36 anos sem João Saldanha

Jornal O Poder Popular nº 107 (julho de 2026)

Fundação Dinarco Reis

 

Em tempos de Copa do Mundo, é impossível deixar de falar do querido camarada João Saldanha. Em 12 de julho de 1990, o João Sem Medo falecia em Roma durante a Copa da Itália, para onde fez questão de ir, mesmo muito doente, para acompanhar os jogos, como sempre fez desde que começou a se destacar como jornalista esportivo.

João Alves Saldanha nasceu na cidade de Alegrete, Rio Grande do Sul, em 03 de julho de 1917, alguns meses antes de acontecer na Rússia a Revolução Bolchevique. Seu avô, rico fazendeiro de Livramento, investiu a fortuna que tinha na Revolução Federalista, e o pai continuou a saga dos rebeldes maragatos. Em 1923, a família foi obrigada a se exilar no Uruguai e, no ano seguinte, voltou para o Brasil. Com a “Revolução de 1930”, os Saldanha mudaram-se para o Rio de Janeiro, acompanhando seu líder político, Getúlio Vargas.

No Rio, João adotou o Botafogo como clube do coração, pois, na época, o time estava coalhado de craques gaúchos. Em 1935, entrou para o curso de Direito da Universidade do Distrito Federal (atual UERJ) e ingressou no PCB. João foi recrutado para a célula do Partido em Copacabana, passando a cumprir várias tarefas, dentre as quais a mais importante foi servir como mensageiro do PCB em missões na Europa e nas Américas, para denunciar as prisões e torturas do Estado Novo.

O João sem Medo

Nos anos 40, já em tempos de Guerra Fria, Saldanha foi eleito presidente da Juventude Comunista. Durante o I Congresso Brasileiro de Defesa da Paz e da Cultura, em 1949, na sede da UNE, no Flamengo, invadida pela polícia, João foi ferido a bala e condenado a seis anos de cadeia, sem direito a julgamento. Decidiu partir para a Europa, onde frequentou cursos de formação política em Praga e Moscou e visitou a China, para participar dos festejos do primeiro aniversário da Revolução Socialista.

Regressou ao Brasil em 1950, quando foi designado pelo Comitê Central para dar assistência aos militantes do PCB que dirigiam a luta dos camponeses pela terra em Porecatu, no norte do Paraná. Graças ao movimento, entre 1.500 e 1.800 famílias receberam terras. No ano de 1953, João teve presença destacada na coordenação das ações dos comunistas junto à Greve dos 300 Mil em São Paulo, que chegou a paralisar 270 empresas.

Em 1957, de volta ao Rio, Saldanha conquistou o campeonato carioca como técnico do Botafogo, contando com a ajuda dos craques Garrincha, Didi e Nilton Santos. Em 1959, começou a trabalhar como comentarista esportivo. Com sua linguagem direta e simples, conquistou o público de rádio, jornal e televisão e ficou conhecido como “o comentarista que o Brasil consagrou”.

Em 1969 foi convidado por João Havelange a assumir a direção técnica da Seleção Brasileira, para reconquistar o apoio popular após o fiasco de 1966. Montou a base do fenomenal “escrete canarinho”, vitorioso na Copa de 1970, com os jogadores que ficaram conhecidos como “as Feras do Saldanha”. Suas posições políticas e as críticas que nunca deixou de fazer à ditadura o fizeram perder o cargo alguns meses depois que o general Médici chegou à presidência.

Com o fim da ditadura, compôs, como candidato a vice-prefeito do PCB, a chapa com Marcello Cerqueira (PSB) à Prefeitura do Rio de Janeiro, em 1985, numa frente eleitoral que empolgou a militância comunista e socialista do Rio, inundando as ruas com as bandeiras vermelhas.

Em 1990, o Brasil perdia o comentarista esportivo que revolucionou a análise das partidas de futebol, o colunista que escrevia sem rodeios e era entendido por todos, o militante que não recusava tarefas, o comunista íntegro e verdadeiro. Mas, como diria o João Sem Medo, “vida que segue”!

 

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