ENCONTROS QUE A MEMÓRIA GUARDA*

imagem– Um livro do Embaixador Alfredo Duarte Costa

Por Miguel Urbano Rodrigues

Tive a oportunidade ao longo da vida de conhecer muitos diplomatas portugueses.

Com raras exceções, não guardei dos contatos mantidos com os embaixadores boas recordações. Não apreciei o estilo mundano, a incultura, a frivolidade, o desconhecimento da História da grande maioria.

Alfredo Duarte Costa é uma das poucas exceções.

Ao ser nomeado embaixador em Cuba, onde eu então residia, abriu-me as portas da Embaixada.

Em poucos meses construímos uma inesperada e sólida amizade.

O que me atraiu nele?

Em primeiro lugar, a recusa de servilismo perante o governo que representava, na época o do Partido Socialista. Manteve boas relações com os ministros Jaime Gama e Luis Amado, mas preservando sempre a sua independência.

As relações diplomáticas entre Portugal e Cuba eram más quando chegou a Havana. A lenda negra que envolvia a Revolução Cubana não o impressionou. Sucessivos governos portugueses tinham encarado o governo cubano não como um adversário, mas como um inimigo.

Os embaixadores anteriores não se tinham esforçado por compreender a Ilha revolucionária e o seu povo. O último era um burocrata reacionário. Quando uma missão parlamentar portuguesa desembarcou em Havana, ausentou-se de férias para não a receber, porque discordava da iniciativa.

Alfredo Duarte Costa, quando chegou, já estudara a História de Cuba, da ditadura de Fulgêncio Batista, de Moncada, da luta na Sierra Maestra e o percurso da Revolução.
No seu livro evoca com pormenores a sua relação com Fidel Castro. Foi excelente desde o primeiro contato.

A inteligência, a cultura, o humanismo, a grandeza do dirigente cubano impressionaram-no. Com o tempo, entre ele e os filhos do segundo casamento de Fidel estabeleceram-se laços de amizade. O mesmo ocorreu com as filhas do Che, Aleida e Célia.

Foram amizades que resistiram ao passar dos anos, e que não  seriam  afetadas por perspetivas sobre a vida e a história muitas vezes divergentes, como ele sublinha.
Não esqueci que foi precisamente a sua tendência para respeitar e admirar pessoas com ideias diferentes que o levou a oferecer, na Residência, a Antonio Dias Lourenço, ex dirigente do PCP, um almoço em que participaram membros do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba.

Almocei muitas vezes na Residência quando passavam por Havana personalidades portuguesas. Recordo encontros ali com Luis Amado, então vice ministro dos Negócios Estrangeiros que fora meu contemporâneo na Assembleia da República; Cabrita Neto e Victor Louro, ex-camaradas do PCP, e o embaixador Rui Medina, amigo desde a adolescência.

Relembro ainda os almoços com os embaixadores da Bélgica, da França e do Brasil e com amigos cubanos comuns.

Guardo também memória das refeições e festas na Residência, inesquecíveis pela informalidade, pela heterogeneidade dos convidados, políticos, intelectuais, artistas, dirigentes do Partido Comunista.

Foi por sugestão do Alfredo que o Instituto Camões me convidou a participar num Seminário Internacional sobre Eça de Queirós que se realizou en Havana. Fui a exceção no programa. Os autores das comunicações apresentadas eram especialistas -portugueses, espanhóis, norte-americanos, brasileiros, cubanos – na obra do escritor, entre eles Isabel Pires de Lima, que mais tarde foi ministra da Cultura.

Como não sou acadêmico nem queirosiano, e Eça fora cônsul em Havana – nomeado para defender os trabalhadores chineses vindos de Macau com passaporte português – o tema da minha intervenção incidiu sobre o seu desempenho como diplomata na Ilha, então colônia espanhola. Embora sem o culpabilizar muito, lembrei que Eça, na sua correspondência com o ministro dos Estrangeiros, João de Andrade Corvo, revelou incompreensão da rebelião cubana contra a Espanha, liderada na primeira guerra da independência por Carlos Manuel de Céspedes.

A OBRA E O HOMEM

Neste livro, o autor esclarece na Introdução que «as personagens escolhidas não o foram pela sua importância, mas por representarem tipos humanos».

Entre gente que por motivos muito diferentes lhe inspirou admiração, Alfredo selecionou 14 pessoas, umas famosas, outras não. O capítulo mais extenso (72 páginas), e para mim o mais importante, é o dedicado a Fidel Castro.

Mas são tambem muito interessantes outros, dos quais destaco aquele em que evoca a sua relação de amizade com Aleida e Célia, as filhas do Che; e os que incidem sobre Mikis Theodorakis, Company Segundo, José Saramago , Antonio Tabuchi, Juliana Lumumba e Jean Pierre Bemba.

Distancio-me porem do I Capítulo, sobre Mário Soares.

Uma relação de grande amizade ligou desde a adolescência Alfredo Duarte Costa ao ex-presidente da República. Admira-o muito, foi seu assessor. A minha opinião sobre o político e o cidadão Mário Soares é diametralmente oposta.
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Finda a sua missão em Havana, Alfredo Duarte Costa foi embaixador na República Democrática do Congo e na Grécia.

Mas não esqueceu Cuba. Durante aqueles cinco anos forjou amizades indestrutíveis. Ama a Ilha revolucionária e o seu povo.

É um afeto tão profundo e complexo que voltou frequentemente em férias a Cuba para reencontrar amigos e reviver encontros que deixaram marcas indeléveis na sua personalidade e mundividência.

A Cuba atual difere muito da que conheceu.

Posteriormente ao término da sua missão em Havana, já em Kinshasa, Alfredo Costa acompanhou com tristeza o afastamento de funções oficiais no Partido e no Estado de dois grandes amigos: Carlos Lage, ex-vice presidente do Conselho de Estado, o dirigente que desempenhou um papel decisivo na recuperação econômica durante o Período Especial; e Pérez Roque, ex-secretário de Fidel e depois ministro das Relações Exteriores. Mas não aborda o tema.

Aliás nunca, registro, lhe ouvi uma palavra de crítica a Fidel e Raul pela decisão que significou o fim da vida política de Lage e Pérez Roque.

Alfredo é um socialdemocrata progressista. Mas isso não o impediu de construir amizades fortes com comunistas. «A existência – como esclarece – de divergências políticas, diferenças culturais ou valores distintos não constituíram um obstáculo ao meu relacionamento com alguns dos personagens mencionados».

Essa atitude perante a vida transparece nos Encontros Que a Memória Guarda.

Vila Nova de Gaia, 25 de abril de 2017.

*Alfredo Duarte Costa, Encontros Que a Memória Guarda, Editora Caminho,423 páginas, Lisboa, Abril de 2017