Por uma parada lgbt sem empresas e sem sionismo

imagemDiante do cenário em que nos encontramos hoje, com diversos ataques às liberdades democráticas, que atingem com maior grau de profundidade os setores mais vulneráveis da classe trabalhadora – tais como as LGBT, as mulheres, a população negra etc –, vemos uma apropriação cada vez mais significativa de um símbolo internacional de luta como é a Parada do Orgulho LGBT para a defesa de interesses que não são os nossos.

A Parada do Orgulho LGBT tem suas origens internacionais em experiências como a Revolta de Stonewall, manifestação das LGBT trabalhadoras em resposta à agressão do Estado norteamericano, encarnado em seu braço armado, e em outros momentos esteve intimamente vinculada aos movimentos dos trabalhadores, como se deu na Marcha do Orgulho Gay de Londres em 1985, na qual a aliança entre os gays, lésbicas e o sindicato dos mineiros conseguiu fazer daquele evento, um evento extremamente combativo.

Hoje, porém, vemos a Parada do Orgulho LGBT da cidade de São Paulo, que é a maior do mundo, com um caráter completamente liberal, corporativo e desviando o foco de enfrentamento e questionamento que nosso movimento deve ter.

A CUT, central sindical que tem uma tradição de sempre ter pelo menos um carro de som na Parada LGBT, este ano foi boicotada pela Associação da Parada do Orgulho LGBT (APOGLBT), que organiza o evento. Repudiamos esta decisão da APOGLBT, cujos objetivos são políticos, pois Heitor Werneck, atual responsável pela produção cultural da Parada, anunciou no ano passado que tiraria o caráter de “passeata chata” que os carros de sindicatos faziam a Parada ter. Para tanto, este senhor cobrou taxa abusiva da CUT para a permanência do carro de som e dificultou as tratativas.

A ideologia opera justamente desta forma: a organização diz que quer tirar o caráter político de um movimento que deve ser político, mas isto se prova mentira a partir do momento em que empresas como a Uber e a Skol são patrocinadoras do evento. Preferir empresas a sindicatos também se trata de uma decisão política, a qual representa uma tentativa de desvincular a luta LGBT da luta de classes, dando a este evento um caráter completamente festivo, liberal e de estagnação da luta que procura reais transformações para a situação das LGBT trabalhadoras, logo, de uma luta que quer romper com a estrutura vigente.

Concomitantemente a isto, repudiamos também o bloco de Israel que haverá nesta Parada. Em parceria firmada entre Alexandre Herchcovitch, o Consulado Geral de Israel em São Paulo, a Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil e a AccorHotels, este bloco pretende ter a participação de 600 pessoas celebrando uma suposta “pluralidade de Israel”.

O Estado de Israel diz ser o melhor país para LGBT no mundo, ou mesmo o único país do Oriente que respeita as LGBT, porém é internacionalmente conhecida esta prática como “pinkwashing”, isto é, uma forma de usar a causa LGBT como desculpa para legitimar o genocídio do Estado de Israel com o povo palestino. Israel vem há décadas perseguindo sumariamente a população palestina, independentemente da orientação sexual ou do gênero dos perseguidos, e colocando a diversidade do povo palestino para a estatística de mortos pelo apartheid promovido.

É absurdo que a Parada LGBT de São Paulo faça coro com a política de apartheid do sionismo, que mata tanto o povo palestino quanto as nossas LGBT brasileiras vítimas da polícia. Não nos esqueçamos que Israel fornece o armamento das nossas Forças Armadas e muitas vezes das forças auxiliares também, como foi o caso dos carros-tanque comprados pela Polícia Militar de São Paulo.

Neste sentido, entendemos que não podemos tirar a radicalidade do movimento histórico das LGBT e conclamamos a todas as LGBT a construírem na Parada LGBT deste ano um bloco crítico a esta mercantilização do espaço, também crítico à política de extermínio do Estado de Israel. Temos muito a aprender com a Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, que vai para a sua décima sexta edição sem nem um centavo de apoio corporativo, muito menos declarando apoio ao que há de mais reacionário na conjuntura internacional.

Por uma Parada LGBT livre de empresas e com a combatividade que deu origem internacional a este evento,
Por uma Palestina soberana e livre,
Pelo poder popular!

Coletivo LGBT Comunista – SP