Não temos tempo de ter medo!

Não me falaram que era para ter medo… Então enfrentei.
Sem tempo para ter medo, o Comuna ocupa tudo no Carnaval

Heitor Cesar Ribeiro – membro do Comitê Central do PCB e um dos Fundadores do Comuna que Pariu
Bil Rait Buchecha – membro do Comitê Regional do PCB-RJ e mestre de Bateria do Comuna que Pariu

Em tempos de ofensiva conservadora e recrudescimento autoritário na América Latina, o carnaval pode voltar a cumprir um de seus papéis mais profundos: falar sério sem perder a brincadeira, vir a ser uma trincheira simbólica da democracia, da memória e da luta popular, ou seja, uma eficiente arma da crítica.

Quando os surdos tocam, atendendo o chamado do repique, e as caixas, os chocalhos e os tamborins jogam o molho ecoados pelos soluços da cuíca, não se trata apenas de festa — trata-se de uma forma histórica de resistência cultural, não apenas diante da indústria cultural e seus modismos impostos, mas também diante da violência política, do autoritarismo e da pressão imperialista que, ontem como hoje, tentam impor silêncio aos povos do continente.

O cenário internacional é adverso. A política externa dos EUA segue reafirmando velhos padrões de intervenção: a permanente hostilidade contra Cuba, a escalada de sanções e ataques à Venezuela, a normalização da ingerência em processos internos de países latino-americanos. Ao mesmo tempo, assistimos à ascensão de forças de extrema direita que combinam neoliberalismo radical, conservadorismo moral e autoritarismo político — como se vê na Argentina de Milei, no Chile com a vitória de Kast e nos próprios EUA, com o retorno ainda mais forte do fantasma trumpista. São tempos difíceis para a alegria, poesia e para o amor.

O Brasil recente espelha essa complexa conjuntura. A tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 não foi um delírio isolado, mas o desfecho de um ciclo de radicalização da extrema direita, alimentado por discursos de ódio, revisionismo histórico, pela pós-verdade e pós- lógica e, também, nostalgia da ditadura militar. Diante disso, o carnaval popular também pode se converter em espaço de memória e palavra ativa: lembrar para não repetir, cantar para não esquecer, denunciar para que não haja anistia moral ou jurídica aos que atentaram contra as liberdades democráticas, afinal, devemos ampliar o sentimento de ditadura nunca mais.

A exigência de punição aos golpistas não é vingança — é compromisso civilizatório. Países que flertam com a impunidade de crimes políticos acabam naturalizando a violência institucional. A experiência latino-americana ensina: onde não houve justiça na redemocratização, a extrema direita sempre encontrou terreno fértil para voltar. O samba que denuncia o fascismo é, nesse sentido, mais do que música: é pedagogia política popular.

Nesse contexto, a cultura popular não pode se limitar a ser ornamento, mas sim, se afirmar como território de disputa política. O carnaval, sobretudo o carnaval de rua, é um desses espaços onde o povo não apenas celebra, mas elabora coletivamente sua dor, seu lamento, sua memória e sua indignação e também sua esperança, seus amores e seus sonhos sonhados. Desde os ranchos e cordões do início do século XX até os blocos politizados de hoje, a folia sempre foi lugar de sátira, denúncia e resistência — contra o racismo, contra a repressão, contra a miséria e contra o autoritarismo.

É nessa tradição que se insere o enredo do Comuna que Pariu no Rio de Janeiro: “Não temos tempo de ter medo”. A frase sintetiza nosso sentimento político que atravessa gerações: quando o fascismo bate na porta, não há espaço para neutralidade. Não ter tempo de ter medo é escolher a coragem coletiva em vez da paralisia individual; é afirmar que a luta democrática não se faz apenas nos parlamentos e palácios, mas também nas ruas, nas praças e nos batuques.

Mas a luta não se limita às fronteiras nacionais. Quando um bloco canta contra a extrema direita no Brasil, ele também canta contra o avanço autoritário no continente. Canta contra a criminalização da esquerda no Chile, contra o cerco permanente a Cuba, contra a demonização da Venezuela e contra a tentativa de transformar a América Latina em quintal geopolítico dos EUA. O carnaval, nesse sentido, internacionaliza a resistência — faz da alegria uma forma de solidariedade entre os povos, afinal, em tempos de ódio, o amor, mais do que nunca, é revolucionário.

Ao cantar “Não temos tempo de ter medo”, o carnaval popular faz mais do que protestar. Ele afirma através da alegria: que a democracia se defende com organização, com memória, com reparação, justiça e com cultura. Em tempos de fake news, discursos de ódio e naturalização da barbárie, a arte volta a ser uma linguagem política fundamental na batalha das ideias — não como panfleto raso, mas como construção sensível de consciência social.

Talvez seja essa a maior força do carnaval: ele não impõe, convida; não ordena, provoca; não ameaça, mobiliza. E justamente por isso se torna tão perigoso para os autoritários. Onde há gente dançando, cantando e rindo coletivamente, há também gente pensando, lembrando e resistindo.

No Brasil, no Chile, em Cuba, na Venezuela e em toda a América Latina, o futuro democrático não se constrói apenas nos palácios — constrói-se também nas ruas, nos blocos e nas baterias. Em cada samba que denuncia o fascismo, em cada estandarte que defende a liberdade, em cada corpo que ocupa a cidade com alegria insurgente, pulsa uma certeza histórica: o carnaval não é fuga — é trincheira.

O amor que sentimos pela nossa classe, pela nossa gente, vai transbordar pelas esquinas, fortalecendo laços e potencializando a coragem de resistir e de construir o novo.

Vem com a gente que a rua é nosso território. Vem com a gente dizer que seguimos de pé, de cabeça erguida e sem medo.