pinguins, grandes economias aliadas, países pobres, como ameça a países beligerantes ou retaliação política a regimes considerados hostis.

Um reporter norte-americano nos explicou que a base para a tal teoria de que o problema dos EUA seria o déficit nas transações comerciais com o mundo viria de um senhor chamado Peter Navarro, encontrado pelo coordenador da campanha de Trump numa busca sobre autores de teoria econômica no site da Amazon. Diante da precária sustentação dos argumentos principais da teoria do déficit pelo autor, surge com frequência a citação a um certo Ron Vera, o qual, como se veio a descobrir, não existe. Trata-se apenas de um alter ego de Peter Navarro, que ele diz ter criado simplesmente como “um recurso estilistico”.

Vejam só, uma professora que corrigisse um trabalho escolar que lançasse mão de um tal recurso criativo teria riscado a folha com caneta vermelha e alertado o estudante de que aquilo não se deve fazer. Em qualquer uma de nossas tão atacadas universidades, qualquer orientador teria advertido o senhor Peter Navarro que isto não seria aceito e, caso chagasse à banca, esse senhor teria sido reprovado. Do mesmo modo, qualquer editora séria que fosse informada de tal recurso criativo teria recusado a publicação. No entando, não apenas esse farsante embasa uma teoria sem fundamento que sutenta uma política insana, como se tornou Conselheiro Senior para o Comércio e Manufatura da maior economia do mundo.

Diante desse quadro, temos que rever alguns conceitos caros à teoria política. Devemos acrescentar à definição weberiana de Estado, como monopólio do uso legítimo da força em um determinado território, que seu mandatário tem o monopólio do uso legitimo de sandices. John Locke, Montesquieu, Rousseau, cada um ao seu modo, na origem do mundo burguês em luta contra o Absolutismo, buscavam maneiras pelas quais o poder do Estado não se impusesse aos indivíduos e à sociedade, fosse pelas leis, pela divisão de poderes, por um sistema de pesos e contrapesos, ou ainda pela mítica “soberania popular”. Bom, parece que, na fase burlesca da decadência do mundo burguês, nenhuma engenharia política consegue evitar que um desqualificado aventureiro assuma o comando de uma nação. Não estamos falando de casos isolados: Trump nos EUA; Bozo no Brasil; um comediante na Ucrânia; o burlesco Berlusconi na Itália; um Milei na Argentina; Erdogan na Turquia.

Vejam, não se trata apenas da constatação folclórica de que o bobo da corte governa; acredito mesmo que as vestes do palhaço sirvam mais à farsa do Estado do que os ternos sérios dos burocratas. Não tem nada de engraçado nesses miseráveis, eles são a expressão pura do mal, da perversidade, da violência e da ignorância. Governam nações e seus arsenais atômicos, produzem guerras e milhares de mortes, praticam genocídios, riem na cara da pobreza, da miséria, da fome, enquanto destroem o planeta. A plateia aplaude e pede bis.

O mais insano é que a sociedade e seus membros civilizados, que reconhecem o caráter bizarro dos governantes, aceitam como normal e legítimo o uso do cargo por um insano perverso. Trata-se os parvos e pavões em posse de mandato com respeito, suas mediadas são discutidas como se nelas houvesse alguma lógica, negocia-se com eles, buscando a adequação às chamadas novas condições do mercado como se nada de anormal estivesse acontecendo. Alice assustada segura sua xícara de chá vazia, entre a lebre louca e o chapeleiro maluco, e se propõe a negociar.

Maquiavel inaugurou a teoria política moderna afirmando que não seria possível compreender a moral do príncipe como a moral do cidadão — deste último se espera que não minta ou mate, mas o príncipe não só pode como deve saber usar da mentira e da violência a serviço da preservação do poder. Aqui, também, devemos atualizar as bases da teoria política. Aos mandatários do poder político do Estado são permitidos sandices e desvarios que não se espera ver no povo e nos cidadãos.

Parece que a sociedade capitalista em sua fase terminal e decadente vai encontrando sua forma política adequada.

***
Mauro Iasi é professor aposentado da Escola de Serviço Social da UFRJ, professor convidado do programa de pós-graduação em Serviço Social da PUC de São Paulo, educador popular e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.

O parvo, o pavão e o ocaso da teoria política