Por que “Catavento” não tem letra

imagemO que a música instrumental tem de extraordinário é que sua poesia emerge de um trabalho entre dois seres sociais que se completam à distância e no qual um não pode antecipar a contribuição do outro.

BLOG DA BOITEMPO

Por Mauro Luis Iasi

Para Fernando e seus irmãos

Meu amigo, músico, maestro e exímio instrumentista Carlinhos Antunes disse em uma apresentação recente que se irrita quando alguém diante de uma música instrumental lhe pergunta por que ela não tem letra. Ele costuma responder que é uma espécie de convite ao ouvinte para que faça sua própria letra. Já no filme sobre a vida de Ludwig van Beethoven, o compositor pergunta a uma pessoa o que ela imagina ao ouvir a 5a Sinfonia, ao que ela responde que se vê em uma fuga pela floresta. Beethoven então adverte que não havia outra maneira, uma vez que ele ordenou que fosse isso que a música determinasse.

Encontro-me no meio deste caminho. O compositor nos convida a produzir nossas imagens, mas ele organiza a festa, nos coloca na floresta, numa batalha, sentindo vento na proa de um veleiro, à noite ou no nascer do sol. Cada nota é uma pista de uma sensação, sentimento, um sopro que nos eleva ou empurra para as sombras.

Meu filho Camilo, por exemplo, que adora a 5a Sinfonia, diz que imagina um cara tocando piano numa batalha de Star Wars. Duvido muito que o velho Ludwig concordasse, mas igualmente ele ordenou isso em seus acordes magistrais.

De qualquer maneira, a música é um poema. Vejam bem, eu, que em relação aos músicos cultivo uma saudável inveja e uma profunda admiração, me refugio na força das palavras, poderia assim estar dando munição aos adversários. Quando afirmo que a música é um poema, parto do pressuposto de que o poema comunica algo servindo-se de palavras, nos induzindo assim a conjurar pensamentos, sentimentos, valores, pessoas ou circunstâncias, como a música que se serve no lugar das palavras de suas notas e acordes. As duas manifestações artísticas convergem, no entanto, em um ponto crucial: ambas se servem de significantes para comunicar significados que não se encontram expressamente no veículo que utilizaram.

Uma palavra que no corpo do poema nos leva por sua força até o sublime, fora dele não passa de uma palavra, como se eu pronunciasse a palavra “verde” e esperasse alguma reação parecida com aquela que sentimos ao ouvir os versos “Verde que te quiero verde, verde viento verde rama, el barco sobre la mar, el caballo en la montaña”, costurados pela sensibilidade de Frederico Garcia Lorca. Da mesma maneira, o compositor tece suas imagens associando numa cadeia de sons as notas musicais de forma que juntas constituem algo que dispersas não havia.

O que a música instrumental tem de extraordinário é que esse poema emerge de um trabalho entre dois seres sociais que se completam à distância e no qual um não pode antecipar a contribuição do outro. Evidente que o trabalho de base é o do compositor. É ele que tece os fios que constituem a melodia, o andamento, o ritmo. Mas se vamos correr em fuga pela floresta europeia e fria ou entre estrelas de um futuro universo em plena guerra contra o Império, isso cabe ao ouvinte. O mesmo ocorre com a poesia, como já vaticinou Haroldo de Campos através de sua metáfora sobre os dois lados da laranja que se completam quando o leitor encontra o poeta. E também com a vida, essa união improvável entre seres sociais dispersos numa fria divisão social do trabalho e que no conjunto constituem o que chamamos de sociedade.

Meu outro filho, instrumentista sensível que compensa por realização externa a impotência musical do pai, em uma bela música composta em homenagem ao avô, “Nani”, nos apresenta um canto fúnebre, mas que consegue trazer toda a gentileza e força da pessoa homenageada. Quando a música encontra a voz de Pedro Iaco somos preenchidos por uma tristeza tão profunda que se proclama como fosse uma pletora de alegria e renascimento. A voz, esse instrumento primário e fundante, que vibra numa dança com as cordas precisas do violão, como por mágica nos conduz como um pequeno papel mantido por uma brisa, ou aquelas partículas de poeira cruzando o raio de sol matinal que invade a janela. Para mim, tudo isto ocorre no quarto de costura de minha tia. Mas esta é minha parte, o pai para mim não é a mesma pessoa que o avô do Giovanni, assim como a dor da voz é de um outro pai ausente.

Assim, uma música e três poemas que podem ser milhares de outros quartos de costura, pais e avôs ou simplesmente finais e separações que deixam lembranças a preencherem seu rastro de ausência. Pode ser um irmão que parte deixando um vazio imenso, ou então um irmão que a distância me impede o abraço, mas algo na música faz com aquela pressão na base da garganta encontre sua nascente no canto do olho. Para a música, é indiferente se carrega a morte, o encontro ou a manhã quente e seus raios de sol. Assim como o rio é indiferente às folhas que carrega; e o vento às suas pequenas naves de poeira ou pedaços de papel. A lágrima, indiferente ao conteúdo concreto, trás uma dor, só isso – uma dor – a gelatinosa substância impalpável abstraída de seus conteúdos concretos pode, desta forma, tornar-se… universal.

O arranjo de Sarau o que feito para a Orquestra Mundana, uma das iniciativas e realizações de Carlinhos Antunes, é um desafio. Quando conheci esta música, anos atrás, somente no violão de Carlinhos, era claramente um sarau antigo, uma reminiscência que me remetia a salões de baile e serestas com pessoas de ternos justos e gravatas finas pendendo de colarinhos engomados, damas com vestidos longos e rodados com decotes de renda e sombrinhas. Na versão da orquestra, sem deixar de ser isso tudo, convida Piazzolla para bailar um tango, explode fronteiras, os homens têm sotaque portenho e as damas saltam de um quadro de Toulouse-Lautrec em Paris.

Toda música, assim como todo poema e a própria vida, é sempre uma obra inacabada. Cantamos a Internacional em um mundo diferente dos camaradas que a entoavam no século XIX, mas seu rio nos carrega no mesmo sentido universal indiferente à cor das folhas levadas, das partículas de poeira que dançam no ar, do nome de nossos mortos e diante dos seus primeiros acordes nos sentimos vagamente uma classe que pode mudar o mundo.

Uma brisa entra pela janela numa manhã em que o sol de inverno nos convida a acreditar que, depois do frio e da noite, estaremos aqui para que nosso olhar triste lembre a todos que sobrevivemos à dor. Uma afirmação insensata e descabida que a tristeza não pode ser mais forte que a vida. Então nos pomos a dançar, rodopiar, como um pequeno pedaço de papel no vento, como partículas de poeira em um raio de sol… como um catavento.

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.

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