Entrevista dO Momento: Edmilson Costa

imagemPor Milton Pinheiro

JORNAL O MOMENTO – PCB da Bahia

Edmilson Costa é professor universitário, doutor em Economia e Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

O MOMENTO – O PCB realizou recentemente o seu XVI Congresso, às vésperas de completar 100 anos. Qual é o significado do lema “Pelo Poder Popular, rumo ao socialismo” nesse contexto histórico?

EDMILSON COSTA – A questão do Poder Popular é um dos temas mais importantes na luta de classes hoje. Primeiro, porque esta palavra de ordem já foi apropriada pelo movimento popular nas ruas. Em todas as manifestações, as massas gritam com entusiasmo: “Lutar, Criar, Poder Popular!” Segundo, porque é um processo que se encontra em construção pela própria dinâmica da luta social.

Mas é importante esclarecer que o Poder Popular não é uma proposta tática ou uma articulação entre os partidos de esquerda, e sim um processo de criação das massas. O Poder Popular já existe embrionariamente na luta dos movimentos sociais, na resistência dos trabalhadores, nas greves, nas ocupações, muito embora essas lutas ainda estejam bastante fragmentadas, sem direção e unidade programática e política.

Entretanto, com o acirramento da luta de classes e com a intensificação das lutas sociais, bem como com a experiência obtida pelo movimento popular nessas lutas, esse processo de construção do Poder Popular deverá caminhar para a unidade programática em torno de eixos comuns e, assim, superar a fragmentação. Ou seja, nesse momento, o Poder Popular já acumulou forças suficientes para se apresentar como alternativa de poder à dominação das classes dominantes.

O MOMENTO – Como foi a dinâmica da democracia interna, em um Partido leninista, a partir do longo processo que envolveu células e congressos estaduais em todo o país?

EDMILSON COSTA – O nosso Partido se orgulha da sua democracia interna. Nesse Congresso, as teses (Perfil do proletariado, Programa de Luta e Organização) foram discutidas durantes meses nas células partidárias, do Acre ao Rio Grande Sul, uma vez que o nosso Partido está organizado em todo o país, principalmente nas grandes cidades com mais de 150 mil habitantes.

Posteriormente, foram discutidas novamente nos congressos estaduais, quando também se elegeram as direções regionais. A partir das contribuições das células e dos congressos estaduais, reelaborou-se os documentos com essas contribuições e as teses foram novamente debatidas no Congresso Nacional. Primeiro, em dez grupos de discussão e, depois, em dois dias de assembleias congressuais, onde todos os delegados puderam, mais uma vez, expor suas opiniões.

Portanto, as teses aprovadas no Congresso representam um rico acúmulo de formulações, onde todo o Partido participou de sua elaboração, o que reforçou o princípio comunista da criação coletiva e do centralismo-democrático, e nos armou com uma linha política que permitirá à nossa militância atuar com mais clareza na difícil conjuntura em que estamos vivendo.

O MOMENTO – Quais foram as principais temáticas debatidas no Congresso?

EDMILSON COSTA – Reafirmamos o caráter socialista da revolução brasileira a partir de uma leitura da realidade do nosso país, das características do capitalismo brasileiro, da análise tanto da burguesia quanto do proletariado, do caráter do Estado e dos processos de luta de classe realizados no Brasil. Reafirmamos também a necessidade da construção de uma poderosa frente anticapitalista e anti-imperialista, com peso social, político e de massas, que assegure a independência política, orgânica e de classe do proletariado nesse processo de luta. Aprofundamos, ainda, a compreensão sobre o Poder Popular e as tarefas da revolução brasileira.

Essas formulações possibilitam aos comunistas maior clareza em relação à luta de classes, subordinam nossa tática a essa estratégia e evitam as ilusões reformistas ou uma quimérica humanização do capitalismo. Definir o caráter socialista da revolução brasileira não significa ausência de mediações na luta concreta do proletariado e da população em geral – processo do qual estamos na linha de frente em todas as grandes cidades. Pelo contrário: essa estratégia nos libera da camisa de força de alianças espúrias com os nossos inimigos de classe, a burguesia e o imperialismo, e deixam claro quem são nossos aliados e quem são nossos inimigos no processo de construção da revolução brasileira.

O MOMENTO – No processo de construção da revolução brasileira, quais são os principais aliados táticos e estratégicos do PCB?

EDMILSON COSTA – Temos a convicção de que a revolução brasileira deverá ser um fenômeno de massas. Só poderá ser vitoriosa se envolver milhões e milhões de trabalhadores e trabalhadoras, os movimentos sociais e populares no processo de lutas. Nessa trajetória, o proletariado deve ser espinha dorsal do processo de transformações sociais, econômicas e políticas, o que significa dizer que não haverá aliança com a burguesia nem concessões ao imperialismo. A burguesia, em todos os momentos históricos, esteve aliada com o imperialismo. Além disso, a experiência histórica demonstrou que os partidos que tentaram esse caminho foram derrotados e algumas vezes humilhados pela própria burguesia, como ocorreu recentemente.

Para os comunistas, os aliados da revolução brasileira são os trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, o povo pobre das periferias, a juventude, os intelectuais progressistas e todos os que estiverem dispostos a participar efetivamente da luta contra o capitalismo e o imperialismo. Muita gente imagina que ter o proletariado como espinha dorsal do processo de transformações estreita o processo de alianças; nós entendemos o contrário: o proletariado, suas famílias e seus aliados constituem a imensa maioria do povo brasileiro, sendo o contingente absolutamente majoritário que tem interesse objetivo no processo de transformações em nosso país.

O MOMENTO – Como o Partido Comunista opera na luta de classes, quais são as questões centrais a serem implementadas?

EDMILSON COSTA – Nós vamos completar, em março de 2022, 100 anos de existência. Trata-se de uma das mais belas trajetórias de uma Organização Revolucionária. Sempre estivemos incondicionalmente na luta com os trabalhadores e pelo socialismo no Brasil, e a burguesia e o imperialismo nunca nos perdoaram por essa ousadia. Para se ter uma ideia, somos o Partido Comunista do mundo que mais tempo operou na clandestinidade. De 1922 até 1985, tivemos apenas 2 anos de legalidade; nos outros 63 anos, atuamos clandestinamente. Na última ditadura, assassinaram na tortura um terço do Comitê Central. Mesmo assim, produzimos os maiores heróis populares do século XX e influímos em todas as áreas da sociedade, da ciência ao futebol, dos direitos trabalhistas à formação política. Por isso, o poeta já disse que, quem contar a história do Brasil e das lutas de nosso povo e não falar do PCB, estará mentindo.

Com a queda da União Soviética, pagamos internamente um alto preço, porque éramos o Partido ligado ao Movimento Comunista Internacional e à URSS. Tivemos que enfrentar o liquidacionismo nas condições mais adversas, tanto nacional quanto internacionalmente, e há cerca de 30 anos estamos realizando com muito êxito o processo de Reconstrução Revolucionária. Portanto, essa longa experiência nos permite dizer que nossa tarefa, hoje, é ampliar e enraizar o Partido no proletariado, lutar pela reorganização de nossa classe e aumentar nossa influência política junto aos outros setores da sociedade, de forma a nos apresentar neste novo ciclo de lutas como um dos protagonistas da revolução brasileira.

O MOMENTO – O PCB é o mais longevo operador político do projeto da classe trabalhadora brasileira. Hoje, com o firme projeto da Reconstrução Revolucionária, o Partido se consolidou na esquerda brasileira e nas lutas da nossa classe?

EDMILSON COSTA – Nós vivemos um período muito difícil na primeira década de Reconstrução Revolucionária, porque a conjuntura anticomunista nacional e internacional era bastante adversa, bem como o Partido sofreu um trauma enrome com o racha de 1992. Poucos acreditavam que conseguiríamos reconstruir o PCB naquelas condições, afinal, estávamos lutando contra personagens que faziam parte da história brasileira. Por exemplo, Salomão Malina era herói da Segunda Guerra, Hércules Corrêa e Tenório de Lima foram da direção do CGT, outros eram dirigentes históricos do Partido. E quem éramos nós? Apenas jovens dirigentes intermediários e militantes de base. Não éramos históricos, não éramos famosos, não tínhamos liderança nacional. Mas tivemos a coragem, no momento mais difícil da luta de classes mundial, de continuar acreditando no socialismo e evitar a liquidação do PCB por quem estava dando adeus ao proletariado.

Foi a certeza de que o capitalismo era incapaz de resolver os problemas da humanidade e que o socialismo era um horizonte viável, que nos fez resistir à liquidação do PCB. Se olharmos retrospectivamente, essa foi uma luta que valeu a pena. Nossa Organização é, hoje, um Partido de militantes revolucionários, organizado por células em todo o país, com grande autoridade política junto à esquerda brasileira, com grande influência na juventude e participação expressiva nos movimentos sociais e populares, e com prestígio no Movimento Comunista Internacional. Não tem uma luta de rua em nosso país em que não se veja tremulando nas manifestações as bandeiras do PCB e de seus coletivos de luta. Esse é um motivo de orgulho para todos nós.

O MOMENTO – Nesse Congresso, você foi reconduzido à Secretaria-Geral do Partido. Quais são suas prioridades no exercício dessa histórica missão política?

EDMILSON COSTA – Assumi a Secretaria-Geral há cinco anos, em função dos problemas de saúde do camarada Ivan Pinheiro. Logo no início dessa nova tarefa elaborei um documento, posteriormente aprovado pelo Comitê Central, denominado Preparar o Partido Para o Novo Ciclo, no qual procurei traçar um plano de ação para o Partido que envolvia tarefas políticas, orgânicas, de formação e crescimento de nossa Organização Revolucionária. Posteriormente, o Comitê Central aprovou outro documento programático chamado de Pão, Terra, Trabalho e Moradia, onde o Partido buscou delinear os elementos fundamentais de um programa para o difícil e complexo período que estávamos vivendo. Nesse momento, consolidamos a maioria dos coletivos e estivemos dialogando presencialmente com camaradas de quase duas dezenas de estados.

A pandemia veio interromper nossas atividades presenciais, que só foram retomadas a partir das lutas de rua esse ano. A recondução à Secretaria-Geral foi uma generosidade de nossa militância e um reconhecimento ao trabalho que desenvolvemos. Agora, estamos num período ainda mais difícil da luta de classes, com um governo genocida, inimigo dos trabalhadores e subserviente ao imperialismo. Por isso, nosso trabalho deverá ser redobrado. Nosso objetivo é ampliar a influência orgânica e política do PCB, ou seja, crescer com qualidade e recrutar com ousadia, estar presente em todas as lutas de nosso povo, e preparar orgânica e ideologicamente a nossa militância para qualquer tipo de conjuntura que o futuro venha impor aos trabalhadores e trabalhadoras e à juventude.

Nós acreditamos que o PCB voltou a ser um instrumento efetivo da luta de classes em nosso país e no novo ciclo de lutas que se abriu a partir de 29 de maio. Temos convicção de que seremos um dos principais protagonistas do processo de transformações da sociedade brasileira em curso. Vou trabalhar duro para que isso se torne realidade.