Fim da tortura e da mercantilização da vida!

Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro – PR
O Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro (CFCAM) vem a público manifestar sua indignação diante das graves denúncias reveladas pela Operação Aurora, realizada em Terra Roxa, no Oeste do Paraná, na quarta-feira, dia 16, segundo reportagem do G1 Paraná.
As investigações apontam que a clínica de reabilitação, leia-se comunidade terapêutica, mantinha mais de 70 mulheres em condições degradantes, com indícios de internações involuntárias e irregulares, trabalho forçado, castigos, privação de contato com familiares, omissão de socorro, ameaças e sedação compulsória com medicamentos, apelidadeos de “danone” pelos funcionários do estabelecimento. Conforme o MPPR, entre as internas estavam pessoas que fazem uso de substências e mulheres com deficiência.
As denúncias precisam ser rigorosamente investigadas e os encarregados devidamente responsabilizados. Porém, o que ocorreu em Terra Roxa exige que olhemos para além da culpa individual: o caso expõe a permanência de formas de confinamento, disciplinamento e retirada da autonomia das mulheres, especialmente daquelas mais vulnerabilizadas nas parcelas da classe trabalhadora.
Em “Calibã e a Bruxa”, Sílvia Federici demonstra que a consolidação do capitalismo esteve profundamente relacionada ao disciplinamento dos corpos femininos. A perseguição às mulheres, a destruição de sua sexualidade e de seus conhecimentos e a imposição de novas relações de trabalho e reprodução foram fenômenos intrinsicamente atrelados à formação da sociedade capitalista. Para Federici, reprimir as mulheres significava também disciplinar o conjunto do proletariado. A construção da mulher perigosa, desviante, desobediente ou moralmente condenável ajudou a legitimar diferentes formas de violência e a produzir divisões entre aqueles que eram igualmente atingidos pela exploração. Considerando, obviamente, o período histórico, essa reflexão permanece uma questão central no capitalismo.
Quando mulheres cis, homens trans e pessoas não binárias são consideradas incapazes de decidirem sobre suas vidas, torna-se mais fácil justificar que outros edcidam quais medicamentos devem tomar, com quem podem falar, quando podem ocupar os espaços etc. Sob o discurso do tratamento, abre-se espaço para práticas que podem retirar justamente aquilo que deveria estar no centro de qualquer política de saúde: a dignidade e a autonomia da pessoa atendida.
Essa violência não atinge todas as pessoas da mesma maneira. Mulheres cisgêneras pobres, mulheres e homens trans, pessoas não binárias trabalhadoras, periféricas, com deficiência, em sofrimento psíquico ou que fazem uso de substâncias encontram-se mais expostas à perda de autonomia. É neste ponto que o feminismo precisa ser classista. A vulnerabilidade não pode ser transformada em mercadoria. O sofrimento não pode constituir um mercado no qual instituições sejam remuneradas para administrar corpos considerados indesejáveis ou desviantes. A “terapia” não pode ser feita de maneira compulsória e sob condições de confinamento.
A história recuperada por Federici também demonstra resistência nesses processos. Na colonização e invasão europeia das Américas, as mulheres preservaram conhecimentos, organizaram comunidades, assumiram funções políticas e religiosas e tornaram-se parte fundamental da resistência. Por isso, diante das denúncias de Terra Roxa, nossa resposta não pode se limitar à responsabilização dos envolvidos. É necessário reafirmar a luta histórica do movimento antimanicomial e questionar o modelo que permite transformar cuidado, sofrimento e vulnerabilidade em fontes de lucro.
Defendemos o fim das comunidades terapêuticas e de toda forma de manicômio, lutamos pelo fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e demais equipamentos e serviços públicos de saúde mental, com atendimento territorial, comunitário, humanizado e orientado para o cuidado em liberdade. Defendemos políticas públicas capazes de acolher pessoas em uso de substâncias, sofrimento psíquico ou deficiência sem retirar delas sua conndição de sujeitos de direitos.
Para o feminismo classista, lutar contra a violência sobre os corpos significa também lutar contra as condições materiais que permitem que determinados corpos sejam confinados, explorados e silenciados. Nenhuma pessoa confinada, dopada, explorada ou silenciada em nome do cuidado!!
Manicômio não é cuidado. Exploração não é tratamento! Pela autonomia e dignidade das mulheres trabalhadoras!
