Por que as mulheres precisam se organizar

Enquanto este texto é escrito, cerca de quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil em razão da violência de gênero. Crianças e adolescentes seguem sendo violentadas cotidianamente. Esses não são acontecimentos isolados, nem desvios individuais. São expressões de uma realidade que se reproduz todos os dias, sustentada por uma estrutura social que naturaliza a violência e transforma vidas em estatística.
O Brasil vive uma conjuntura marcada pela intensificação dessa violência e pela rearticulação de ideologias regressivas. Fenômenos como a chamada “machosfera” (ambiente digital que reúne conteúdos e grupos que promovem a superioridade masculina e atacam o feminismo), o universo redpill (comunidades que difundem a ideia de que os homens estariam sendo prejudicados pelas mulheres) e iniciativas que buscam restaurar uma suposta autoridade masculina não podem ser tratados como meras manifestações culturais ou comportamentais.
Esses espaços se organizam em torno de valores que combinam a naturalização da desigualdade entre homens e mulheres, a defesa da autoridade masculina no âmbito da família, a desqualificação das lutas por direitos e a ideia de que relações sociais devem ser pautadas pela dominação e pela competição. A autonomia feminina é apresentada como ameaça, enquanto a submissão é revalorizada como ordem natural.
Nesse ambiente, elementos do pensamento ultraconservador ganham nova forma e circulação, combinando ressentimento social, negação da igualdade e rejeição de direitos. Não se trata apenas de machismo difuso, mas de uma construção ideológica que, em diálogo com formas contemporâneas de extremismo político, busca reorganizar valores sociais a partir da reafirmação de hierarquias, da naturalização da violência e da deslegitimação das lutas por emancipação.
Essa operação ideológica cumpre uma função precisa. Ao deslocar o conflito social para o campo da moralidade e da disputa entre indivíduos, obscurece-se o caráter estrutural da desigualdade. Em vez de questionar as condições de exploração, produz-se um cenário em que a ampliação de direitos é apresentada como ameaça, e não como conquista.
Tal ofensiva não se limita ao ambiente digital. Ela também se expressa em determinados segmentos religiosos que, especialmente no campo neopentecostal, têm atuado na difusão de valores que reforçam hierarquias de gênero e restringem direitos. Em nome da defesa da família e da moralidade, são mobilizadas concepções que reafirmam a submissão feminina, deslegitimam a autonomia das mulheres e atacam conquistas históricas.
Não se trata da fé como experiência individual, mas do uso político de discursos religiosos para sustentar uma ordem social desigual. Ao deslocar novamente o conflito social para o campo moral, esses discursos contribuem para obscurecer as relações de exploração e reforçar estruturas de dominação.
O patriarcado, neste sentido, não pode ser compreendido como resíduo do passado. Ele se mantém ativo porque cumpre funções concretas na organização da sociedade. Ao controlar o corpo, o tempo e a vida das mulheres, garante-se a reprodução de uma ordem que depende da desigualdade.
O trabalho doméstico e de cuidado, realizado majoritariamente por mulheres, permanece como base invisível da reprodução social. No Brasil, representa parcela significativa da riqueza produzida, embora não seja reconhecido nem remunerado. Ao mesmo tempo, as mulheres seguem concentradas nas ocupações mais precarizadas do mercado de trabalho. Dados recentes indicam que mulheres recebem, em média, cerca de 20% a menos que homens em funções equivalentes e são maioria nas ocupações informais. Além disso, acumulam jornadas que combinam trabalho remunerado e trabalho doméstico, ampliando sua sobrecarga cotidiana.
Essa posição não é acidental. Ela responde a uma lógica que articula exploração econômica e desigualdade de gênero, garantindo a redução de custos e a manutenção de hierarquias sociais. Tal realidade se aprofunda no contexto da crise contemporânea do capitalismo. Não se trata apenas de instabilidade econômica. A crise atinge o mundo do trabalho, corrói direitos, amplia a insegurança e reorganiza a vida social em bases mais desiguais. Nesse cenário, o aumento da violência e a difusão de discursos autoritários não são fenômenos paralelos, mas partes de um mesmo processo.
O cenário ganha força em meio a transformações no mundo do trabalho. Ao mesmo tempo em que as mulheres ampliam sua presença em diferentes setores, cresce a precarização para amplos segmentos da classe trabalhadora. Esse movimento tensiona hierarquias tradicionais, ainda que de forma limitada. Paralelamente, observa-se o crescimento do sentimento de frustração e deslocamento entre homens que enfrentam desemprego, perda de renda ou instabilidade. Em vez de se converter em questionamento das estruturas sociais, esse mal-estar é frequentemente canalizado contra as mulheres.
A machosfera e o universo redpill operam exatamente nesse ponto. Transformam insegurança material em ressentimento dirigido, reforçando a ideia de que a ampliação de direitos femininos seria responsável pela perda de posição masculina. Trata-se de uma operação ideológica que converte um problema estrutural em conflito entre indivíduos. A violência contra mulheres e crianças cumpre, nesse contexto, uma função social. Feminicídios, estupros e assédio não são apenas crimes isolados. São mecanismos que disciplinam, intimidam e restringem possibilidades.
No Brasil, mais de 1.400 mulheres são assassinadas por ano, ao lado de dezenas de milhares de casos de violência sexual, muitos deles contra crianças e adolescentes. A luta das mulheres conquistou avanços importantes no campo institucional. A Lei Maria da Penha representou um marco ao reconhecer a violência doméstica como violação de direitos e estabelecer mecanismos de proteção. Mais recentemente, iniciativas em debate no Congresso buscam ampliar esse enfrentamento, incluindo propostas que reconhecem a misoginia como forma específica de violência e a articulam ao campo dos direitos humanos.
Esse debate dialoga com compromissos internacionais assumidos pelo país, como a Convenção de Belém do Pará, que estabelece a obrigação dos Estados de prevenir, punir e erradicar a violência contra as mulheres. Ao atualizar essas referências, busca-se responder a formas contemporâneas de violência que extrapolam o espaço doméstico e se expandem também no ambiente digital e na esfera pública. Estas conquistas são resultado de décadas de mobilização e não podem ser desconsideradas. Elas expressam o reconhecimento de que a violência contra as mulheres não é questão privada, mas problema social e político.
No entanto, a existência de leis e pactos não elimina, por si só, as condições que produzem a violência. A permanência de índices elevados de feminicídio, estupro e assédio revela os limites de respostas que não enfrentam as bases materiais e ideológicas dessa realidade. A violência assume contornos ainda mais brutais quando se trata de mulheres trans e travestis, frequentemente excluídas do mercado de trabalho formal e empurradas para formas extremas de precarização. A vulnerabilidade a que estão expostas revela como a sociedade reage a corpos que rompem padrões estabelecidos. Reconhecer essa realidade não fragmenta a luta; amplia sua compreensão.
Diante disso, é necessário compreender que as possibilidades de transformação não são abstratas. Elas existem, mas não se realizam automaticamente. Dependem das condições concretas e das escolhas coletivas que uma sociedade é capaz de fazer. Os avanços tecnológicos ampliaram a capacidade de produzir riqueza. Em tese, isso permitiria reduzir jornadas de trabalho e ampliar o tempo disponível para a vida social. No entanto, o que se observa é a intensificação do trabalho, a precarização e a concentração de renda.
A luta pela redução da jornada de trabalho, sem redução de salários, expressa de forma concreta essa disputa. Trata-se de definir se o tempo liberado pelo avanço técnico será apropriado coletivamente ou convertido em mais exploração. Essa disputa está diretamente ligada às condições de vida das mulheres, que enfrentam jornadas extensas e acumulam responsabilidades que limitam sua participação política e social.
A história das mulheres demonstra que essa realidade sempre foi enfrentada por meio da organização coletiva. Em diferentes momentos, estiveram na linha de frente das lutas sociais, transformando a luta pela sobrevivência em ação política. O desafio colocado no presente é claro. Não se trata apenas de denunciar a violência, mas de enfrentar suas causas estruturais.
O 8 de março, nesse contexto, não é uma data comemorativa. É a expressão de uma luta em curso. E essa luta exige mais do que indignação. Exige organização. Não basta denunciar a violência se não enfrentarmos as estruturas que a produzem. Não basta reconhecer a desigualdade se não construirmos formas coletivas de superá-la.
A participação política das mulheres é condição para qualquer projeto de transformação social. Organizar mulheres, ampliar sua presença nos espaços de decisão e fortalecer sua atuação nas lutas sociais é tarefa urgente. Porque não haverá emancipação possível sem enfrentar o patriarcado e o capitalismo. E não haverá transformação real sem a ação consciente e organizada das mulheres trabalhadoras.
O Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro/PCB- Santos
