Não é a chuva! É o sistema!

Nota de solidariedade à população atingida pelos efeitos da Crise Climática na Zona da Mata Mineira
Partido Comunista Brasileiro – Juiz de Fora/MG
A manhã de 24 de fevereiro foi de intensa dor e apreensão na Zona da Mata Mineira, principalmente nos municípios de Juiz de Fora, Matias Barbosa e Ubá. Uma intensa concentração de chuvas desde o dia anterior, e parte da madrugada, provocou deslizamentos, alagamentos e transbordamento de rios, provocando destruição, dezenas de vítimas fatais, desaparecidos e milhares de desabrigados. Mesmo após intenso trabalho de limpeza e remoção, ainda existem pontos com grande quantidade de dejetos acumulados, resultando na interdição de vias e prolongando o sofrimento de famílias que tiveram seu cotidiano inviabilizado.
Chamamos de crise climática, pois o fator imediatamente causador dos desastres foi a intensa chuva concentrada, mas é importante identificar responsabilidades humanas e do sistema capitalista nas causas da tragédia. São abundantes as pesquisas que apontam como os eventos climáticos cada vez mais catastróficos têm ligação com o modo de produção que esgota os recursos, produz poluição e lixo, comprometendo irreversivelmente o equilíbrio ecológico. De forma imediatamente relacionada à deterioração dos locais de moradia, a ocupação urbana atende interesses da renda imobiliária, e não as necessidades do povo. Além da especulação, o inchaço de determinadas áreas sobrecarrega a rede de água e esgoto, impermeabiliza o solo, concentra veículos e poluentes; ao mesmo tempo, expulsa parcelas da classe trabalhadora para áreas de risco, sofrendo de forma potencializada as consequências desse processo. Encostas de morros, matas ciliares, nascentes, a fauna e a flora, ficam impedidas de cumprir seu papel de restauradores naturais das condições ambientais.
Às consequências climáticas de um sistema economicamente predatório e socialmente explorador, somam-se as decisões e práticas dos representantes políticos das frações burguesas. A extrema direita favorece o avanço da exploração destrutiva, ao mesmo tempo em que inviabiliza os instrumentos para lidar com a degradação ambiental. Nos últimos dois anos, o governo privatista de Romeu Zema cortou 96% dos recursos destinados à prevenção do impacto das chuvas, com o trabalho dedicado de sua base na ALMG e a comemoração de seus apoiadores neofascistas.
Nós do Partido Comunista Brasileiro – PCB de Juiz de Fora estamos prestando nosso apoio junto às brigadas voluntárias no auxílio dos trabalhos de recepção, triagem e distribuição de doações que a população têm encaminhado, demonstrando a sensibilidade popular às exigências do momento. Nossa militância se solidariza com o povo da Zona da Mata, colocando-se à disposição para todas as tarefas que a situação apresentar. O capitalismo coloca a existência humana em risco; a política da direita é uma ameaça à vida. A cooperação da classe trabalhadora organizada salva. Venceremos!
Nota do PCB Atibaia:
Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa não viveram uma “fatalidade”. Viveram o resultado de um sistema que transforma cidade em negócio, moradia em mercadoria e vidas em descartáveis.
Quando rios transbordam e encostas cedem, não é o acaso que escolhe quem perde tudo. É a classe social. São sempre os mesmos territórios: periferias, bairros operários, áreas sem drenagem, saneamento, infraestrutura e proteção do Estado.
Quem morre, quem perde casa, quem vira desabrigado é, majoritariamente, trabalhador, pobre, negro, periférico. A cidade não é neutra: é planejada para proteger uns e expor outros. Ela distribui risco como política pública.
Em Juiz de Fora, a destruição se espalhou onde sempre faltou Estado: Parque Burnier, Vila Olavo Costa, Vila Ideal, JK, Santa Rita. Bairros sem drenagem, saneamento, contenção de encostas e planejamento urbano adequados. Territórios onde o poder público nunca chegou com política estrutural, apenas com promessa, abandono e silêncio.
Em Ubá, o rio revelou décadas de descaso. A cidade cresceu sem planejamento, guiada pelos interesses da indústria e do capital, sem compromisso com a segurança da população. Casas ruíram, imóveis desabaram, bairros operários foram devastados. Não foi a água que destruiu a cidade, foi um modelo urbano construído sem povo e contra o povo.
Em Matias Barbosa, o decreto de calamidade pública apenas oficializa o que a população já sabe: viver em área de risco virou regra para quem não pode pagar por segurança. Encostas, margens de rios e territórios instáveis tornaram-se o destino imposto à população de baixa renda, enquanto áreas protegidas são cercadas por muros, condomínios e propriedades ociosas.
Na Zona da Mata, os números não são estatística fria: são vidas interrompidas, famílias destruídas, comunidades dilaceradas. Mortos, desaparecidos, desabrigados, casas soterradas, bairros devastados.
A chuva é natural.
A tragédia não.
A tragédia é política.
A morte é política.
O risco é político.
Nossa luta é pela vida.
Nossa trincheira é o território.
Nossa força é a organização.
Pelo direito à cidade.
Pela dignidade.
Pela moradia.
Pelo poder popular.
Porque não é a chuva que mata.
É o sistema.
